sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Atualizações

__Alguns dos primeiros posts estão sem fotos. Sempre que posso, edito os posts antigos para colocar fotos das pessoas e lugares que descrevi.
__Fotos da Fernanda e da Karla podem ser vistas neste post antigo: clique aqui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

21 de dezembro - primeiro dia de trabalho

__Meu roomate decide que não iremos com seu carro ao trabalho todos os dias, pois sua caminhonete bebe gasolina demais. Sendo assim, eu e ele precisamos pegar o ônibus das 7:15 da manhã. Abaixo, a foto da super máquina do Dan:

__Fomos para a frente do Golden Eagle, onde uma concentração de latinos esperava pelo ônibus, sendo a única presença americana a do meu roomate, Dan. Ele fica andando pelo estacionamento e fazendo bolas de neve, para depois jogá-las em mim.
__Entramos no ônibus. Durante os trinta minutos de viagem, escutei pessoas conversando em Português. Não se pode observar a paisagem, pois o dia só fica claro quando são quase 8 horas da manhã. Mesmo que o dia estivesse claro, dificilmente veríamos alguma coisa, pois todas as janelas estavam cobertas de terra.
__Hoje seria meu primeiro dia de treinamento no Ticket Sales, e da Karla também. Nosso chefe é um americano chamado Jan. Ele não diz uma palavra sem sorrir. Mostra profunda concentração no que o interlocutor diz durante uma conversa. Todos os colegas que conheceram essa figura têm simpatia imediata por ela. Pessoa agradabilíssima que esbanja carisma e respeito. É motivo de orgulho trabalhar com ele.


__Nosso treinamento seria apenas assistir aos colegas mais experientes vendendo os ingressos. Trabalham uns seis ao mesmo tempo. O local de trabalho pode ser visto nesta foto que postei esses dias: clique aqui.
__Um dos colegas se chama João. Ele é de Minas Gerais e tem 21 anos. É um estudante de economia na universidade federal de lá. Gosta de música country e de rock clássico. Nunca gasta dinheiro comendo nas lanchonetes do resort. Faz rancho em Bozeman de tempos em tempos e é da comida que ele compra lá que ele vive. Na hora de gastar com livros, ele não tem dó. Já comprou vinte desde que chegou nos EUA. Nos momentos de inspiração, escreve poesias. Gosta muito de urbanismo. Pretende fazer mestrado nos EUA, e pode ser que sua tese trate de favelas. É um defensor do socialismo. Tem o hábito de visitar centros budistas para meditar.
__Algumas de suas poesias estarão nesse website em breve: clique aqui.

__Um outro colega também é brasileiro e se chama Miguel. Mora no Rio de Janeiro e estuda economia na PUC. Quando o assunto é política, não se considera nem de esquerda, nem de direita. É da opinião de que o Brasil tem um bom sistema político, e que a razão para o nosso país ser o festival de corrupção que é hoje é a falta de interesse popular pelas questões de interesse coletivo. Não gosta de dar nome aos gêneros musicais. Não gosta de classificar as religiões e suas subdivisões. Não gosta de dar nome às escolas de pensamento. Na verdade, ele não gosta de dar nome às coisas. Só quando esse carioca pronuncia a letra “s” é que se percebe que ele é carioca, porque ele quase não usa as expressões e as gírias do seu Estado, nem tem o seu sotaque. Gosta das mesmas músicas country que o João, mas também gosta de Angra, banda que não agrada João nem um pouco.
__Ele é o autor da última proposta de emenda constitucional em tramitação no Congresso Nacional: clique aqui para lê-la.

__O último dos nossos colegas brasileiros é o Caio, que também é de Porto Alegre e participou das mesmas feiras de emprego que eu e a Fernanda participamos quando estávamos no Brasil. Assim como eu e ela, estuda na UFRGS. Seu curso é Administração. É apaixonado pelo Rio Grande do Sul. Não trouxe cuia, bomba e erva de chimarrão porque temeu que não passassem pela imigração. Mas, assim que chegou nos EUA, já combinou com seu pai um jeito de receber o “kit gaudério” o quanto antes. Tenta enganar os clientes, dizendo que se chama Jason e que é de Minnesota.

