domingo, 13 de janeiro de 2008

Quando o bicho pega

__Ibrahim era o colega marroquino que assumia a recepção do Mountain Inn à meia-noite, quando meu turno terminava. Ele tem cidadania americana e estuda Engenharia Elétrica na MSU (a universidade que fica em Bozeman). Andava preocupado com suas notas na faculdade, que vêm caindo desde que começou a trabalhar demais. É um poço de carisma. Trabalhava quantas horas extras pedissem, tratando os clientes sempre com respeito e simpatia. Fiquei surpreso quando soube que a trabalhadora brasileira mais briguenta do resort já tinha brigado com ele, pois achei que nem mesmo ela seria capaz de se irritar com o rapaz. Mas esse post não é sobre a vez em que alguém se irritou com o Ibrahim, e sim sobre a noite em que o Ibrahim se irritou com alguém.
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__O balcão do hotel.
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__Era a minha última noite de trabalho no Mountain Inn. Ibrahim apareceu perto das 11:50.
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__O hotel.
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__-Ibrahim!
__-Hey, Renan.
__Ele andou pelo lobby e passou para trás do balcão onde trabalhávamos. Dei início à despedida:
__-Ibrahim, essa é a última vez que nos falamos pessoalmente.
__-Pois é. Você não volta pra Big Sky no fim do ano?
__-Não. Tenho uns planos no Brasil.
__-Tá certo.
__-Obrigado por ter me ensinado as coisas aqui do trabalho.
__-Estou feliz por ter te conhecido, Renan. Você é um cara trabalhador, amigável, engraçado...
__-Vamos continuar nos falando por e-mail. Quem sabe nos vemos aí no futuro? Pretendo voltar um dia.
__-Isso, volta.
__Bati meu ponto e fui para o lado de fora do balcão. Fiquei apoiado na mesa e continuei conversando com ele.
__-Vou passar uns dois dias em Bozeman, depois vou encontrar uns amigos...
__Enquanto eu falava, entrou um rapaz louro, magro, de bermuda, camiseta e chinelos e com cheiro de álcool. Mesmo que não estivesse alcoolizado e com a barba por fazer, já teria chamado a atenção por não estar protegido do frio congelante da cidade. Aproximou-se do balcão e falou com o Ibrahim:
__-Hey, eu queria um quarto. Vocês têm um?
__Ibrahim estava sentado e falou gentilmente, como faria com qualquer visitante:
__-Infelizmente, o hotel fecha amanhã. Por isso, não estamos mais liberando quartos.
__Aí mesmo, o bêbado já se irritou:
__-Quer dizer que não tem quarto nenhum vazio?
__-Tem, mas não estamos recebendo novos hóspedes, porque amanhã o hotel não abre mais. Acabou a temporada.
__-Mas e se eu quiser um quarto?
__Agora Ibrahim estava mais sério. Falou palavra por palavra, bem devagar, mais até do que o necessário para que o cara entendesse. Estava tentando encerrar a conversa:
__-Como eu disse, existem quartos disponíveis, mas nós não vamos liberá-lo, porque o hotel está fechando.
__-Então quer dizer que não tem quarto nenhum?
__Ibrahim parou de olhar nos olhos do sujeito. Virou o rosto para a tela do computador da sua mesa e disse:
__-Que seja!
__O sujeito insistia:
__-Hey, estou falando com você! Eu quero um quarto!
__Ibrahim levantou a cabeça devagar, olhou nos olhos do encrenqueiro e sussurou:
__-Escute-me. Dê o fora daqui agora mesmo, ou eu chamo a polícia. Você entendeu?
__-Eu quero um quarto.
__Ibrahim se levantou e ficou cara a cara com o animal e depois gritou:
__-Eu disse pra você dar o fora daqui!
__-Eu não vou embora. Eu disse que quero um quarto!
__Eu assistia a tudo a um palmo de distância. Estávamos a milhares e milhares de quilômetros do violento e perigoso Brasil. Mas, como diz um amigo meu, "o cara pode até sair do Brasil, mas o Brasil não pode sair do cara". A situação me lembrava notícias típicas de caderno policial da minha terra:

___No começo da madrugada de sexta-feira, um sujeito alcoolizado e em trajes sujos começou uma discussão com o recepcionista do hotel X, que fica na rua Y. Testemunhas ouviram gritos pouco antes dos disparos...

