sábado, 7 de abril de 2007

Brasil, Peru e EUA - Resposta

__No post de ontem, "Brasil, Peru e EUA", pedi que os leitores adivinhassem de onde era cada um dos colegas da foto.
__Vamos lá: a garota à esquerda é a americana e chama-se Rachel. Ela trabalha no Guest Services, checando os ingressos dos skiers antes que eles tomem o teleférico. Muitas vezes, os skiers estão com um ingresso irregular, mas conseguem passar depois de uma negociação com o empregado do Guest Service. É o jeitinho americano. Mas com a Rachel não tem jeito. Não adianta oferecer cafezinho, comentar do campeonato de futebol americano, dizer que é empregado e que nunca teve problema por esquecer o cartão etc. Se o ingresso estiver irregular e a Rachel pegar, dançou!
__O colega do meio é o peruano e chama-se Erick. Até pouco tempo atrás ele tinha o mesmo emprego da Rachel. Agora, ele é um dos colegas do Ticket Sales. Ele chegou ao departamento para complicar uma prática infame dos brasileiros e sul-americanos que trabalham no Big Sky Resort: falar mal das pessoas numa língua que elas não entendam. Às vezes, grupos de brasileiros ficam sacaneando o estrangeiro que está do lado, sabendo que ele não vai entender o que está sendo dito, pois ele só fala Espanhol. Acontece que o Erick é um peruano que entende Português. Sua presença levou os brasileiros do Ticket Sales a tomarem um pouco de vergonha na cara.
__Na semana passada, o Erick visitou um bar chamado Buffalo Station. Esse é um bar de Striptease que fica em Bozeman. Ele pagou vinte dólares a uma dançarina por um show particular numa cabine, e acabou expulso do bar porque deu umas apertadinhas na coitada.
__A colega loura da direita é a brasileira, Camila. Ela trabalha operando teleféricos. Todos pensam que ela é americana, inclusive americanos com quem converso.
__E aí? Acertou?

Fera escrevendo blog novo

__O Denilso de Lima, do blog Inglês na Ponta da Língua, está com um projeto novo: Professores de Língua Inglesa. Mais uma vez, o conteúdo é de primeira.
__Estudantes de Inglês, mostremos o blog novo aos nossos professores. Assim, estaremos colaborando para que o ensino da língua ganhe qualidade no Brasil.

Brasil, Peru e EUA

__Esta foto foi batida num café da manhã na cafeteria. Temos gente do Brasil, do Peru e dos EUA na foto. Você sabe identificar quem é de onde?
__Clique na foto para ampliá-la. Observe com cuidado e faça sua aposta. O resultado sai só amanhã. Divirta-se!

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Desprezo americano pelo latino-americano.

__Cumprimento o cliente que se aproxima da janela do Ticket Sales:
__-How is it going, Sr.? (Como vai?).
__-It's going. What about your self? (Vai indo. E você?)
__-I'm fine, thanks!
__-So where are you from?
__Vivo esse diálogo várias vezes ao dia. Quando estava no Brasil e me imaginava trabalhando nos EUA, não esperava que os americanos fizessem muita questão de saber de onde eu era. Professores de todas as disciplinas nos ensinam nas escolas e nos cursinhos que os americanos não dão a mínima para o resto do mundo. Mas a rotina estava me mostrando o contrário.
__Os manuais de viagem fornecidos pela minha agência de intercâmbio diziam que uma das razões de as empresas americanas contratarem sul-americanos era o prazer dos clientes em serem atendidos por estrangeiros. Eu não levava isso a sério. Para mim, a única razão para a contratação dos estrangeiros era pagar salários baixos que nenhum americano aceitaria.
__Acontece que sempre que dizemos que somos de tal lugar, os clientes reagem muito positivamente. Muitas vezes sabem alguma coisa sobre o país e fazem perguntas. Houve até um dia em que, logo após eu falar para o cliente que eu era do Brasil, ele disse, gritando e sorrindo, como quem não pode acreditar no que está ouvindo:
__-Brasil? Você está falando sério?
__Depois disso, ele ainda chamou a esposa:
__-Hey! Esse cara aqui é do Brasil! Vem ver!
__Houve ainda o dia em que eu estava checando ingressos e, logo após cumprimentar um cliente, ele me perguntou:
__-De onde você é?
__-Do Brasil.
__-Nossa! É tão bom ter tantos sul-americanos aqui! O que toda essa gente do Brasil está procurando?
__-Muita gente vem para cá para aprimorar o Inglês. Outros vêm apenas por diversão. Também há os que vêm para fazer algum dinheiro.
__-Legal! E você? O que está procurando?
__-Eu estou aqui para aprender Inglês e para viver essa experiência de estar num país tão diferente.
__-Seu Inglês é muito bom.
__-Obrigado! Agora, eu estou tentando perder esse sotaque.
__-Não faça isso. A graça desse resort é poder ouvir tantos sotaques diferentes. Vocês são demais. Não queiram ficar iguais a nós. Há muito americano idiota nesse mundo.
__Há quem diga que esse comportamento hospitaleiro é típico de Montana e não predomina em todo o país. Acontece que atendemos pessoas de todas as regiões no Ticket Sales, e somos tratados igualmente bem por todas elas.
__Dan costuma dizer que ele não gosta de gente de cidade grande. Diz ele que as pessoas das capitais não estão nem aí para ninguém. Infelizmente, não vou poder visitar região por região dessa vez e conferir o que ele disse. Mas o que eu posso dizer com segurança é que os brasileiros são tratados com muito respeito por pessoas de todo o país que freqüentam esse resort. O tão falado desprezo pelo latino-americano não mostra as caras por aqui.
__Contratando sul-americanos o resort dá aos clientes o prazer de interagir o dia inteiro com estrangeiros e ainda paga salários que os americanos não aceitariam receber. Não é um excelente negócio?