__Outro dos nossos colegas se chama César, e é do Peru. Estuda engenharia naval. Vai ao Brasil para participar de uma conferência em agosto. Comunica-se em Inglês sem qualquer dificuldade, e dá uma boa arranhada no Português. Presta atenção nas conversas em Português entre os brasileiros e sempre pergunta o significado das nossas expressões. Pessoa sorridente, educada e brincalhona. Outro cara muito fácil de se gostar.
__Por fim, temos o colega Arief, da Indonésia. No Inglês, tem o vocabulário mais rico entre nós, mas tem um sotaque bastante pesado. Não me lembro se são três ou cinco vezes por dia que ele se volta para Meca e reza. Tem uma namorada que mora hoje em Cingapura. Por ser o mais quieto e o mais dedicado à religião, recebeu o apelido carinhoso de “traficante”. Suas fotos podem ser encontradas no link abaixo:

www.friendster.com/arieftop.

__Depois de observarmos os colegas trabalhando, eu e a Karla dividimos um computador e atendemos alguns clientes. O serviço do vendedor de ingressos é muito simples. Não há nem o trabalho de lidar com o dinheiro, pois a maioria dos clientes paga com cartão de crédito.
__De manhã, viera para o trabalho ouvindo Português. No trabalho, falei Português o dia inteiro. Agora, no ônibus para casa, ouvia os brasileiros falando Português novamente. Percebi que é perfeitamente possível viver aqui nos EUA sem aperfeiçoar nem minimamente o Inglês. Há um Brasil nessa cidade. Você pode se isolar dentro desse Brasil e desperdiçar a chance de interação com um povo diferente.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Condomínio

__O sujeito está sentado em sua poltrona, ao lado da lareira que nunca viu fogo. A lareira foi crucial na escolha entre as duas casas que estavam à venda nesse condomínio. Mas, em três anos morando nesse lugar, nunca houve um frio que justificasse o seu uso.
__Ele se esforça para se concentrar no assunto tratado no programa de entrevistas que passa na televisão, mas o sono não deixa. Mal pode manter um olho aberto. Desliga o aparelho e desce as escadas para tomar uma água na sua cozinha. Depois, sai pela porta da sala e fica na frente da sua casa, apreciando o ar da noite, que lhe faz lembrar do campo.
__A dez metros da frente da sua casa, ele pode ver o muro que delimita o território do condomínio. Ele gostaria de não ter precisado trabalhar tanto tempo para poder morar do lado de dentro desse muro, e não do lado de fora.
__Entra novamente na sua casa e vai para o quarto. Hoje, ele consegue dormir com muita paz, diferentemente do que acontecia antes, quando ele estava do lado de fora do muro e todas as janelas e portas de sua antiga casa alugada eram equipadas com sensores preparados para disparar um alarme.
__Acorda sem apetite para tomar o café da manhã. Toma seu banho, veste-se e vai pegar o carro, que não está dentro da garagem, onde ele sempre costumava deixar o veículo quando morava do lado de fora. O carro está estacionado ao lado do seu jardim. Sua esposa molha com uma mangueira a grama que cerca a casa, ao mesmo tempo que conversa com o vizinho, que também molha seu jardim. Quando moravam do lado de fora, ela não tinha coragem de cuidar do seu jardim logo cedo como gostaria de fazer. A antiga casa dava de frente para uma avenida pouco movimentada, onde ocorreram tentativas de seqüestros contra dois de seus vizinhos quando esses saíam para trabalhar.
__Ele dirige seu carro pelas ruazinhas sem buracos e contornadas pelos jardins das casas dos vizinhos. A maioria dessas casas tem um telhado triangular bastante inclinado, como o das casas de países onde telhados assim são necessários para que a neve não se acumule. Assim como a lareira, é charmoso e não serve para nada no Brasil.
__Chega a hora de passar com seu carro pelo portão, que é a única grade do condomínio e que passa a segurança de que os moradores dali precisam para não colocarem grades também ao redor de suas casas e nas suas portas e janelas. Do lado do portão há uma guarita, onde fica um homem que segura uma arma, do tamanho de um porrete, com as duas mãos. Esse homem pode dar alguma segurança aos que estão do lado de dentro, mas já não pode oferecer nada ao sujeito que está saindo dali no seu carro.
__Ele paga um preço bem alto para estar do lado de dentro, seguro e longe das imagens que vê depois de passar pelo portão e que lhe entristecem: pessoas magras e sujas pedindo dinheiro nas sinaleiras, prédios há décadas sem pintura, casas amontoadas, ruas esburacadas, mulheres tensas segurando suas bolsas com as duas mãos enquanto caminham, homens com a mão no bolso de trás para proteger a carteira, famílias vivendo embaixo da ponte...
__Depois de vinte minutos dirigindo, deixa seu carro num estacionamento e sai andando pelas calçadas do centro da cidade. As pessoas não se cumprimentam. Elas se chocam e não pedem desculpas. As mulheres que passam ouvem grosserias dos vendedores que expõem suas mercadorias no chão. Um velhinho descreve para o policial o jovem que acabou de lhe assaltar.
__Deixar o simulacro para encarar uma face dura do Brasil lhe deixa um pouco desanimado para trabalhar. Ele sabe que o que ele vê no caminho entre o condomínio e o trabalho no centro nem é o que existe de mais triste no Brasil. Mas ele procura não pensar nisso agora. Se parar para pensar, não recupera a energia de que precisa para encarar o serviço. Como ele gostaria que a empresa onde trabalha também ficasse do lado de dentro do muro. Do lado de dentro, ele pode andar sem nada a temer. Ele recebe cumprimentos das pessoas que passam e sente que não vai ser desrespeitado pelos que cruzarem seu caminho.
__O lado de dentro é um território muito menor do que ele gostaria que fosse. Quando se está nele, é possível avistar de qualquer lugar o muro que separa aquela ilha de paz do mundo real. Ele gostaria de estar muito mais longe do Brasil do que ele está. Quando está perto do portão, ele até pode ver as pessoas passando do lado de fora e olhando com curiosidade as casas e as pessoas que ali moram. Não sabe quais dessas pessoas que observam seu lar são homens de bem que dão o sangue trabalhando, como ele fez no passado, ou se são seqüestradores observando sua rotina e planejando um ataque.
__No fim do dia, ao passar novamente pelo portão do condomínio e acessar a área segura, ele pensa:
__-Como seria esse lugar se eu pudesse empurrar o muro até onde eu não pudesse enxergá-lo, mesmo que andasse em sua direção por horas e horas? Como seria se as pessoas do lado de fora ganhassem o suficiente para morar do lado de dentro? E se pudéssemos desmontar os becos e expulsar os bandidos que existem do lado de fora? Como seria o lado de dentro se ele fosse maior do que o lado de fora?

