sábado, 22 de setembro de 2007

Jeitinho colombiano

__Em um dos hotéis onde eu trabalhava como recepcionista, um dos camareiros era um colombiano de uns vinte e poucos anos que vivia levando bronca da sua chefe por falta de disciplina. Era um cara que aparecia bêbado no trabalho, dava festas proibidas no alojamento oferecido pelo seu empregador e dava cantadas nas hóspedes menores de idade. O Big Sky Resort chama a atenção dos seus visitantes por ter tantos trabalhadores de tantas nacionalidades diferentes e os americanos vivem perguntando aos intercambistas de onde eles vêm. Aquele colombiano certamente estava manchando a imagem do seu país nos Estados Unidos. Uma amiga americana me diz que ele estava, na verdade, mostrando aos americanos o quão semelhantes os jovens dos dois países podem ser.
__Eu e meus colegas de trabalho vivíamos recebendo presentes dos hóspedes (presentes no bom sentido). Ganhamos camisetas, comida, assessórios de esqui e outras coisas de que os clientes não precisavam mais. Era prática entre os trabalhadores dividir o que ganhavam. Se eu ganhasse pizzas, chamava os colegas e comíamos juntos. Aquele colombiano também entrava na prática amigável.
__Foi por isso que aceitei sem desconfiar um prato de nachos que ele me ofereceu quando eu passava na frente do restaurante onde ele tinha o seu segundo emprego:
__-Renan! E aí?
__-Oi, como vai?
__-Bem. Aceita uns nachos?
__-Claro!
__-Espera aí que eu vou lá pegar pra você.
__Ele entrou na cozinha e apareceu com uma tigela enrolada numa toalha.
__-Estão aí, mas estão quentes. Melhor você comer depois.
__-Ok. Obrigado.
__Estávamos no corredor do shopping onde ficava o restaurante. Sentei em um banco e fiquei com a tigela no colo. Ele também sentou ali e, amigavelmente, começou a fazer perguntas, sorrindo todo embaraçado:
__-Renan, a minha chefe perguntou algo pra você?
__-Como assim?
__-De mim. Ela perguntou algo?
__-Não.
__-Nada?
__-Nada.
__-Se ela perguntar, não conta, ok?
__Aqueles nachos eram um presente no mal sentido. Pior que eu nem sabia do que é que ele estava falando. Mas eu estava louco pra ver aquele cara sendo demitido.
__-Por favor, não conte, Renan.
__Fiquei irritado com aquela palhaçada. Olhei feio pra ele. Acredito que ele entendera que não podia confiar em mim.
__-Cara, estou indo embora. Você precisa da tigela?
__-Não. Pode ficar.
__-Até mais.
__Dividi os nachos com os colegas de um outro hotel onde trabalhava. O colombiano aprontou até o fim da estação, mas nunca foi demitido.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Questão de confiança

__Não me lembro se eu estava entrando no Walmart ou em algum minimercado. Só sei que eu estava carregando uma sacola de plástico com comida que eu comprara antes em algum outro lugar.
__Assim que entrei, procurei pelo guarda-volumes, mas não encontrei nada. Falei com uma funcionária que passava:
__-Com licença, onde posso deixar essa sacola?
__-Como assim?
__-Eu queria entrar para comprar umas coisas. Onde eu posso deixar isso?
__-Você não quer levar com você?
__-Posso?
__-Por que não?
__O rosto da funcionária mostrava confusão total. Ela não tinha idéia do que eu estava falando. Agradeci e entrei nos corredores do mercado, carregando todos os meus pertences.
__Já fazia uns três meses que eu estava nos Estados Unidos quando isso aconteceu, mas coisas assim continuavam me surpreendendo. Os grandes mercados brasileiros sempre têm um espaço na entrada para se deixar sacolas. Se esquecemos de deixar ali o que estamos trazendo, um segurança nos lembra de que temos que deixar nossas sacolas ali, ou lacrá-las. Mercados menores nas cidades grandes ou em cidades pequenas não têm essa regra. Mas quando chegamos para um de seus funcionários e perguntamos se precisamos deixar nossas sacolas em algum lugar, eles sabem do que estamos falando. Todos sabem dos ladrões que entram com uma mochila e vão jogando produtos para dentro dela. Cidades brasileiras de interior podem até não conviver com o problema, mas o conhecem da televisão ou das histórias contadas por viajantes e amigos.
__Coisa parecida não chegou ainda aos ouvidos dos moradores de Montana. Eles devem pensar: por que um cidadão não poderia entrar com suas sacolas dentro de um mercado?
__Depois de sair de Big Sky, fui recebido por um casal de amigos americanos em Silver City, no estado do Novo México. Seus nomes são Eddy e Darlene. Eles me hospedaram em sua casa por dois meses. Viajamos várias vezes ao longo desse período. Na volta de uma das viagens, encontramos na frente da sua casa uma caixa, mais ou menos do tamanho de uma televisão de 20 polegadas. Disse a minha amiga Darlene:
__-Renan! É a sua caixa! É a caixa que enviamos para o Brasil no ano passado e que nunca chegou!
__Em 2006, eles me enviaram um presente. No dia em que fui retirá-lo numa agência dos Correios, descobri que o total de impostos de importação que eu deveria pagar era de mais que o dobro do valor do que havia dentro da caixa, um belo tabuleiro de xadrez. Decidimos que eu não retiraria o presente. Apenas deixaria a caixa voltar para os Estados Unidos e a pegaria quando fosse para Silver City. Era essa caixa que estávamos vendo de dentro do carro. Sua viagem de volta de Porto Alegre até os EUA levou mais de seis meses.
__Vocês conseguem imaginar uma coisa dessas funcionando no Brasil? Os Correios deixando uma caixa com presentes caros na calçada da sua casa, na certeza de que nenhum espertinho vai pegá-la durante o dia ou durante a noite? Parece piada, não é? Nem mesmo pessoas estão seguras nas calçadas brasileiras. O que dizer de caixas?
__Em Montana e em Silver City, a certeza da honestidade é tão forte quanto a certeza da impunidade no Brasil. Da mesma forma que para nós já é ridícula a imagem de um senador sendo cassado, para eles é ridícula a imagem de alguém escondendo produtos de mercado numa sacola, ou roubando caixas que ficam nas calçadas dos seus donos.
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__Rua de Silver City. Casas sem grades e encomendas deixadas nas calçadas pelo serviço postal.
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__Eddy e Darlene Rinker, minhas amizades mais preciosas, pessoas para se ter no fundo do coração por toda a vida. Vocês sabem o quanto eu amo vocês. Bom seria se os cidadãos de todo o mundo tivessem a chance de conhecê-los antes de julgar o povo do seu país.