sexta-feira, 30 de março de 2007

Protegendo-se do frio

__Uma maneira de se enfrentar o frio é comprando uma calça e uma jaqueta especiais para ski. Se você está protegido dessa forma, você pode deitar e rolar na neve, pois não sentirá qualquer desconforto. Essa é o jeito moderno de se proteger de uma temperatura de 15 graus Célcius negativos.

__Também existe a maneira econômica, que é trazer todas as roupas do Brasil e vesti-las ao mesmo tempo. Procedendo assim, você se torna uma pessoa fofa, exatamente como eu estou nessa foto:

__Existe ainda a maneira estúpida. Quem me ensinou essa maneira foi o Dan. Você coloca uma camiseta, uma camisa por cima e pronto. Abaixo, o modelo:
__Voltávamos eu e o Dan de mais um dia de trabalho, no dia 30 de dezembro. Havíamos descido do ônibus no centro do bairro e caminhávamos para casa. Eu estava vestido da maneira econômica, e o Dan estava vestido da maneira estúpida. Ele nem sequer fechava os botões da camisa. Falei:
__-Ai! Que frio do caramba!
__Ele não sofria nem um pouco com a temperatura.
__-Frio? Olha isso:
__Ele abriu ainda mais a camisa, segurou as pontas dos mamilos com os dedos e ficou apertando e dizendo:
__-Uh! Uh!
__Era uma delícia chegar em casa. O quarto parecia um forno. O aquecedor faz um bom trabalho. É possível até dormir sem camisa.
__Passados uns dez minutos que estávamos em casa, o Dan começou a reclamar:
__-Está quente aqui, cara!
__Ele tirou a roupa e ficou de cueca.
__-Continua quente!
__Ele abriu a porta e o frio que entrou já me torturou. Ele saiu do quarto de cueca e ficou andando pelo corredor aberto do Golden Eagle, exposto a 15 graus negativos.
__Depois de uns cinco minutos do lado de fora, ele voltou e disse:
__-Renan, você é louco. Agüenta ficar aí nesse calor.
__Agora seria um bom momento para colocar uma enquete nesse blog. A pergunta seria: quem você acha que é louco?

1- O Renan, que quer ficar dentro de um quarto aquecido vestindo roupas?

2- O Dan, que quer ficar de cueca na rua num frio de 15 graus negativos?

