sábado, 23 de junho de 2007

Coisas do inglês 2

__Um colega brasileiro comenta em inglês com um americano no Big Sky Resort:
__-Você conhece a Fulana?
__-Conheço.
__-Ela é legal, né?
__-É. Ela é uma but her face.
__-But her face? Como assim?
__-Ela é legal, mas a cara...
__But her face significa: "mas a cara dela". É uma expressão maldosa para definir uma pessoa legal, mas que tem um rosto feio, ou que é bonita de corpo, mas feia de rosto.

Discutindo a guerra

__Eu e o Dan, meu companheiro de quarto, andávamos pela estrada à noite em direção ao mercado para comprar frango assado e refrigerante. Estávamos comentando sobre as fotos da minha família que acabáramos de ver. Ele comentou sobre o meu irmão:
__-Seu irmão tem cara de árabe. Na verdade, vocês dois têm cara do pessoal lá do Iraque.
__Estava aí uma boa deixa para saber o que o Dan pensava sobre a guerra naquele país.
__-Dan, você foi a favor da invasão do Iraque?
__-Sim.
__-Por quê?
__-Por causa da Al Qaeda.
__-Mas você sabe que a Al Qaeda não tinha relação com o Sadam, não sabe?
__-Sabe de uma coisa?
__ -O quê?
__-Eu acho que a Al Qaeda sempre governou aquele país.
__-Hum... entendo. Posso te falar o que o mundo sabe hoje a respeito da relação da Al Qaeda com o Sadam?
__-Olha, se você quiser falar, você pode falar. Mas você tem que saber que não há nada que você possa dizer que vá me fazer mudar de idéia.
__E aí? Vale a pena discutir?



quinta-feira, 21 de junho de 2007

Pedido financeiro de desculpas

__O hotel Mountain Inn no Big Sky Resort tem uma regra que deixa alguns de seus hóspedes irritados: esquis não são permitidos dentro dos quartos. Os equipamentos dos skiers devem ficar guardados dentro de uma sala que fica logo na entrada do lobby. A regra é explicada aos clientes no momento do check in.
__A regra existe porque os corredores do hotel são estreitos e os hóspedes acabam esbarrando com os esquis na parede e arranhando o papel. O cliente encara a regra numa boa durante toda a estadia, incomodando-se só na hora de ir embora, quando ele quer levar os esquis para o quarto e colocá-los nas suas capas. Boa parte dos hóspedes tenta flexibilizar a regra nesse momento. Eles dão um sorrisinho, pedem com simpatia, depois vão engrossando a voz, fazem cara feia, até que obedecem a norma.
__Lembro-me de dois hóspedes que mexeram com a minha paciência por causa dessa regra. Um deles foi um senhor de uns cinqüenta anos. Ele passava por mim carregando os esquis nas costas quando eu disse:
__-Senhor, esquis não são permitidos no hotel.
__Ele me ignorou. Não era surdo, pois eu conversara com ele anteriormente. Tentei chamá-lo novamente, mas ele seguia em direção ao seu quarto com um rosto carrancudo, determinado a desrespeitar a regra do hotel e seus empregados.
__O segundo foi um rapaz de uns vinte anos. Ele parou na frente da recepção e me perguntou:
__-Eu posso levar os esquis para o quarto?
__-Infelizmente não, senhor.
__-Por que não?
__Apontei para a placa que falava sobre a regra.
__-Não permitimos esquis porque as paredes acabam ficando arranhadas.
__-Eu vou tomar cuidado.
__-Sinto muito, senhor. Eu não posso permitir. Se eu deixar um passar, eu não estarei sendo honesto com os outros clientes.
__-Eu não vou empacotar meus esquis aqui embaixo!
__Ele não foi arrogante ao lançar o desafio. Eu simpatizara com o rapaz desde que ele começara a falar. Depois de me peitar, ele me olhava com medo. Acredito que ele estava num dia ruim. Aquele jeito de encarar e depois temer, me olhando na cara e esperando assustado pelo que eu fosse dizer, me fez acreditar que essa era uma das poucas vezes na vida em que ele estava sendo rude.
__Meu telefone tocou, então pedi que o rapaz esperasse um minuto e atendi. Era alguém que queria fazer uma reserva imediatamente. Enquanto eu falava, olhei para o rapaz e fiz um gesto com a cabeça, apontando para a direção dos quartos e fazendo uma careta, como que dizendo: "saia logo daqui." Ele olhou para o chão e saiu, carregando os esquis.
__Minutos depois, eu recebia novos hóspedes quando o rapaz apareceu novamente no meu balcão. Olhei para ele e percebi que ele estava arrependido. Ele me deu a mão num cumprimento e disse baixinho:
__-Sinto muito por ter te dado um trabalhão.
__-Está tudo bem.
__Quando comecei a soltar a sua mão, senti que ele estava me dando algo. Era um papel. Pensei que fosse um bilhete com um pedido de desculpas. Mas era uma nota de vinte dólares.
__Mais tarde, tentei entender o que significava essa nota de vinte dólares. Recepcionistas quase nunca recebem gorjetas, a não ser que saiam do balcão para ajudar algum hóspede em algo que não faça parte do seu trabalho, como quando carregam malas ou ajudam a empurrar carros atolados na neve. Talvez o rapaz tenha percebido que me fizera ter mais trabalho do que o normal e que, por isso, eu merecia uma gorjeta.
__Foi a primeira vez na vida que alguém me pediu desculpas assim, com dinheiro.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Plunger

