sexta-feira, 1 de junho de 2007

Negociação de pagamento

__Era fim de janeiro e o pessoal do Ticket Sales resolveu que estava na hora de pedir um aumento. João, Caio Velho, Doidão, Cenário, Karlão e eu decidimos que, no fim do dia, eu e o João conversaríamos com o nosso chefe, Jan, e que tentaríamos negociar melhores pagamentos.
__Terminado o expediente, ficamos eu e o João no local de trabalho e chamamos o Jan para conversar. Eu comecei:
__-Jan, o pessoal aqui do Ticket Sales estava conversando sobre os pagamentos. A gente acha que não está bom. Vários de nós trabalhamos em dois empregos para poder juntar um bom dinheiro e não queríamos ter que sair daqui, porque o trabalho aqui é legal. Realmente gostamos de trabalhar aqui. O que precisamos fazer para tentar um aumento?
__Jan nos respondeu que ele falaria diretamente com o pessoal do Recursos Humanos para tentar nos conseguir um aumento. Perguntamos para ele se poderíamos nós mesmos falar com alguém para agilizar o processo. Ele disse que deveríamos falar com a Jen, gerente do Recursos Humanos.
__Fomos eu e o João para a sala da Jen. Ela nos recebeu e explicamos para ela a situação que tínhamos explicado para o nosso chefe.
__-Eu entendo que o pagamento não é bem o que vocês queriam. Mas é que o Ticket Sales é um dos melhores lugares para se trabalhar. Boa parte do nosso melhor pessoal trabalha lá. O Jan é conhecido como o melhor chefe do resort. Então o pagamento é esse...
__Ela estava falando da lógica de pagamentos do resort para intercambistas, que é um tanto difícil para um brasileiro assimilar: o Ticket Sales é um dos melhores lugares para se trabalhar. Os melhores empregados estão lá e falam inglês fluentemente e o chefe do departamento é o mais querido do resort. Por isso, o pagamento é baixo. Já os camareiros, os limpadores de mesa de restaurante e os removedores de neve têm um trabalho puxado colocando a mão na massa. Por isso, o pagamento é alto. Trabalhar sentado na frente do computador é igual pagamento baixo. Limpar a privada do hóspede do hotel e fazer a sua cama é pagamento algo. Trabalho leve é igual a pagamento baixo. Trabalho pesado é igual a pagamento alto.
__A Jen continuou a falar:
__-Em março, boa parte dos intercambistas volta para o país de origem. Daí vão faltar empregados no resort, e vocês podem ter certeza de que vai sobrar trabalho para que vocês façam horas extras e juntem dinheiro.
__Negociação encerrada. O resort ganhou essa.

Trabalho leve no Ticket Sales de dezembro até a primeira semana de março. Pouca gente comprava ingresso depois das 11 da manhã e então o ócio tomava conta do local de trabalho até as 2 da tarde. Foi num desses momentos de vagabundagem que foi criado o punishment hat, um chapéu feito de papel para punir quem fizesse besteira. Se você trabalhar no Ticket Sales na próxima temporada, o chapéu usado por nós várias vezes estará lá para que você o use quando fizer uma burrada. Você também vai encontrar uma série de papéis pendurados num mural. Esses papéis são as frases mais absurdas vindas dos empregados e dos clientes no inverno de 2007, registradas pelo Caio Velho e pela Karlão.
A mulher usando o chapéu na foto é a Karlão (Karla). O cara atrás dela é o Doidão (Miguel). Logo atrás estão o João e o Arief.
Se você for trabalhar no Big Sky Resort no próximo ano, dê continuidade à história do
Ticket Sales e envie suas fotos para o blog!
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renancontador-blog@yahoo.com.br

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Cuidado com os ônibus de Big Sky

__Há um ônibus que circula pela área que fica entre dois resorts: o Big Sky Resort e o Moonlight Basin. Seu horário não é regular: é preciso ter uma agenda para saber quando ele passará em cada lugar. O intervalo entre um ônibus e outro pode ser de até uma hora.
__Eu estava num desses ônibus numa tarde. Eu era o único passageiro. O motorista parara na frente de um restaurante, onde deveria esperar cinco minutos para que a agenda fosse corretamente cumprida. Faltando dois minutos para o horário certo de partir, o motorista acelerou e falou:
__-Não vai vir ninguém.
__É assim que você pode chegar atrasado para um compromisso em Big Sky.
__Certa vez eu me dei mal por causa de uma sacanagem dessas. Eu queria pegar o último ônibus para Bozeman, o da 00:35. Eu esperava o ônibus no Meadow Village Center, mas ele não parou onde deveria parar. Cortou caminho e passou direto.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Perguntas idiotas, respostas cretinas