quinta-feira, 29 de março de 2007

Dia de pagamento

__Dia 29/12 era payday (dia de pagamento), que ocorre a cada quinze dias. Na nossa folha são descontadas as refeições na cafeteria, moradia, um imposto estadual e um imposto federal. Os impostos totalizam aproximadamente 12% do pagamento, e o intercambista recebe o valor desses impostos de volta no mês de janeiro do ano seguinte.________Cafeteria
__
A folha dos intercambistas que chegaram na mesma data que eu e, portanto, não haviam trabalhado nem dez dias, não era algo animador. Descontados os impostos, restavam uns 270 dólares, dos quais ainda se descontavam uns 60 dólares de moradia e uns 20 dólares de refeição. Embora os 190 dólares restantes já representassem mais do que o salário mínimo brasileiro, e já estivéssemos livres de ter que pagar moradia, comida e transporte, que é gratuito, predominava um desânimo entre os colegas do Ticket Sales por sabermos que o que ganhávamos por hora e a quantidade de horas que trabalhávamos não seria suficiente para recuperar o valor investido no programa.
__O pagamento mínimo por aqui é 7.25 dólares a hora, e é esse o valor que um trabalhador do Ticket Sales ganha. Meu roomate Dan dá aula de ski para crianças e ganha 11 dólares por hora, trabalhando 7 horas por dia. Além desse pagamento, ele ganha gorjeta dos pais de alguns de seus alunos no fim do dia. O total das gorjetas varia entre 5 e 70 dólares diários. Esses 70 dólares de gorjeta representa o que os trabalhadores do Ticket Sales conseguem juntar depois de três dias de trabalho.
__Lá pelas quatro horas da tarde, fui para a cafeteria comer alguma coisa. Lá estava o Dan, com o paycheck sobre a mesa, parecendo frustrado. Perguntei:
__-O que foi, Dan?
__-Olha esse paycheck! Terrível!
__Seu pagamento tinha sido mordido por uma porcentagem de impostos um pouco maior do que a minha. Porém, o que pesava mais naquela folha eram os descontos da cafeteria. Para não depender da cafeteria, onde um sanduíche de bacon com ovo custa 2.37 dólares, os estrangeiros vão para Bozeman sempre que podem, e então fazem compras no Wallmart. Voltam com sacolas carregadas e vivem o maior tempo possível com os enlatados comprados lá. Dan não gosta de ir para lá, pois seu carro consome muita gasolina. Digo-lhe que poderia ir de ônibus, já que o transporte de ida e volta é gratuito. Mas ele diz que é muito complicado trazer sacolas de lá no ônibus, e só vai se for de carro.
__-Merda! Ainda tenho que pôr gasolina no carro. Vou ficar sem nada!
__Dan vai a festas ou sai para beber várias noites na semana. Guardar dinheiro não é o seu forte. Quando está em casa durante a noite, ele fica me perguntando o que vamos fazer. Geralmente, quando ele me faz essa pergunta, estou lendo um livro.
__-Renan, o que vamos fazer?
__-Eu estou lendo, ué!
__-Eu odeio ler. Você deveria parar com isso, cara! É perda de tempo.
__Eu sei que essa frase dele soa um tanto forçada quando é escrita. Não é todo mundo que conhece pessoas que têm coragem de dizer isso sem o menor constrangimento. Parece até que esse diálogo foi tirado de um programa infantil de televisão, onde um menino mal tenta convencer um menino bom a seguir o caminho errado. Mas foi exatamente isso que ele disse.
__Na cidade de Big Sky, vendem-se livros até nos minimercados. Na verdade, os três minimercados da cidade têm sua estante de livros, sendo que um deles tem uma boa prateleira de livros usados sobre os mais variados temas. Mas Dan não é um representante dos consumidores desse produto. Certa vez, perguntei a ele:
__-Dan, você não vai fazer faculdade?
__-Não. Odeio estudar. Meu negócio é esquiar.

______Dan

__Saímos juntos da cafeteria e fomos a um hotel chamado Mountain Inn, a uns quatro minutos a pé dali. Ele queria checar seus e-mails e, nesse hotel, havia um computador de livre acesso para os hóspedes. Dan costumava usar esse computador uma ou duas vezes por semana. Embora ele não fosse hóspede, os trabalhadores do hotel não implicavam com ele.
__Esse hotel me pareceu bem mais luxuoso do que o Huntley, hotel do Big Sky Resort por onde eu sempre andava. A beleza e a classe daquele lugar me fizeram sentir um pouco de desconforto. Desde que chegara na cidade, desejava encontrar um segundo emprego para compensar o baixo pagamento do Ticket Sales. Pensei por um momento em tentar algo ali, mas desisti rapidamente da idéia. O resort, de propriedade do Boyne Resorts, estava disposto a contratar estrangeiros e lidar com os problemas que viessem da sua dificuldade com o Inglês. Mas este lugar, que não era propriedade do Boyne, parecia estar em outro patamar, e não me senti à vontade para tentar qualquer coisa por ali.
__Depois que o Dan usou o computador, ele telefonou para a sua família. Depois disso, o mau humor causado pelo pagamento se foi. Saímos do hotel e pegamos o ônibus para casa.
__Já no Golden Eagle, ele disse:
__-Hey, Renan! Hoje à noite, nós vamos comer.
__-Ué! Seu pagamento não tava mal?
__-Eu ganhei uma gorjeta hoje, e meus pais vão me mandar uma grana. Eu pago. Vamos comer.
__Pegamos seu carro e fomos a uma pequena lanchonete chamada Wrap Shack.

______Wrap Shack

__Lá, comemos algo parecido com a comida brasileira em termos de sabor, e somente de sabor. Era uma panqueca gigante que se come com a mão. O recheio era arroz, feijão, batata, verduras, tomate, frango e bacon.
__-Hey, Dan! De onde vem esse negócio?
__-Do México. Eles gostam de enrolar as comidas nesses negócios redondos.
__A panqueca era enorme.
__-Comida mexicana em tamanho americano, certo?
__-Exatamente.

