sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O meu isqueiro

__Numa das vezes em que andei pela Main Street de Bozeman, parei numa tabacaria para dar uma olhada nas revistas. Caí na tentação de dar uma espiadinha nos isqueiros que estavam à venda. Sempre quis comprar um dos bons. Não que eu entenda alguma coisa disso. Mas toda vez que eu dou uma volta em algum shopping do Brasil, acabo parando na frente de uma daquelas lojinhas que vendem baralhos e enfeiteis a preços absurdos e fico cobiçando aqueles isqueiros charmosos.
__Depois de observar todos os que estavam vitrine, pedi para o cara do caixa que me deixasse ver um com cor de madeira. Tinha umas duas polegadas e era dourado na ponta. Testei a chama, que era azul, forte, tinha formato de agulha e fazia som de maçarico.
__-Quanto é?
__-Trinta e nove dólares.
__Eu ainda não tinha comprado nada em Montana para trazer de lembrança. E eu nunca encontraria um isqueiro espetacular daqueles por trinta e nove dólares no Brasil. Mesmo que encontrasse, não compraria, porque ganhar trinta e nove dólares em Montana era uma coisa. Em Porto Alegre, é outra completamente diferente. Aquela era a hora de comprar um pecado para o resto da vida. Paguei com a dor de um contador mão de vaca que sabe que está gastando com um luxo absolutamente inútil.
__Até o fim da minha estadia em Big Sky, andei para lá e para cá com o isqueiro no bolso da minha jaqueta preta do Brasil. Não abri a mão nem para comprar uma jaqueta especial para o frio em uma cidade que vive temperaturas abaixo de 40 graus negativos, mas comprei um isqueiro. À noite, antes de dormir, brincava com ele no escuro. Os colegas achavam que ele era o máximo. Que compra!
__Pouco mais de um mês depois, chegou a hora de deixar Montana. O taxista que me levou até o aeroporto me contou sobre a raiva que os montanenses vinham cultivando contra os californianos cheios da grana que fazem fortuna na califórnia e compram terras e casas em Montana. Por causa desse movimento, vai ficando cada vez mais difícil para um montanense comprar uma casa na sua própria terra, pois os preços dos imóveis sobem sem parar. Uma pena para mim, que sonhei (e ainda sonho) em voltar para morar um dia por ali. Tudo bem. Pelo menos comprei um isqueiro de lembrança.
__Cheguei no aeroporto e fiquei registrando minhas histórias no computador até a hora do vôo. Veio a hora de passar pelos portões de embarque e pela segurança. Entrei na fila para fazer o strip-tease. Antes de qualquer vôo nos EUA, revistam não só nossas mochilas, mas também nossos cintos e nossos sapatos. Na minha vez de mostrar tudo, a segurança simpaticíssima que me revistaria falou:
__-Preciso da sua jaqueta.
__-Claro! Aqui está.
__Ela revistou bolso por bolso, até colocar a mão no meu querido isqueiro. Pegou, girou, analisou e disse, gaguejando, sem jeito, quase pedindo desculpas:
__-Senhor, isqueiros não são permitidos no avião...
__-E o que eu faço?
__-Você tem duas opções: pode voltar para o saguão do aeroporto e deixar o isqueiro com algum parente ou enviá-lo para algum endereço por Fedex.
__Pensei, pensei e pensei.
__-Não posso deixar esse isqueiro com o piloto? Daí ele me devolve quando chegarmos no destino.
__Para o meu azar, eu estava em um país sério, em que as chances de alguém fazer o que é pago para fazer são um tanto maiores do que no Brasil:
__-Infelizmente, não, senhor. Os pilotos também são proibidos de levar isqueiros. Não há como o senhor levar este isqueiro neste vôo.
__Pensei mais e mais, mas não havia o que fazer.
__-Moça, vou levar esse isqueiro comigo, você querendo ou não.
__Brincadeira! Eu jamais diria isso. O que eu disse, levantando os braços em sinal de conformação, foi:
__-Bem, acho que não há nada que eu possa fazer. Vou deixar o isqueiro aqui com você.
__-Sinto muito, senhor. Eu sinto muito.
__-Tudo bem, tudo bem. Você só está fazendo o seu trabalho.
__Olhei para trás e lá estava o Bryan, um amigo americano do Big Sky. Ele era o próximo da fila. Eu não sei como estava o meu rosto, mas o dele era pura tristeza. Ele estava sensibilizado por causa da minha perda inestimável.