__Eu estava no quarto descansando e o Dan estava fritando uns hambúrgeres de carne de veado. Amigos do Dan trouxeram a carne de caça para ele na semana anterior.
__-Renan, sabe aquela comida congelada que você deixou na parte de trás da minha camionete?
__-Sim.
__-Então... as caixas estão mordidas. Algum bicho deve ter comido.
__-Que tipo de bicho?
__-Talvez urso.
__-Temos ursos andando por aqui?
__-Sim.
__-Ual! Eu não sabia!
__-É... tem uns por aí.
__-Não temos ursos no Brasil.
__-Por que não?
__-Acho que é porque eles se cansaram dos brasileiros. Lá tem muita roubalheira.

Livros no banheiro

__Livros podem ser comprados em todos os mercadinhos de Big Sky. No Hungry Moose é possível comprar livros usados.
__Certa vez eu parei no Hungry Moose só para tirar água do joelho. Vejam o que encontrei no banheiro: uma estante de livros!
_____Banheiro do Hungry Moose

Rimas para criancinhas

__Essas rimas em inglês estão circulando pelos e-mails dos Estados Unidos.
__Leiam para praticar a língua e apreciem o humor nada educativo.
__Uma dica para encontrar o significado das palavras difíceis: acessem o site http://www.answers.com/

Mary had a little pig, She kept it fat and plastered;
And when the price of pork went up,
She shot the little bastard.

Mary had a little lamb
Her father shot it dead.
Now it goes to school with her,
Between two hunks of bread.

Jack and Jill went up to the hill
To have a little fun
Stupid Jill forgot the pill
And now they have a son

Simple Simon met a Pie man going to the fair.
Said Simple Simon to the Pie man,
"What have you got there?"
Said the Pie man unto Simon,
"Pies, you dumb #$%!"

Georgie Porgy Pudding and Pie,
Kissed the girls and made them cry.
And when the boys came out to play,
He kissed them too 'cause he was gay.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Como comprar um computador

__Assim que consegui meu segundo emprego, resolvi comprar meu laptop para me comunicar com o Brasil e para escrever no blog. A operação de compra se deu num piscar de olhos.
__Eram 2:00 da tarde no Ticket Sales. Eu disse para os colegas:
__-Vou comprar um laptop no Walmart hoje.
__O Cenário perguntou:
__-Por quanto?
__-É o mais barato. Quinhentos dólares.
__-Não compra no Walmart não. As marcas são ruins. Olha isso aqui:
__Ele usou o laptop do colega Arief para abrir o site da loja Staples. Essa é uma loja que vende tudo que escritórios precisam. Há uma delas em Bozeman. No site havia um laptop da Lenovo também por quinhentos dólares, 1.6 GHz de processamento, 512 Mb de memória. Nada que dê para rodar o Windows Vista com o caramba a quatro. Mas eu só queria rodar o Windows XP mesmo. Não dei a mínima para saber qual foi a merda que a Microsoft fez dessa vez.
__Quem conviveu comigo nos dias anteriores ao lançamento do Vista sabe que eu estou mentindo. Eu estava ansiosíssimo para ver como seria esse negócio, mas não quis gastar dinheiro para comprar uma máquina que rodasse a novidade. Só percebi que fiz a coisa certa quando vi meus amigos comprando supermáquinas que rodavam o Windows Vista loucos para jogar o laptop no chão quando apareceram pelas primeiras vezes aquelas famosas frases: "Erro fatal", "Deseja enviar um relatório para a Microsoft?". E os desenvolvedores falaram que o novo sistema seria uma revolução! Seria uma revolução se, depois de o programa dar pau, tivesse uma mensagem assim: "Adivinha só: o sistema deu pau de novo! Deseja enviar a Microsoft para a #$%*?".
__Resolvi que queria comprar o tal laptop da Lenovo. O próximo ônibus para Bozeman era às 3:30 da tarde e foi esse que eu peguei. O último ônibus de Bozeman de volta para Big Sky sairia de um shopping às 5:45. Cheguei em Bozeman 5:00. Eu tinha quarenta e cinco minutos para correr até a Staples, comprar o computador e correr para o lugar de onde o ônibus partiria.
__Assim fiz. Voei para a Staples e cheguei lá quase morto. Não quis perder meu tempo procurando o computador. Falei para o primeiro atendente que vi:
__-Colega, estou numa baita pressa. Quero comprar o laptop da Lenovo de quinhentos dólares.
__Ele me levou até o computador, que ficava ao lado de vários outros:
__-Senhor, eu preciso te falar uma coisa. Semana que vem chega um laptop da Lenovo pronto para rodar o Vista. Esse que você quer comprar roda o Vista muito mal...
__-Eu não me importo. Eu quero o Lenovo de quinhentos dólares sem o Vista.
__-Hehe! Ok. Eu só tinha que te falar.
__Cheguei no caixa com o laptop debaixo do braço. A atendente checou o código de barras, perguntou a forma de pagamento e me fez uma pergunta que eu não entendi.
__-Moça, desculpa. Eu ainda estou aprendendo inglês e não entendi o que você falou. Hoje eu só preciso sair com esse computador a tempo de não perder o ônibus. Então eu quero pagar do jeito mais rápido e está tudo certo.
__Feito o pagamento, saí em disparada e cheguei ao shopping a uns dez minutos de o ônibus partir. Missão cumprida!