________Wrap

quarta-feira, 28 de março de 2007

Personagens e seus apelidos

______________

__Logo que cheguei aqui, eu chamava todos os colegas brasileiros de “velhão”. O Miguel achava isso muito engraçado e começou a me chamar de velhão também. Com o tempo, toda a turma do Ticket Sales me reconheceu como Velhão. Diziam que o apelido combinava comigo por eu ter jeito de velho.
__Já que eu virei o velhão mor, não podia continuar chamando os outros de velhão. Por isso, comecei a chamar o Miguel de Doidão.
__Um camarada do Ticket Sales mas que não trabalha no Ticket Sales é o Marcelo, de Belo Horizonte. Ele também mora no Golden Eagle e trabalha com a Gisele, namorada do João, como Front Desk (balcão) do Huntley , o principal hotel do resort. Uma vez que eu já não podia chamar todo mundo de velhão, pois eu era o Velhão, e o Miguel já tinha seu novo apelido próprio, Doidão, era hora de dar um apelido para o Marcelo: Negão.
_________________Negão
__O João não precisa de apelido. Afinal, somos Velhão, Doidão, Negão e João. Tudo termina com ão. E não é porque a Karla é mulher que o apelido dela tem que escapar da regra: agora, ela é chamada de Karlão.
__Antes de vir para cá, eu achava que poderia ganhar um sotaque 100% americano no meu Inglês. Sonho meu. Dan tenta me ensinar até hoje a falar “doing” sem sotaque, e ainda está longe de ter sucesso. Pode-se ganhar a entonação americana no jeito de se falar, mas é provável que o sotaque acompanhe o intercambista por toda a vida. Caio também achava que poderia se passar por americano com o seu Inglês. Tentava essa proeza dizendo para os americanos que se chamava Jason, e que era de Minnesota. Ninguém engolia e ele não ficou conhecido como Jason. Uma americana disse que ele tinha cara de coiote, mas o apelido “Coiote” também não pegou. Ele acabou sem apelido. Quando quero falar com ele, apenas digo:
__-Ô, Caio velho!
__Certa noite, estávamos eu, Doidão e João conversando sobre o Ticket Sales. O João foi falar do César, e acabou chamando o peruano de “cenário”. No dia seguinte, fiz questão de não deixar o novo nome do César se perder. Chamei-o de cenário o dia inteiro, até que o apelido pegou. Ou melhor, quase pegou. A turma prefere chamá-lo de Cesário._______João, Velhão, Caio Velho, Doidão e Cesário.
__A turma do Ticket Sales trabalha junto com a turma do Guest Services. Não falo do pessoal que checa ingressos, mas uma turma que resolve os problemas dos clientes que compraram ingressos e, por algum motivo, ficaram insatisfeitos. Um dos Guest Services é o KC, mórmom nascido em Salt Lake City. Ele foi um dos únicos americanos a me pedir para ensinar Português. O que ele me pediu para ensinar, porém, foram apenas palavrões, xingamentos e palhaçadas. Ele já está apto a xingar uma pessoa em Português por um minuto, sem parar. Orgulhoso de todo seu vocabulário chulo, pediu que eu lhe filmasse. O resultado vocês podem ver nesse post: transmissão de cultura.
__KC já viajou por toda a América Central. Gosta muito de nós, brasileiros, e de todos os latinos que andam por aqui. Mas ele conta que não foi bem vindo em todos os lugares por onde passou em sua viagem para fora dos EUA. Para escapar da hostilidade, quando era perguntado sobre a nacionalidade, respondia que era canadense.
___________Velhão e KC



segunda-feira, 26 de março de 2007

Transmissão de cultura

__O post de hoje é um vídeo filmado no Ticket Sales.
__Falarei sobre o personagem principal do vídeo nos próximos posts.
__Caso queira ver o vídeo direto do YouTube, clique aqui.

domingo, 25 de março de 2007

Atrasos

__Estou escrevendo do trabalho, onde nao posso acentuar as palavras. Portanto... perdao.
__Esse post e so para me desculpar pela minha demora para escrever novos posts. A razao disso e a carga horaria, que esta altissima, e um probleminha novo: a internet nao anda funcionando por aqui. Assim, quando eu tenho um post pronto, nao consigo blogar.