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__Eu nunca morei do lado de dentro. Mas sei como seria a vida que aquele sujeito imaginava: seria como a vida é em Big Sky.
__Aqui, você sobe no ponto mais alto da cidade e observa cada um dos bairros, sem ser capaz de encontrar um que seja menos iluminado, mais escondido, onde as pessoas iriam para comprar e vender o que elas não comprariam nem venderiam à luz do dia, à vista das pessoas com quem elas têm que conviver todos os dias. Não há lugar mais seguro ou mais perigoso para se morar. A cidade é uma só.
__As casas são afastadas umas das outras. Têm espaço para esbanjarem sua beleza. Suas portas ficam destrancadas. As famílias se aquecem em frente à lareira, que protege os moradores da casa do frio de quarenta graus negativos. As pessoas que se cruzam se olham nos olhos e se cumprimentam. Os motoristas passam oferecendo carona aos desconhecidos que andam a pé.
__Para o brasileiro que tem toda uma família a perder para a violência banal do seu país, viver e andar por Big Sky é como experimentar o sonho que não acaba, o prato que não termina, a rosa que não morre. Você caminha e caminha, e não encontra algo que te assuste ou que te entristeça. Não se vê uma paisagem a ser recuperada, nem bairros a serem replanejados, nem ruas a serem restauradas.
__Big Sky tem as vantagens e as belezas do condomínio fechado, mas é um território aberto. Aqui, as pessoas podem gozar durante a vida toda daquilo que milhões de brasileiros nem sabem o que é: dignidade.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Atrasando o post


__Hoje, segunda-feira, não consegui postar uma história aqui no blog. Trabalhei o dia inteiro e ainda fui chamado para substituir um colega da noite.
__Desculpem pelo atraso. Estarei de volta na terça.


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