__-Sinto muito, Renan. Eu sinto muito. Você é um cara legal, Renan. Você é um cara legal.
__Essa foi a história que marcou a minha despedida de Montana. Gostaria de trazer um pedaço de Montana comigo, mas foi Montana que ficou com um pedaço de mim: o meu isqueiro.
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__JJá no Brasil, casualmente encontrei o mesmo isqueiro por 375 reais. Só encontrei, não comprei.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Duas figuraças!

__Deixei Big Sky de carona junto com o João. Fomos juntos para Bozeman. Ele passaria um mês viajando pelos EUA, principalmente pela Califórnia. Eu ainda tinha mais dois meses pela frente. Encontraria meus amigos Eddy e Darlene em Las Vegas dali dois dias. Até lá, ficaria hospedado no Backpackers.
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__Backpackers
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__O ônibus do João para a Califórnia sairia perto da meia-noite. Como chegamos em Bozeman por volta das 4 horas, ele ainda tinha bastante tempo para matar. Depois de darmos uma rodada pela cidade, fomos tirar um descanso no Backpackers. Lá, um velhinho descansava sentado na frente do albergue. Depois que nos viu entrar, veio atrás. O João foi tomar um banho. Eu fiquei no sofá, tocando o violão da casa, e aquele senhor veio conversar comigo.
__-Então, de onde você é?
__-Do Brasil.
__-Hum. É turista?
__-É... mais ou menos. Vim para trabalhar no Big Sky.
__-Oh! Eu trabalho no Yellowstone Park. Conhece?
__-Sim.
__-Eu sei tudo de lá. Sou um guia. Tem animais lá no parque que fui eu quem descobriu. Adoro estar lá. Adoro trabalhar. Diz a Bíblia que o trabalho... sim, eu sou um cristão. Como eu falava, diz a Bíblia que o trabalho...
__Ele falava sem olhar nos meus olhos. Estava sempre com o rosto virado para o teto. Só nas pausas e no fim das frases é que ele se voltava para mim. E estava também olhando para cima quando falou da Bíblia, para então parar, olhar para mim e dizer que sim, ele era cristão. Como se eu tivesse ficado espantado com o simples fato de ele ser cristão. Como se fosse uma grande surpresa ouvir alguém falar da Bíblia em um país protestante.
__-O homem precisa trabalhar. Eu poderia estar aposentado, mas não. Trabalharei até morrer, mesmo ganhando pouco. Além de trabalhar, sou pastor. Morei em Los Angeles. Trabalhei tentando recuperar membros de gangues. Fui esfaqueado no ônibus por um deles. Quando eu era bem novo, perdi minha esposa e meu filho em um acidente de carro. Mas estou aqui trabalhando. E pregando. Tudo bem se você não for cristão. Respeito quem não acredita em nada e quem acredita em qualquer religião, até no Islã. Não, não. No Islã não. Esqueça o que eu disse sobre o Islã. Essa é uma religião violenta que prega o mal. Não que eu seja um pacifista. Não sou um pacifista. Mexa com a minha família e você vai ver quão pacifista eu sou. Que tipo de governo vocês têm no Brasil?
__-Uma democracia capitalista.
__-Hum! Capitalismo. Isso é bom. Não há nada de errado com o capitalismo, não é mesmo?
__-Não.
__Nisso, um homem moreno começou a descer as escadas que vinham dos quartos do segundo andar. Ele usava uma bandana e uma camisa xadrez. O velhinho falou com ele:
__-Hey! O rapaz aqui está me dizendo que o Brasil é capitalista. Isto não é bom?
__-É, ué (não existe americano com sotaque e expressões mineiras. Mas o que ele disse e do jeito que disse pode ser traduzido assim). O velhinho continuou:
__-O capitalismo é bom. Ei, rapaz. Não escute o que esse cara aí de bandana tem a dizer.
__O velhinho seguiu com seu monólogo. Contou que estava fora do parque onde trabalhava como guia porque era tempo de férias, mas que estava trabalhando como pedreiro em Bozeman, porque o trabalho é um valor e não se pode parar de trabalhar.