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quarta-feira, 4 de abril de 2007

O programa de trabalho no exterior e o Inglês

__Comentei num dos primeiros posts (razões para a viagem) que uma das principais razões da minha viagem era aprender Inglês. Ouve-se falar que a melhor maneira de se aprender Inglês é passar um bom tempo num país de língua inglesa. Isso pode ser verdade quando você não se isola dentro da comunidade formada pelos seus conterrâneos no país que fala a língua que você quer aprender.
__Estamos em abril e faltam menos de duas semanas para minha partida de Big Sky. Volta e meia eu encontro brasileiros e peruanos incapazes de se comunicar em Inglês, e eles estão aqui desde dezembro. Não estou dizendo que eles falam mal a língua. Estou dizendo que eles não entendem uma pergunta ou um cumprimento sequer, nem são capazes de se fazer entender minimamente.
__Se você planeja um intercâmbio de trabalho nos EUA e a sua intenção é melhorar o seu Inglês, tenha em mente que essa viagem não será um milagre de aprendizado. É muito fácil transformar os quatro meses de trabalho nos EUA no maior desperdício de aprendizado da sua vida.
__Na primeira vez que fui ao Wall Mart em Bozeman, fiquei irritado ao andar pelos corredores e perceber que estava difícil encontrar alguém conversando em Inglês. A maioria das pessoas que andava por ali falava Espanhol ou Português. Isso dá uma idéia do tamanho da presença Sul-Americana nesse lugar.
__A maior parte dos intercambistas de Big Sky trabalha cozinhando, limpando quartos de hotel, servindo pratos em restaurantes e operando teleféricos. Nesses empregos, o contato com o Inglês é mínimo. Além disso, a quantidade de colegas conterrâneos é grande, o que faz com que se fale a língua natal o dia inteiro.
__Ficamos deslumbrados com as diferenças de se morar num país de primeiro mundo e sentimos muita vontade de falar sobre tudo o que vemos. Brasileiros para conversar sobre o que se vê por aqui não faltam. Por isso, acredite, meu amigo brasileiro: aqui, você provavelmente falará mais Português do que você jamais falou na sua vida.
__Se o seu objetivo é viajar para aprender Inglês, um programa de trabalho no exterior pode não ser a melhor opção. Há várias opções de intercâmbio que podem ser estudadas nos sites de agências de viagem (veja alguns sites no canto direito deste blog). O programa de trabalho só é significativamente positivo para o Inglês se o intercambista chega nos EUA já com uma boa base e se ele consegue empregos em que o diálogo com os clientes seja freqüente e rico, como é o caso dos empregos de Concierge e de Front Desk. O Concierge é o responsável por informar os hóspedes dos hotéis sobre os restaurantes, as atividades noturnas e as opções de lazer. Já o Front Desk recebe os hóspedes, esclarece suas dúvidas sobre reservas, estadia e pagamento, além de ser o responsável por atender seus telefonemas direto dos quartos e providenciar tudo o que eles solicitarem, comunicando-se para isso com todos os departamentos do hotel, sempre em Inglês.
__No caso de o programa de trabalho ser sua única possibilidade de viajar para o exterior, por essa ser uma forma econômica de se viajar, procure dar uma turbinada no Inglês antes do embarque. Hoje em dia é muito mais fácil de se aprender Inglês, pois podemos nos informar muito bem na internet sobre como estudar a língua antes de sair pagando por qualquer porcaria de curso. Recomendo logo abaixo algumas preciosas fontes de informação para quem busca o aprendizado da língua:

__www.englishexperts.net
__www.teclasap2.blogspot.com
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www.denilsodelima.blogspot.com

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terça-feira, 3 de abril de 2007

Sotaque

__Eu atendia um casal de namorados no Ticket Sales. Eles tinham dentes de metal. Não estou falando de obturações. Estou falando de bodymod, que é a modificação radical do corpo praticada por várias tribos ao redor do mundo, e que tem como exemplos implantes de bolas de metal debaixo da pele, divisão da língua em duas partes e até amputação de dedos. Os clientes que eu estava atendendo haviam arrancado seus dentes e agora tinham dentes que pareciam pequenos parafusos. Eles me perguntaram:
__-Quanto custa um ingresso?
__O preço do ingresso varia em função da faixa de idade do cliente. Eu não sabia se aqueles seres de dentes metálicos eram maiores ou não. Perguntei:
__-How old are you?
__O casal não entendeu a minha pergunta. Penso que não sou bom em dizer how old are you, pois muitos clientes não me entendem quando pergunto isso.
__Os dois puxaram assunto comigo:
__-De onde você é?
__-Do Brasil. Vocês acham meu sotaque muito pesado? Ninguém entende quando pergunto a idade.
__-É... seu sotaque é um pouco pesado.
__O casal ria e seguia querendo conversar. Perguntei:
__-Eu não estou dizendo how old are you corretamente?
__-Está.
__-Então porque ninguém me entende?
__-Vai ver é o seu microfone que está funcionando mal.
__-É. Na verdade, eu nem tenho sotaque. É esse microfone que dá a impressão de que eu tenho sotaque. Eu sou americano.
__Eu acreditava que poderia perder o sotaque de estrangeiro depois de aprender Inglês nos EUA. Queria que meu Inglês melhorasse a ponto de eu poder passar por americano. Mas agora que estava aqui conversando com os americanos todos os dias e eles sempre confirmavam que eu tinha um sotaque, percebi que essa meta seria um tanto difícil de atingir.
__Resolvi que queria dizer sem sotaque, pelo menos, as frases que eu mais dizia no Ticket Sales. Pedi para o Dan me ajudar:
__-Dan, quero aprender a falar how are you doing (como vai você) sem sotaque.
__Ele pronunciava a frase e eu tentava repetir sem sotaque, mas era inútil. Ele disse:
__-Primeiro você precisa aprender a falar doing. Olha só: doing!
__Eu repeti doing dezenas de vezes sem ter sucesso. Eu não sou capaz de pronunciar sem sotaque uma das palavras mais elementares da língua Inglesa.
__Contei para os colegas do Ticket Sales que nenhum de nós sabia dizer doing. Nenhum deles acreditou. Então chamei um colega americano do Guest Services, o Jimmy, para dizer se tínhamos sotaque ou não ao dizer doing. Ninguém passou no teste.
__Podemos melhorar nosso vocabulário e nossa agilidade em compreender e falar o Inglês. Mas falar tão bem e tão sem sotaque a ponto de se passar por um americano para um americano não é algo que o programa Work and Travel permita ao intercambista.
__Passar-se por um americano para um brasileiro ou para gente vinda de outros países que não os EUA também é possível. Fiz isso várias vezes no Ticket Sales. Sempre que atendo um brasileiro, falo Inglês até o último instante. Só no final eu começo a falar Português, e então os conterrâneos dizem:
__-Sacanagem! Pensei que você fosse americano.

______Janela do Ticket Sales

Jeitinho americano

__O dia era 30/12. Eu trabalhava checando os ingressos dos skiers quando se aproximou uma família que não tinha ingressos, e sim vale-ingressos.
__Os vale-ingressos devem ser trocados por ingressos no Ticket Sales. Esses ingressos devem ser pendurados na roupa para ficar ao alcance do scanner com que os empregados fazem a checagem. Só que essa família tinha vale-ingressos pendurados na roupa, e não ingressos. Eu não poderia deixá-los passar.
__Aproximei-me do pai, que vinha trazendo dois filhos e a esposa atrás dele.
__-Com licença, senhor. É preciso que o senhor troque os seus vales por ingressos lá no Ticket Sales.
__Aquele senhor bem gordo, de pele bem branca, cabelos louros e bochechas vermelhas olhou nervoso para o lado, como quem diz “não acredito”. Ele era mais alto do que eu e abaixou seu rosto para falar comigo:
__-Senhor, nós só temos uma hora para esquiar. Se formos lá, vamos perder muito tempo. Por que você não nos deixa passar?
__Ele tinha falado bem baixinho e olhava bem nos meus olhos. Era como se estivesse tentando vender algo ilegal e estivesse dizendo com vergonha “vai, ninguém está vendo”.
__Um cheiro bem forte de álcool vinha dele. Seus dentes estavam podres. Ele me olhava, pedindo a aprovação do pedido. Ele estava sendo bem malandro, o que podia significar que aqueles vale-ingressos tinham algo de errado e era por isso que ele não queria tentar trocá-los por ingressos.
__Eu também podia estar completamente errado no meu julgamento. Ele poderia estar apenas tentando aproveitar melhor aquele fim de dia de ski com o filhos. Se eu o obrigasse a trocar os vales, eu realmente poderia estar fazendo aquele senhor perder um tempo precioso de diversão com os filhos e a esposa. Ainda que devêssemos fazer os clientes do resort respeitarem as regras e cumprirem suas obrigações, talvez essa não fosse a hora de arriscar a satisfação daquela família. Eu já vira Jan, meu chefe, reembolsando clientes por ingressos mesmo quando a situação não parecesse justificar a transação. Jan falava que não valia a pena ter um cliente muito revoltado andando pelo resort, ainda que ele estivesse errado. Resolvi seguir o jeito do Jan resolver esse tipo de situação:
__-Ok, senhor. Pode passar. Da próxima vez, lembre de trocar o vale por ingresso, ok? É muito importante.

