sábado, 3 de março de 2007

Emprego provisório

__Os primeiros dias de trabalho no Ticket Sales foram calmos. Poucos clientes vinham às nossas janelas para comprar ingressos. Eu até ficara preocupado com a possibilidade de o resort não conseguir manter o emprego de todos nós, intercambistas. Mas já na segunda semana a coisa mudou bastante. As férias de Natal estavam acabando e o resort ficou lotado de estudantes que queriam aproveitar os últimos dias de folga para esquiar.
__Todos os ingressos que vendemos carregam códigos de barras. As pessoas usam esses ingressos para tomar um teleférico que leve ao ponto da montanha que elas preferirem. Empregados equipados com scanners guardam os teleféricos, checando o código de barras dos passes e determinando quem passa ou não.
__Na segunda-feira que marcou o começo da semana mais movimentada do resort até então, Jan, meu chefe, pediu que alguém de nós pegasse um scanner e fosse ajudar os Guest Services, os empregados que checam os códigos de barra. Eu me ofereci para fazer o serviço. Então ele disse:
__-Você precisa se agasalhar.
__Eu estava vestindo três calças, duas blusas de frio, uma jaqueta de couro, uma bota impermeável própria para neve e dois pares de meia, e ele me dizia que eu deveria me agasalhar. Por cima da jaqueta de couro, coloquei a jaqueta especial para frio do Guest Services.
__Peguei um scanner com meu chefe e fui para a fila de um dos teleféricos. Junto comigo trabalhava um rapaz que percebi ser brasileiro por causa do sotaque. Mesmo sabendo que éramos do mesmo país, fiquei falando com ele em Inglês. Depois de uns dez minutos trabalhando juntos, perguntei para ele, em Português:
__-Como é que você chama?
__-Você é brasileiro?
__-Sou.
__-Por quê não falou antes, seu bicha?
__Depois que um skier sobe a montanha pelo teleférico e desce esquiando, ele procura outro teleférico para descer uma nova parte da montanha. Muitos dos skiers gostam de usar o mesmo teleférico várias vezes e eu preciso checar seus ingressos em todas elas. Algumas pessoas ficam irritadas por serem checadas repetidamente para acessar o mesmo local. Mas a maioria é muito educada e agradece depois de ter o ingresso verificado. Muitos brincam com a situação. Há também os que esperam um vacilo do empregado para então passar direto, sem ser checado.
__O scanner tem o formato de um revólver. Eu me aproximei de um senhor com a "arma" na mão e disse:
__-Posso checar o senhor?
__-Só se você não me machucar.
__-Isso eu não posso garantir. Isso é uma arma.
__-Ai! Você me acertou!
__Quando eu checava uma senhora pela terceira ou quarta vez, ela me perguntou, com simpatia e bom humor:
__-Por quê é que você tem que me checar toda vez que eu passo aqui?
__-Esse é o meu trabalho. Eu sou pago para tomar o seu tempo.
__Nas três horas que trabalhei checando ingressos, uns três americanos me perguntaram de onde eu era e a razão da viagem, depois do que davam boas vindas ao seu país e se despediam com um sorriso largo no rosto. Eles realmente sentiam prazer em nos receber.
__Em menos de uma hora de trabalho eu já estava congelando, mesmo com todo o agasalho.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Curiosidade: tributo aos soldados americanos no Iraque.

__Dentro do maior hotel do resort, o Huntley, existe uma salinha para os housekeepers (camareiros) descansarem. Nesse lugar há duas mesas e algumas cadeiras, além de máquinas de refrigerantes e doces, um microondas e uma televisão de vinte e nove polegadas.
__Embora a sala seja dos housekeepers, empregados de todos os departamentos vão até lá para descansar. Eu e alguns colegas de trabalho estávamos lá, conversando, quando anunciaram na TV um programa especial que passaria à noite: tributo aos soldados americanos no Iraque.
__Eu não tenho TV no meu alojamento, então não pude assistir ao programa. Mas o que a propaganda mostrara era um palco de shows armado no Iraque para os soldados americanos, onde tocariam algumas bandas e uma mulher dançaria com os peitos de fora.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Atrasos

(Escrevo de um computador desconfigurado. Nao consigo acentuar as palavras).