__Uma meia hora depois, apareceu o João. O velhinho me perguntou:
__-E esse rapaz aí, quem é?
__-É meu amigo. Ele é do Brasil também.
__O João se aproximou:
__-Oi!
__-Oi, como vai?
__Falei para o João:
__-Ele trabalha no Yellowstone.
__O João voltou-se para ele:
__-Mesmo?
__-Sim. Eu estou velho, mas continuo trabalhando. Sou um guia. Alguns animais de lá fui eu mesmo quem descobriu. Bichos que nem se imaginava que existiam por lá. Adoro trabalhar. Diz a Bíblia que o trabalho... sim, eu sou um cristão. Então, diz a Bíblia que o trabalho...
__Conversa vai, conversa vem, o morenão tira a bandana. A careca dele era branca como a neve. Por um tempo, foi a vez dele de contar histórias. Falou bastante sobre sua viagem pela Europa e pelo jeito um tanto "liberal demais" do povo de lá, mas falou bem pouco sobre um país que ele visitou e não sente saudades: o Vietnã. Perguntei:
__-Você lutou na guerra?
__Respondeu olhando para o chão, triste:
__-Sim. Mas bem pouco tempo.
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__O ex-combatente e o velhinho cristão. Sim, cristão.
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__No dia seguinte, conversamos sobre armas. Não me lembro exatamente porque começamos a falar disso, mas acho que foi porque o cara da bandana carregava uma. O velhinho fez olhar de reprovação quando o mais novo disse, com a mão no pênis:
__-Acreditem: meu pinto me traz muito mais problemas do que o meu revólver. O que foi? É verdade, ué!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Até mais, Big Sky!

__Eu já sabia como era sentir saudades de um lugar. Por isso, desde que cheguei em Montana, fiz um esforço triste para guardar cada momento. Quando passei pelas portas automáticas do aeroporto de Bozeman, respirei fundo para marcar o cheiro do ar gelado. Fiquei ali parado no frio para nunca esquecer a sensação do vento muitos graus abaixo de zero tocando a pele. Caminhei em direção à neve para tocá-la pela primeira vez, pegá-la na mão para saber como é.
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__Saída do aeroporto de Bozeman: primeiro pedaço de EUA que eu conheci
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__Cedo ou tarde, todo mundo conhece aquele sentimento do "se eu soubesse que eu sentiria tanta falta daquilo, teria aproveitado melhor". Foi por isso que eu me concentrei para não deixar nenhum momento passar. Mesmo nas primeiras horas andando no frio, estive absolutamente certo de que eu desejaria muito reviver aqueles primeiros passos. Parecia que os quatro meses que viriam seriam o bastante, mas minha experiência me dizia que isso era só uma ilusão. Graças a esse desespero, minhas lembranças dessa viagem estão vivas como poucas.
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__O nascer do sol em Big Sky
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__Tentei explicar a alguns colegas sobre a falta que sentiríamos de tudo aquilo. Alguns achavam que eu exagerava, que a neve só tinha sido especial no começo e que depois de um tempo ela parecia tão normal quanto areia ou terra. Quando eles tiveram que deixar a cidade para voltar ao Brasil, perceberam o engano, mas já não era possível comentá-lo, pois aqueles homens feitos choravam como bebezinhos. Só não aconteceu comigo porque, por dentro, chorei um pouco todos os dias desde a chegada.
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__Fui um dos últimos estrangeiros a deixar o resort. Fiquei até o dia em que os hotéis fecharam as portas e a temperatura chegou a uns 8 graus positivos (que calor!). Deixei a cidade de carona com mais três trabalhadores. Nenhum floco de neve havia ficado para cobrir as montanhas e os campos que contornavam a estrada. Agora o mato queimado ia dando lugar a uma paisagem mais verde. Desejei conhecer as estações que viriam. Desejei e continuo desejando. Estou ligado àquele lugar justamente por esse desejo que não me deixou um dia sequer.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Quando o bicho pega

__Ibrahim era o colega marroquino que assumia a recepção do Mountain Inn à meia-noite, quando meu turno terminava. Ele tem cidadania americana e estuda Engenharia Elétrica na MSU (a universidade que fica em Bozeman). Andava preocupado com suas notas na faculdade, que vêm caindo desde que começou a trabalhar demais. É um poço de carisma. Trabalhava quantas horas extras pedissem, tratando os clientes sempre com respeito e simpatia. Fiquei surpreso quando soube que a trabalhadora brasileira mais briguenta do resort já tinha brigado com ele, pois achei que nem mesmo ela seria capaz de se irritar com o rapaz. Mas esse post não é sobre a vez em que alguém se irritou com o Ibrahim, e sim sobre a noite em que o Ibrahim se irritou com alguém.