domingo, 27 de maio de 2007

Burro demais

__Eu estava no meu quarto há menos de uma hora lendo um livro quando apareceu o Dan, completamente bêbado e risonho.
__-Renan? Haha! Ai, Renan... eu estou um pouquinho bêbado.
__-Sabe... eu acho que você está mesmo.
__Agora ele ria como se eu tivesse acabado de contar a piada mais engraçada do mundo.
__Do lado da geladeira havia uma caixa de cerveja vazia. Perguntei:
__-Cara, você tomou tudo?
__-Acho que sim. Hehe!
__Sem parar de rir, ele colocou a caixa de cerveja na cabeça e comeu uns pedaços do frango assado que havíamos comprado no dia anterior. Parei de prestar atenção nele e voltei para o meu livro. Pouco depois, ele gritou:
__-Renan! Estou preso! Essa merda não sai da minha cabeça! Me ajuda!
__-Ok. Vem aqui.
__Eu estava no beliche. Ele colocou a cabeça na minha cama e eu percebi que ele não estava de brincadeira, pois, quando eu puxei a caixa, a cabeça quase veio junto. A porcaria não saía de jeito nenhum:
__-Ai! Está doendo pra caramba!
__-Por que você tem que ser tão burro?
__-Eu sei, eu sei. Ai! Você tá me matando!
__-Espera aí que vai sair. Peguei! Saiu.
__-Ai, meu Deus! Pensei que eu fosse morrer.
__Voltei a ler meu livro. Depois de alguns minutos, escuto a risada incontrolada do Dan novamente. Ele estava olhando para o espelho, novamente com a caixa na cabeça. Ele não podia parar de rir.
__-Ai, Renan! Estou preso de novo!
__-Vem aqui, espertão.
__Arranquei a caixa da cabeça dele mais uma vez.
__-Renan, eu estou morrendo. Vou dormir.
__-Ok.
__Ele se deitou na cama. Eu li mais um pouco e então disse:
__-Dan, sabe de uma coisa?
__-O quê?
__-Eu acho que você tinha que dormir com a caixa na cabeça.
__-Ok.
__Ele se levantou, enfiou a caixa na cabeça e foi dormir.
__Acordei cedo no dia seguinte para trabalhar e vi que ele ainda estava dormindo com a caixa na cabeça.
__-Dan, acorda, cara! Você vai perder o ônibus.
__-Ai... eu acho que vou de carro hoje, cara. Eu estou todo ferrado.
__Lá pelas 10:00 da manhã eu estava trabalhando no Ticket Sales e o Dan apareceu na minha janela.
__-Renan! Aconteceu uma coisa louca comigo hoje.
__-É mesmo?
__-Eu sonhei a noite inteira que estava com a cabeça presa dentro de alguma coisa. Acordei com uma puta dor e vi que eu estava com uma caixa de cerveja na cabeça. Você sabe o que aconteceu?
__-Cara, não tenho a menor idéia. Uma caixa de cerveja na cabeça? Como é que você conseguiu fazer isso?
__-Eu não sei! Quando eu acordei, foi um sufoco para tirar. Não saía de jeito nenhum. Você não lembra de nada?
__-Eu não. Você deve ter chegado depois que eu já estava dormindo.
__-É, deve ser.
__-Ok, Dan. Estou indo aí fora para te mostrar uma coisa.
__Fui até ele e liguei minha máquina fotográfica.
__-Dan, olha isso.
__Eu estava mostrando essa foto para ele:
__________Dan chapado
__-Cara! O que é isso? Eu não me lembro disso! Como foi que aconteceu?
__-Você estava chapado!
__Nos dias seguintes, sempre que estávamos andando juntos até o trabalho e víamos uma caixa de cerveja jogada no chão, ele falava:
__-Renan, que chapéu legal ali no chão! Você viu?