__O indivíduo estava bem na minha frente, separado do Ibrahim pelo balcão. Se ele sacasse uma arma, Ibrahim não teria para onde ir. Mas será que ele teria mesmo um revólver? Ou talvez uma faca? Não. Big Sky não tinha dessas histórias. Era uma cidade pacata de 500 habitantes apenas. Nenhuma história de morte por motivos banais aconteceria ali. Veio à minha cabeça, porém, o punhado de histórias de meninos que atiram em meninos e meninas nas escolas americanas. Seria aquele cara alguém desse tipo?
__Todas essas coisas me passaram pela cabeça naquele momento. Todas. Parece muita coisa para se pensar em poucos segundos, mas o tempo realmente passa mais devagar quando a coisa fica preta (ou parece que fica preta). E os meus pensamentos não pararam por aí.
__O cara era magro e estava de lado para mim, olhando para o Ibrahim. Nem tinha percebido que eu estava olhando para ele. Pensei em partir com tudo para cima dele e jogá-lo no chão. Poderia dar uma cabeçada no rosto dele para quebrar seu nariz. Se ele não desmaiasse na hora, poderia bater com a cabeça dele no chão até ele desmaiar. Ele não teria tempo para pegar qualquer arma. Mas e se ele nem tivesse uma arma e eu o machucasse? Seria inteligente para um estrangeiro espancar um nativo desarmado?
__Ibrahim pegou o telefone e disse:
__-Você acha que eu estou brincando, né? Estou ligando para o cherife agora mesmo. Fica aí que você vai ser preso.
__-Liga! Não estou nem aí. Liga de uma vez. Vai! Quero ver você ligar.
__-Estou ligando, não está vendo?
__Nisso, o cara começou a andar para trás. Ibrahim continuava com o telefone no ouvido:
__-Dá o fora daqui, cara! Sai!
__-Vai se foder, cara! Vai se foder.
__A encrenca saiu do hotel. E eu continuava na mesma posição que estava quando tudo começara. Pela porta de vidro, vi o bebum indo embora. Ibrahim já estava sentado novamente, olhando para a tela do computador.
__-Ibrahim, você é meio corajoso, né?
__-Eu não dou merda nenhuma pra esses caras. O cara chega bêbado aqui e vem querer me encher o saco.
__Ibrahim não bebe e detesta gente bêbada.

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__Em dezembro de 2007, hospedei uma americana por duas semanas em Porto Alegre. Era uma estudante de 20 anos que eu conheci na internet há uns 5 anos, quando comecei a usar o computador para praticar o inglês. Certa noite, assistíamos a um filme americano na TV, onde o alarme de um carro disparava e o dono saia da sua casa segurando um taco de beisebol para expulsar o bandido. A família ia toda atrás dele. Comentei com a amiga americana:
__-Mandy, isso não foi meio estúpido? Quero dizer... alguém vem roubar o seu carro. Daí você sai com um pedaço de pau pra bater no ladrão. O bandido não pode simplesmente dar um tiro em você?
__Ela respondeu como se o estúpido fosse eu (o que é bem possível):
__-Ladrões vão à sua casa para roubar as suas coisas, não para atirar em você.
__-Eu sei. Mas os ladrões não carregam revólveres?
__-Às vezes.
__-Então como é que o cara sai com um pedaço de pau para enfrentar alguém que tem uma arma?
__-Mas o ladrão nem sempre tem arma...
__Ela pensou um pouco e voltou a falar:
__-É. O cara foi um pouco estúpido mesmo.

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__O Ibrahim e a Mandy não precisam temer tanto quanto nós, brasileiros. Uma quantidade absurda de nós já esteve na mira de uma arma. Quando nossos telefones tocam no meio da madrugada e, do outro lado da linha, alguém diz ter seqüestrado algum parente, acreditamos, ainda que o parente esteja dormindo no quarto ao lado. Por que acreditamos? Porque todos sabemos que, cedo ou tarde, será a nossa vez de ser vítima de um crime. Quando o bandido mostra a faca, ou bate com a ponta do revólver na janela do carro, ou passa pela porta do banco e anuncia o assalto, pensamos: "É, chegou a hora. O jeito é ficar calmo pra sair vivo e poder contar essa história quando chegar em casa." Já não há qualquer surpresa.

6 comentários:

Anônimo disse...

É verdade Renan, acordar e dormir todos os dias preocupado com sua própria segurança, parece rotina em nossas vidas, e é cansativo. Gostaria que fosse o contrario.
Beijos filho.

Alessandro R. C. disse...

Belo texto pra começar o ano! Eu sou meio parecido com Ibrahim, pela simpatia (hehe) e por detestar bebidas. Mas como sou brasileiro eu não seria tão corajoso.

Sobre esse filme que um cara sai com um taco de beisebol pra afugentar o ladrão eu acho que vi recentemente. Era sobre um cara que arranjou uma grande confusão por transar com outra mulher a poucos dias do casamento. Não estou conseguindo lembrar o nome agora... que droga! LEMBREI!!! O nome não é Louco Por Elas?

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Pior que eu não sei o nome do filme, Alessandro! Foi aquela velha história de estar trocando de canal pra ver o que estava passando...

Gabriel disse...

Concordo totalmente, no dia que eu fui assaltado aqui no brasil, eu pensei a mesma coisa em que voce escreveu neste post.

Miron Fahiel disse...

Já que vc falou sobre filme gostaria de saber se podia me ajudar a lembrar o nome de um filme em que um cara sai do carro extressado em meio a um engarrafamento.

Anônimo disse...

CARA , QUE TUDO ! *-*
VOCÊ FEZ INTERCAMBIO NO EUA , AAAAAAAAAAH !
gostaria de te fazer umas perguntas , se você puder manter contato , tá ai meu twitter:
http://twitter.com/realloversrock