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__O balcão do hotel.
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__Era a minha última noite de trabalho no Mountain Inn. Ibrahim apareceu perto das 11:50.
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__O hotel.
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__-Ibrahim!
__-Hey, Renan.
__Ele andou pelo lobby e passou para trás do balcão onde trabalhávamos. Dei início à despedida:
__-Ibrahim, essa é a última vez que nos falamos pessoalmente.
__-Pois é. Você não volta pra Big Sky no fim do ano?
__-Não. Tenho uns planos no Brasil.
__-Tá certo.
__-Obrigado por ter me ensinado as coisas aqui do trabalho.
__-Estou feliz por ter te conhecido, Renan. Você é um cara trabalhador, amigável, engraçado...
__-Vamos continuar nos falando por e-mail. Quem sabe nos vemos aí no futuro? Pretendo voltar um dia.
__-Isso, volta.
__Bati meu ponto e fui para o lado de fora do balcão. Fiquei apoiado na mesa e continuei conversando com ele.
__-Vou passar uns dois dias em Bozeman, depois vou encontrar uns amigos...
__Enquanto eu falava, entrou um rapaz louro, magro, de bermuda, camiseta e chinelos e com cheiro de álcool. Mesmo que não estivesse alcoolizado e com a barba por fazer, já teria chamado a atenção por não estar protegido do frio congelante da cidade. Aproximou-se do balcão e falou com o Ibrahim:
__-Hey, eu queria um quarto. Vocês têm um?
__Ibrahim estava sentado e falou gentilmente, como faria com qualquer visitante:
__-Infelizmente, o hotel fecha amanhã. Por isso, não estamos mais liberando quartos.
__Aí mesmo, o bêbado já se irritou:
__-Quer dizer que não tem quarto nenhum vazio?
__-Tem, mas não estamos recebendo novos hóspedes, porque amanhã o hotel não abre mais. Acabou a temporada.
__-Mas e se eu quiser um quarto?
__Agora Ibrahim estava mais sério. Falou palavra por palavra, bem devagar, mais até do que o necessário para que o cara entendesse. Estava tentando encerrar a conversa:
__-Como eu disse, existem quartos disponíveis, mas nós não vamos liberá-lo, porque o hotel está fechando.
__-Então quer dizer que não tem quarto nenhum?
__Ibrahim parou de olhar nos olhos do sujeito. Virou o rosto para a tela do computador da sua mesa e disse:
__-Que seja!
__O sujeito insistia:
__-Hey, estou falando com você! Eu quero um quarto!
__Ibrahim levantou a cabeça devagar, olhou nos olhos do encrenqueiro e sussurou:
__-Escute-me. Dê o fora daqui agora mesmo, ou eu chamo a polícia. Você entendeu?
__-Eu quero um quarto.
__Ibrahim se levantou e ficou cara a cara com o animal e depois gritou:
__-Eu disse pra você dar o fora daqui!
__-Eu não vou embora. Eu disse que quero um quarto!
__Eu assistia a tudo a um palmo de distância. Estávamos a milhares e milhares de quilômetros do violento e perigoso Brasil. Mas, como diz um amigo meu, "o cara pode até sair do Brasil, mas o Brasil não pode sair do cara". A situação me lembrava notícias típicas de caderno policial da minha terra:

___No começo da madrugada de sexta-feira, um sujeito alcoolizado e em trajes sujos começou uma discussão com o recepcionista do hotel X, que fica na rua Y. Testemunhas ouviram gritos pouco antes dos disparos...