Second Job - O fim da saga

Vista da paisagem oposta ao resort

__Era 14 de janeiro. Eu já encerrara meu expediente no Ticket Sales e estava perambulando pelo resort e apreciando a paisagem. Depois de andar por uma hora, fui tirar um descanso na cafeteria. Chegando lá, encontrei o Arief, da Indonésia, mexendo no seu laptop numa das mesas.
__-E aí, Arief!
__-E aí? Como vai?
__-Continuo na procura do segundo emprego. Está difícil!
__-Por que você não tenta Front Desk no Mountain Inn? Eu acabei de sair de lá.
__-Por quê?
__-Eu não gostei do trabalho. Eu saí hoje. Tenta lá amanhã de manhã. Fala com o Ryan, que é o gerente do Front Desk.
__Na manhã do dia seguinte, lá estou eu no Mountain Inn para tentar a vaga no Front Desk, que é a recepção. O empregado que trabalha lá atende os hóspedes assim que eles chegam no hotel, faz o check-in, recebe seus pagamentos, ouve suas reclamações e resolve seus problemas, além de fazer reservas para novos hóspedes por telefone. Consegui falar diretamente com o tal do Ryan.
__Ryan era um cara enorme de óculos e cabelo liso que ficava caindo no olho. Ele veio até o lobby depois de ser chamado pela recepcionista que trabalhava no momento:
__-Oi. Eu estou aqui porque o Arief, que trabalhava aqui, me disse que vocês estão precisando de gente para trabalhar no Front Desk e eu estou interessado na vaga.
__-Isso. Quando você pode começar? Amanhã?
__-Pode ser hoje!
__-É melhor amanhã. Amanhã está bom.
__Essa foi a entrevista de emprego mais simples da minha vida. Eu não podia acreditar que tinha sido tão fácil. A vaga foi garantida numa conversa de menos de vinte segundos com um cara que era todo simpatia.
__O Mountain Inn era um hotel charmoso de noventa quartos. Eu entrara ali pela primeira vez há alguns dias com o Dan para usar o computador que ficava à disposição dos hóspedes e sentira um certo desconforto por estar num lugar tão elegante. Afastara a idéia de tentar um emprego ali, pois me parecia ousadia demais pedir uma vaga naquela beleza de hotel com o meu inglês carregado de sotaque. E agora eu trabalharia no balcão principal, sendo a voz do hotel para o hóspede na maior parte do tempo. Eu vivia uma deliciosa surpresa.
Foto de mim no Front Desk do Mountain Inn. A partir dali, responsabilidades maiores, inglês o tempo todo e contato direto e contínuo com hóspedes exigentes. Um emprego prazeroso de se conseguir e um desafio gostoso de se enfrentar.

__Eu trabalharia lá nos domingos e segundas, meus dias de folga no Ticket Sales, das 8 da manhã às 4 da tarde. Caso precisassem de mim, eu também poderia trabalhar das 4 da tarde à meia-noite em alguns dias da semana. O salário era de 8 dólares a hora, além de um bônus de 25 centavos por hora trabalhada se o contrato de trabalho fosse cumprido até o dia 15 de abril. O Ticket Sales me pagava 7,25 dólares a hora, além de 50 centavos de bônus nas mesmas condições.