domingo, 1 de abril de 2007

Véspera de ano novo

__Na manhã do dia 31/12, os moradores do Golden Eagle encontraram pregados nas portas dos seus quartos alguns avisos sobre o que não se pode fazer no alojamento durante as festas de ano novo.

1 – Moradores que estiverem fazendo barulho no quarto depois das 10:00 da noite perderão o direito de morar no abrigo.
2 – Menores de 21 anos que forem pegos bebendo álcool passarão a noite na cadeia.
3 – Maiores de 21 que forem pegos bebendo álcool com menores serão presos e passarão três meses na cadeia.
4 – O xerife local inspecionará os abrigos para ver se as regras estão sendo respeitadas.

__A rotina do Ticket Sales foi a mesma de sempre nessa véspera de ano novo. O Miguel e o João insistiam para que eu fosse com eles numa festinha de virada de ano naquela noite. Seria na casa de uns amigos deles num bairro chamado Firelight, na base da montanha, próximo ao Hungry Moose. Esses amigos trabalhavam no Yellowstone Club, onde há um hotel voltado para clientes mais exigentes e para os famosos, e que é protegido por um sistema de segurança rígido. Lá, os empregados ganham o suficiente para pagar por moradias mais confortáveis.
__A fofoca que circula por aqui sobre o Yellowstone Club envolve o homem mais rico do mundo, Bill Gates. Comenta-se que ele tem uma casa no local, mas não se sabe qual é. No Yellowstone Club também está sendo construída a casa mais cara do planeta. Alguns dizem que é essa a casa que o Bill Gates está para comprar ou já comprou.
__O João viu fotos da construção da tal casa na televisão. Segundo ele, a casa não é nada demais. Ele brinca que a casa pode ser a mais cara do mundo por uma razão simples: Big Sky é uma cidade isolada dos EUA e, por isso, sai muito caro trazer os materiais de construção para cá.
__Acabei indo com o João e com o Miguel na tal festa. Eu realmente não estava com vontade de ir, mas eles usaram um artifício para me convencer: o abraço coletivo.
__O abraco coletivo, coisa do Miguel, é um abraço de vários colegas ao mesmo tempo em alguma pessoa. É uma ferramenta de convencimento poderosíssima. Faz pessoas tristes sorrirem e também faz pessoas irem a lugares aonde elas não querem ir. Foi por causa do abraço coletivo que fui à festa na qual não queria ter ido. Havia umas dez pessoas na casa. O pessoal ficou ouvindo música, conversando e bebendo. O abraço coletivo me forçou a ir, mas não conseguiu me fazer aproveitar o momento. Achei tudo entediante e fui embora menos de duas horas depois de chegar. Atitudes como essa explicam porque o apelido “Velhão” grudou tão fortemente em mim.
__Voltava andando para casa quando um ônibus parou perto de mim e o motorista me pediu para entrar. Ali dentro estavam alguns brasileiros que voltavam de uma festa que acontecia no resort. Também havia uma americana da idade dos intercambistas. Ela estava bêbada. Dizia que era de New York e perguntava de onde éramos. Antes de descer do ônibus, deu um abraço forte em um dos brasileiros que acabara de conhecer e nos desejou feliz ano novo.
__Cheguei no Golden Eagle lá pelas 11:00 da noite. Muita gente não levou os avisos sobre a música alta a sério. O som rolou até a madrugada, e eu não soube de punições para qualquer dos moradores. Empregados antigos do resort comentam que muito pouca gente foi presa essa ano.