__O indivíduo estava bem na minha frente, separado do Ibrahim pelo balcão. Se ele sacasse uma arma, Ibrahim não teria para onde ir. Mas será que ele teria mesmo um revólver? Ou talvez uma faca? Não. Big Sky não tinha dessas histórias. Era uma cidade pacata de 500 habitantes apenas. Nenhuma história de morte por motivos banais aconteceria ali. Veio à minha cabeça, porém, o punhado de histórias de meninos que atiram em meninos e meninas nas escolas americanas. Seria aquele cara alguém desse tipo?
__Todas essas coisas me passaram pela cabeça naquele momento. Todas. Parece muita coisa para se pensar em poucos segundos, mas o tempo realmente passa mais devagar quando a coisa fica preta (ou parece que fica preta). E os meus pensamentos não pararam por aí.
__O cara era magro e estava de lado para mim, olhando para o Ibrahim. Nem tinha percebido que eu estava olhando para ele. Pensei em partir com tudo para cima dele e jogá-lo no chão. Poderia dar uma cabeçada no rosto dele para quebrar seu nariz. Se ele não desmaiasse na hora, poderia bater com a cabeça dele no chão até ele desmaiar. Ele não teria tempo para pegar qualquer arma. Mas e se ele nem tivesse uma arma e eu o machucasse? Seria inteligente para um estrangeiro espancar um nativo desarmado?
__Ibrahim pegou o telefone e disse:
__-Você acha que eu estou brincando, né? Estou ligando para o cherife agora mesmo. Fica aí que você vai ser preso.
__-Liga! Não estou nem aí. Liga de uma vez. Vai! Quero ver você ligar.
__-Estou ligando, não está vendo?
__Nisso, o cara começou a andar para trás. Ibrahim continuava com o telefone no ouvido:
__-Dá o fora daqui, cara! Sai!
__-Vai se foder, cara! Vai se foder.
__A encrenca saiu do hotel. E eu continuava na mesma posição que estava quando tudo começara. Pela porta de vidro, vi o bebum indo embora. Ibrahim já estava sentado novamente, olhando para a tela do computador.
__-Ibrahim, você é meio corajoso, né?
__-Eu não dou merda nenhuma pra esses caras. O cara chega bêbado aqui e vem querer me encher o saco.
__Ibrahim não bebe e detesta gente bêbada.

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__Em dezembro de 2007, hospedei uma americana por duas semanas em Porto Alegre. Era uma estudante de 20 anos que eu conheci na internet há uns 5 anos, quando comecei a usar o computador para praticar o inglês. Certa noite, assistíamos a um filme americano na TV, onde o alarme de um carro disparava e o dono saia da sua casa segurando um taco de beisebol para expulsar o bandido. A família ia toda atrás dele. Comentei com a amiga americana:
__-Mandy, isso não foi meio estúpido? Quero dizer... alguém vem roubar o seu carro. Daí você sai com um pedaço de pau pra bater no ladrão. O bandido não pode simplesmente dar um tiro em você?
__Ela respondeu como se o estúpido fosse eu (o que é bem possível):
__-Ladrões vão à sua casa para roubar as suas coisas, não para atirar em você.
__-Eu sei. Mas os ladrões não carregam revólveres?
__-Às vezes.
__-Então como é que o cara sai com um pedaço de pau para enfrentar alguém que tem uma arma?
__-Mas o ladrão nem sempre tem arma...
__Ela pensou um pouco e voltou a falar:
__-É. O cara foi um pouco estúpido mesmo.

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__O Ibrahim e a Mandy não precisam temer tanto quanto nós, brasileiros. Uma quantidade absurda de nós já esteve na mira de uma arma. Quando nossos telefones tocam no meio da madrugada e, do outro lado da linha, alguém diz ter seqüestrado algum parente, acreditamos, ainda que o parente esteja dormindo no quarto ao lado. Por que acreditamos? Porque todos sabemos que, cedo ou tarde, será a nossa vez de ser vítima de um crime. Quando o bandido mostra a faca, ou bate com a ponta do revólver na janela do carro, ou passa pela porta do banco e anuncia o assalto, pensamos: "É, chegou a hora. O jeito é ficar calmo pra sair vivo e poder contar essa história quando chegar em casa." Já não há qualquer surpresa.