__Eu trabalhava na recepção do Mountain Inn quando um hóspede me telefonou do seu quarto:
__-Recepção. Como posso ajudá-lo?
__-Eu preciso de um plunger. Vocês têm um que eu possa usar?
__-Sim. Eu vou achar e mandar um para o senhor agora mesmo.
__-Obrigado.
__Eu dissera para o hóspede que nós tínhamos um plunger porque eu sabia que o nosso hotel tinha tudo, menos um recepcionista que soubesse o significado da palavra plunger.
__Plunger é uma palavra deliciosa de se pronunciar. Perguntei ao meu chefe o seu significado:
__-O que é plunger?
__-É uma ferramenta para se desentopir privadas.
__-Ah, entendi.
__Aquele era um dos meus primeiros dias de trabalho no hotel. Na semana seguinte, fiquei surpreso com a freqüência com que os hóspedes me telefonavam para pedir o desentupidor. Havia noites em que dez hóspedes diferentes me pediam o dispositivo.
__Pensei que as privadas daquele hotel pudessem ser estreitas demais. Um mês depois, porém, comecei a trabalhar em mais um hotel, onde o plunger também era solicitado amiúde pelos visitantes do resort. Talvez os vasos americanos tenham perdido o trem do desenvolvimento.
__Sempre que um cliente telefonava para a recepção para solicitar um plunger, eu precisava informar os camareiros através do rádio.
__-Camareiros, é a recepção falando. O quarto 315 acabou de solicitar um plunger.
__Aquela mensagem ecoava nos rádios de mão dos empregados do resort com tanta freqüência que os trabalhadores da recepção receberam o seguinte e-mail da direção:
__"Estamos adotando uma nova política. Daqui para frente, não deveremos mais dizer a palavra plunger no rádio. Como tudo que dizemos no rádio pode ser ouvido ao redor do resort, a direção constatou que a palavra plunger pode constrangir os hóspedes que estiverem por perto dos comunicadores. Por isso, a partir de hoje digam plumber ao invés de plunger.
__Atenção, isto não é uma piada. Parem de dizer plunger a partir de hoje. É sério!"

terça-feira, 19 de junho de 2007

Razões para se viajar com um seguro saúde

__Um dos intercambistas que descia de snowboard as montanhas cobertas de neve do Big Sky Resort todos os dias era um cara de Porto Alegre chamado João, que não é o João descrito no post 21 de dezembro - meu primeiro dia de trabalho, um cara de Minas Gerais que não queria saber de snowboard. O João de quem quero falar agora é o narrador do vídeo do Caio caindo (O Tombo).
__Assim que chegou nos Estados Unidos, a primeira coisa que o João fez foi comprar um snowboard. Já em Big Sky, ele não quis saber de aulas. Tratou de aprender a dominar a neve sozinho, descendo as montanhas com cuidado e jogando-se no chão sempre que começava a deslizar muito rápido. Em menos de uma semana de prática, ele ficou craque.
__Certo dia, eu ia do hotel onde trabalhava até a cafeteria quando o encontrei no caminho, andando muito devagar e mancando.
__-Fala, João velho! O que foi que aconteceu?
__-Ai, velho! Eu caí.
__-Sério? Na neve?
__-É.
__-Snowboard é fogo né?
__-Não, não foi snowboard. Eu fui correr atrás do ônibus e escorreguei na neve. Arregacei minha bunda no chão. Tá doendo pra...
__Algo semelhante aconteceu com um snowboarder chamado Felipe. Eu andava numa trilha que levava ao meu alojamento quando o vi andando com dificuldade na minha frente. Sua perna estava engessada.
__-Fala, Felipe! O que aconteceu?
__-Caí.
__-Snowboard?
__-Não. Eu estava tirando uma foto da minha turma, tropecei e caí no chão.
__-Que ironia, hein? Quatro meses fazendo snowboard e você cai tirando foto...
__A cara que ele fez mostrou que ele estava ouvindo aquilo pela infinitésima vez.
__-É, é... eu sei. Todo mundo está falando isso.
__Mais interessante ainda foi o caso de uma operadora de teleférico conhecida como Foucault, por ela gostar e falar muito dos pensamentos de Michel Foucault. Ela andava pela montanha em que trabalhava quando protagonizou uma cena de desenho animado ao pisar na ponta de uma pá de remoção de neve. O cabo da pá atingiu seu rosto, machucando seriamente o seu nariz e levando-a ao chão. Depois de um tempinho no hospital, ela já trabalhava alegre e saltitante como faxineira pelos corredores do hotel em que eu também trabalhava. Ela foi até a recepção onde eu estava e me contou a história da sua foucaultzada.
__Conversávamos eu, a Foucault e o Chris na recepção. Chris disse algo que, na hora, me deixou surpreso, mas que não sou capaz de me lembrar agora. Só me lembro que eu disse:
__-Cara! Você tá falando a verdade?
__A Foucault, com seu nariz ferido, dolorido e protuberante, quis dar uma nos meus dedos:
__-Não, Renan! Ele está mentindo. Olha o nariz dele.
__-Foucault, olha o seu nariz!
__-Renan, olha o meu dedo (mostrando o dedo do meio).


