sábado, 14 de julho de 2007

Coisa de cidade pequena

__Esta é a continuação do post Quinto emprego.

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__Um dia depois de trabalhar removendo neve da frente das casas do Hill Condo, era dia de trabalhar na recepção do Mountain Inn. Num momento de pouco movimento do hotel, Stevie, a gerente dos camareiros, que também era responsável pela recepção, veio até mim e falou:
__-Renan, então você está removendo neve do Hill Condo?
__-Sim. Como é que você sabe?
__-Eu estava dormindo quando ouvi a sua voz. Pensei: "Eu conheço essa pessoa que está falando." Depois de alguns minutos, percebi que era você.
__-Pois é. Acho que eu estava falando com o meu chefe.
__-Sabe, vocês podiam fazer a limpeza mais tarde. É que vocês começam a raspar aquelas pás na madeira às 6 da manhã e nos acordam. Por que você não dá essa idéia para o seu chefe?
__-Porque a administração do condomínio paga para que a limpeza seja feita bem cedo, antes de os moradores acordarem. Assim, quando eles saírem de casa, eles não precisam enfiar o pé na neve.
__-É que eu odeio ter que acordar tão cedo com o barulho daquelas pás. Não há nada que você possa fazer?
__-Eu posso deixar a sua casa por último. Mas não garanto que alguém não vá tentar limpá-la antes de mim. Acho que só vou conseguir salvar seu sono por 15 minutos.
__-Para mim, 15 minutos são preciosos. Por favor, faça isso.
__-É. Mas não vou incomodar o meu chefe de lá por isso. Ele pode acabar me demitindo.
__-Mas se você me acordar de novo às 6, quem vai te demitir sou eu.
__ Ela não estava me ameaçando. Estava só brincando. Stevie foi uma das colegas mais queridas que tive no resort.
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__Stevie, colega de trabalho no Mountain Inn.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Honestidade de Brasília

__No post Honestidade de Bozeman, falei sobre o Backpackers, um albergue que funciona na base da confiança na cidade de Bozeman, Estado de Montana. Agora vamos para algo parecido que existe no Brasil.
__A revista Carta Capital, na edição de 11 de julho deste ano, fala sobre o Açougue Cultural T-Bone, em Brasília. Não é centro cultural. É açougue cultural mesmo.
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__A casa de carnes guarda mais de 500 títulos de literatura. As pessoas que passam lá podem pegar qualquer livro e devolver quando quiserem. Luiz Amorim, dono do açougue, diz que a maioria dos leitores devolve as obras, embora não cobre a devolução dos livros, que estão à disposição de quem quiser desde 1984.
__O acervo de livros é alimentado por doadores. No dia 21 de junho, Amorim lançou a Parada Cultural: um ponto de ônibus com um acervo de 6 mil livros à disposição da população, expostos 24 horas por dia. Um atendente cuida dos livros no horário comercial. Durante a noite, quem quiser pegar um livro só precisa deixar nome, telefone e nome do livro em um caderno. Desde então, 500 livros foram emprestados. Todos eles foram devolvidos.
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Clique aqui para acessar o site do açougue.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Quinto emprego

__Contei aqui no blog que cheguei no Big Sky Resort com apenas um emprego garantido: o de atendente de bilheteria (Ticket Sales). Falei então dos meus trabalhos eventuais na checagem de ingressos e dos meus dois empregos novos nas recepções de dois hotéis diferentes, o Mountain Inn e o Huntley. Agora, vou falar sobre mais um emprego eventual: o de removedor de neve.
__Uma das minhas colegas do meu emprego principal, na bilheteria, era uma tailandesa. Não sei escrever seu nome, cuja pronúncia é "quei". Eu tinha curiosidade quanto ao seu país e ela também me fazia muitas perguntas sobre a vida no Brasil. Certa manhã, expliquei para ela sobre a minha vontade de recuperar o dinheiro investido no programa de intercâmbio e sobre a necessidade de arrumar mais um emprego (na época, eu trabalhava apenas na bilheteria e no Mountain Inn). Ela me disse que seu marido era responsável pela remoção da neve de alguns lugares da cidade e que ele poderia me chamar para uns trabalhos matinais se eu estivesse interessado. Na tarde daquele mesmo dia, ela me procurou e me disse que eu já poderia trabalhar na manhã seguinte se eu quisesse. Fiquei feliz da vida e topei.
__O local seria o Hill Condo, que vocês podem ver na foto abaixo:
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____Vista do entardecer no Hill Condo
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__A remoção da neve começaria às 6 da manhã, com o céu ainda escuro. Um rapaz chamado Jake, de uns 23 anos, com sotaque de inglês, era o gerente da limpeza. Ele apareceu no local de trabalho às 5:50 e distribuiu enxadas para os quatro ou cinco trabalhadores que compareceram. Tínhamos duas horas para tirar toda a neve da frente das portas, das escadas e dos caminhos que levavam das casas até a rua. Os trabalhadores ganhariam 10 dólares por cada abrigo limpo. Jake disse que voltaria mais tarde e desapareceu. Às 8 horas, eu havia completado 6 abrigos.
__Saindo dali, fui direto para a bilheteria, onde deveria trabalhar a partir das 8:30. Pouco antes do almoço, a tailandesa apareceu:
__-Renan, você gostou do trabalho?
__-Claro! É muito bom pegar aquele exercício logo depois de acordar.
__-Você não achou muito pesado?
__-Não. Foi bem divertido.
__-Podemos te chamar para uma próxima?
__-Claro!
__-Quantos abrigos você limpou?
__-Seis.
__-Nossa! Isso é muito bom! O pessoal geralmente limpa cinco.
__-Verdade?
__-Sim. Mas... falei com o Jake por telefone agora há pouco e ele me disse que você limpou dois abrigos e foi embora.
__-Sério? Mas eu limpei seis. Ele saiu de perto de nós logo cedo e não apareceu mais. Não consegui falar com ele.
__-Um rapaz que estava trabalhando lá contou para o Jake que você foi embora lá pelas 6:30.
__-Muito estranho. Eu limpei seis casas e saí às 8:00.
__-Que bom que você está me dizendo isso. Vou dizer para o Jake. Assim ele te paga a quantia certa.
__Na semana seguinte, fui chamado novamente para trabalhar no mesmo lugar à mesma hora. Cheguei no Hill Condo e lá estava o Jake, pegando as enxadas numa casinha de madeira:
__-E aí, Jake?

__Ele era uma figura simpática. Veio falar comigo como se viesse pedir desculpas por um mal-entendido.
__-Oi! Deixa eu te falar... eu não consegui te pagar pelo primeiro dia. Fui lá no seu alojamento mas acabei não batendo na sua porta. Quantas casas você limpou?
__-Eu limpei seis.
__-Estranho. Os rapazes falaram que você limpou quatro.
__Segundo a colega tailandesa, disseram para o Jake que eu limpara dois. Agora já eram quatro.
__-Sei que alguém falou que eu limpei dois abrigos. Também sei que o pessoal geralmente limpa cinco. Então, se você quiser me pagar por cinco, pode ser. De repente eu limpei cinco e achei que limpei seis.

__-Ok. Depois a gente vê isso então. Vamos trabalhar?

__-Vamos lá.
__Dessa vez, não consegui limpar mais de quatro abrigos, pois havia muita neve acumulada nos caminhos que levavam das casas ao estacionamento. Nunca mais me chamaram para o trabalho. No final das contas, Jake me pagou 80 dólares, ao invés do valor correto de 100 dólares. Me passaram a perna e me derrubaram: perdi o emprego e saí mal pago.