__Peco desculpas pelos atrasos. O resort entupiu de hospedes e os empregados estao comecando a voltar para os seus paises. Por isso, encaro horas extras todos os dias. Hoje, estou fazendo 15 horas. Trabalho 11 ou 12 em media. Ja fechei ate 19.
__Seria mais facil blogar se a internet funcionasse no meu alojamento, o que so acontece por milagre.
__Acredito que sabado conseguirei postar.
__Peco perdao mais uma vez.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Correções

*_No post "Um americano pronto para a guerra" digo que o Dan me pediu para não contar para ninguém que ele tinha uma arma. Uma mente atenta percebeu a incoerência de eu ter prometido não contar sobre a arma e depois ter postado sobre o assunto. Aconteceu que o Dan mudou de idéia sobre o segredo e me autorizou a escrever a respeito da arma no blog. Eu havia me esquecido de comentar isso no post.

*__Alguns dos posts estão com duas datas. Isso aconteceu porque eu tentava deixar claro em que data o causo que eu conto ocorreu. Acho que não fui feliz nessa tentativa. Assim, a partir de agora, vou escrever as histórias sem deixar a data exata.

__Leia o post do dia clicando aqui.

Noite de natal

__Antes de sair do Brasil, participei de uma breve orientação psicológica, obrigatória para os intercambistas da minha agência. Uma psicóloga falava sobre os viajantes que entraram em tristeza profunda quando estavam nos EUA e passaram o primeiro Natal longe da família. Ela dizia que o pessoal entrava em crise quando ligava para casa na véspera e falava com os parentes, o que fazia a saudade aumentar e blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá...
__A realidade do Natal dos intercambistas por aqui é a seguinte: eles organizam festas onde o peru é substituído pela cerveja, as frutas são substituídas pela cerveja, a entrega dos presentes é substituída pela cerveja e as músicas de Natal são substituídas pelas músicas latinas em geral. O funk carioca dá o ritmo da celebração brasileira.
__Eu não estava com vontade de participar dessas “ceias”. Quando caiu a noite, saí do meu quarto (de onde já se podia ouvir a música alta) e fui andar pela rua.
__A maioria das casas estava enfeitada com luzes. Suas janelas eram bastante grandes, deixando quem passasse do lado de fora enxergar tudo o que havia do lado de dentro. Vi mulheres trabalhando em cozinhas grandes e equipadas. Vi também uma família de umas dez pessoas jantando em volta de uma mesa.
__Conforme eu andava, juntava neve com as mãos e fazia uma bola bem grande. Quando se espreme a neve com as mãos, ela vira um pedaço um tanto duro de gelo. Fiquei esfregando as mãos nela, até ela ficar bem lisa. Quando a rua onde eu caminhava terminou numa estrada, espatifei a bola de neve no chão e comecei a voltar.
__Todo o caminho que eu tinha feito até aqui era subida. Agora, voltando, enxergava um bom pedaço da cidade, que não é muito maior do que um bairro de cidade grande. As montanhas cobertas de neve podiam ser vistas nitidamente, pois a neve reflete com força a luz da lua e das estrelas. Fiquei apreciando a segurança que eu estava sentindo. A última vez que eu andara com tanta tranqüilidade pelas ruas à noite fora na madrugada do dia 1 de janeiro de 2003, em Campinas, depois de os fogos de artifício da virada do ano terem estourado. Os moradores do bairro lotaram a avenida onde eu morava, tornando o lugar seguro. Antes dessa vez, não me lembro quando foi que andei tranqüilo. Por não conseguir me lembrar disso é que sei que vou sentir saudades de Big Sky quando voltar ao Brasil.
__Não me parece ganância ou ambição desejar poder andar pelas ruas à noite. Mas, no Brasil, se você realmente quer isso, você precisa ser rico o suficiente para morar dentro de um condomínio. Mudar para uma cidade do interior já foi uma opção. Não é mais. A violência já infestou praticamente todos os cantos brasileiros.
__Procurei imprimir na memória a sensação de andar pelas ruas escuras de Big Sky. Realmente vale a pena viver longe disso? Vale a pena acreditar no Brasil? Não serei eu uma das vítimas da violência que conhecia pela televisão, mas que agora vejo no caminho da faculdade para casa?