Não é na desafiadora montanha que os visitantes de Big Sky se machucam.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Efeito da maconha

__Eu estava trabalhando na recepção do Mountain Inn na madrugada do dia 6 de abril quando o telefone da minha mesa tocou. A ligação vinha de um dos quartos do hotel.
__-Recepção. Como posso ajudá-lo?
__-Como eu faço para checar a minha caixa de mensagens daqui do quarto?
__-Aperte o botão message e então digite 3529.
__Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
__-Ah tá. Com quem estou falando?
__-Com a recepção.
__Seguiu-se um novo silêncio. Então, com a voz de quem pensou cansativamente e inutilmente a respeito de uma pertinente e incômoda questão existencial, ele disse:
__-Ah! Desculpe-me, mas eu fumei muita maconha essa noite. Em que hotel estou ficando?
__-Você está no Mountain Inn, senhor, no Big Sky Resort.
__-Ah, ok. Muito obrigado.
__Pena que ele não disse: "Só mais uma pergunta: quem sou eu?"
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__Leia mais sobre drogas em Big Sky clicando aqui.

McDonalds

__A imagem abaixo aparece estampada em camisetas de jovens e colada em sinais de trânsito ao redor dos Estados Unidos.
_
"Maconha. Mais de 1 bilhão de chapados".

domingo, 17 de junho de 2007

Jeitinho brasileiro na Fórmula 1?

__O regulamento de 2007 da Fórmula 1 diz que cada piloto tem à sua disposição duas especificações de pneus para pista seca no domingo: duro e mole, sendo que os corredores devem usar pelo menos um jogo de cada um dos dois tipos durante a corrida, realizando as trocas ao parar nos boxes.
__No GP de ontem, vencido de ponta a ponta pelo espetacular estreante e já recordista Lewis Hamilton, o Galvão Bueno jogou no ar a seguinte dúvida: um piloto pode usar as duas especificações de pneus ao mesmo tempo ou deve sempre usar os dois tipos de jogos separadamente?
__A idéia por trás da regra em questão é obrigar o piloto a usar quatro pneus de apenas um tipo por vez e, assim, dificultar as decisões estratégicas das equipes. Pode ser que os competidores aproveitem essa brecha no regulamento para levar vantagem no campeonato. Falou o corredor e comentarista Luciano Burt sobre a possibilidade de misturar os tipos de pneu:
__-Pode ser uma vantagem... pelo regulamento, eu acho que não é permitido... é bem inteligente. Seria mais um jeitinho brasileiro de conseguir uma solução que talvez nem a Fórmula 1 tenha pensado ainda.
__Quem leu o post "jeitinhos internacionais" já sabe onde eu estou querendo chegar. A dúvida do Galvão surgiu depois que o italiano Giancarlo Fisichella, que corre pela equipe francesa Renault, misturou diferentes tipos de pneus japoneses Bridgestone no seu carro para melhorar seu desempenho no GP dos Estados Unidos. Por que é que essa atitude seria um jeitinho justamente brasileiro, e não um jeitinho multinacional? O que é que o Brasil tem a ver com essa história, pô?
__Minha opinião é que a única relação do Brasil com essa história é que a história estava sendo comentada por um comentarista brasileiro. Nós, brasileiros, decidimos que métodos duvidosos de solução de problemas são sempre métodos brasileiros. Divulgamos tanto essa idéia que se o jeitinho brasileiro realmente existe, será difícil saber se os povos ao redor do mundo conhecerão esse jeitinho através das nossas atitudes desonestas ou pela propaganda negativa feita por nós mesmos.
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__Não posso deixar de citar um comentário pertinente do mesmo Luciano Burt, feito no GP Brasil de 2005 ou 2006, não me lembro exatamente. A pista de Interlagos estava coberta de guardanapos e garrafas de água jogadas pelo público, sujeira essa que comprometia a beleza do circuito e a segurança dos pilotos. Burt disse que isso não acontece em nenhum lugar do mundo, mas acontece com freqüência no GP Brasil.
__Ele disse a pura verdade. Uma pista de Fórmula 1 coberta de lixo é exclusividade brasileira.