sábado, 10 de fevereiro de 2007

Incorporando o Inglês

__Essa é a foto do temível registro do chuveiro do Golden Eagle, que, ao invés de liberar a água quando é girado no sentido anti-horário, libera a água quando é puxado.
__Depois que o registro é aberto, a água vem muito quente. Gira-se para a esquerda para água mais quente e para a direita para água mais fria.
__Tomei meu banho quente. Pela força do hábito, ao invés de pressionar o registro para que a água parasse de sair, segui o impulso formado ao longo de vinte anos de fechamento normal de registro de chuveiro: girei para a direita e fui coberto por uma água desesperadoramente gelada.
__Havia uma infinidade de palavrões brasileiros que eu poderia ter gritado diante da surpresa nada agradável da água gelada caindo em mim. Mas a palavra que me veio era em Inglês. E veio de lá de dentro, para sair de uma vez, sem risco de ser reprimida:
__-Fuck!
__Passado o pavor da água gelada, fiquei muito feliz por um palavrão em Inglês ter saído tão naturalmente naquela situação. Era um bom indício de que eu estava fazendo progresso na língua.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Festa no ônibus

__O ônibus que vai para o meu alojamento apareceu. Saímos do ônibus em que estávamos para nos aquecer e fomos para o outro.
__No novo ônibus, havia quatro americanos sentados nos bancos da frente e mais quatro sentados mais para o meio do corredor. Percebi que eram americanos pelo sotaque. Estavam todos conversando.
__Uma turma de brasileiros entrou no ônibus. Agora ele estava quase lotado. Ainda faltavam uns cinco minutos para sairmos dali. Os brasileiros começaram a cantar:
__-Nessa bumba eu não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás...
__O mais novo dos americanos, que aparentava uns vinte e cinco ou vinte e seis anos, perguntou para o colega que estava sentado ao seu lado:
__-Que língua é essa que eles estão falando?
__O outro americano respondeu.
__-É Espanhol.
__-Não, acho que não. Isso não parece Espanhol.
__Através da televisão, nós, brasileiros, acabamos conhecendo muito sobre os costumes, o humor e a cultura dos americanos. Embora estivesse vivendo entre eles pela primeira vez, era como se eu já tivesse convivido com eles há algum tempo. Por isso, era estranho saber que eles não podem reconhecer o Português. Observar aquele diálogo era como perceber que a televisão é uma janela pela qual nós podemos ver os americanos, mas os americanos não podem nos ver.
__Eles estavam prestando muita atenção no que os brasileiros cantavam. Eles se olhavam e tinham uma expressão de curiosidade nos seus rostos. Estavam começando a rir.
__No banco de trás do meu, havia um casal americano. O marido e a esposa pareciam ter uns quarenta e cinco anos. Eles cochichavam, também rindo baixinho. A mulher perguntou ao marido:
__-Mas será que isso não é Espanhol mesmo? De onde eles são?
__Virei-me para falar com eles:
__-Isso é português. Eles são do Brasil.
__A americana me olhou e balançou a cabeça para cima e para baixo, num gesto de confirmação. Mas sua expressão era a de quem não estava acreditando no que eu dizia. Acho que ela pensou que eu tinha me enganado.
__Os brasileiros cantavam cada vez mais alto. Faziam piadinhas e gargalhavam. Os americanos riam cada vez mais. Não das piadinhas, que vinham em Português, mas de nós e do nosso jeito. Estava claro que eles estavam gostado. Eu queria muito saber o que eles estavam pensando daquela festa. Perguntei para o casal:
__-O que vocês acham de tudo isso? Dessa música, dessa barulheira, dessa farra toda?
__O marido falou comigo dessa vez:
__-Eles estão se divertindo. Adoro gente que se diverte. Estou gostando.
__A esposa voltou a falar comigo:
__-E você? De onde é?
__-Do Brasil.
__Eles caíram na risada. Entenderam que a minha pegadinha era descobrir o que eles pensavam dos brasileiros antes de saberem que eu era brasileiro.
__Logo depois que eu disse que era brasileiro, um senhor americano sentado do meu lado esquerdo, que devia ter uns cinqüenta anos, usava bigode, vestia uma camisa xadrez, boné e tinha a cabeça raspada, perguntou:
__-Ah! Você é do Brasil?
__Sim, eu sou.
__-Você conhece São Paulo?
__-Sim. Estive lá muitas vezes.
__-Minha família mora lá.
__Lembrando: Big Sky tem 1500 habitantes.
__-É mesmo? Sua família é americana?
__-Sim.
__-E como é a vida deles lá?
__Ele fez cara de quem tem notícia ruim pra dar.
__-Eles não falam muito bem o Português, e eles dizem que lá é muito perigoso.
__Ele estava constrangido em me dizer aquilo. Estava tomando cuidado para não me ofender. Mas ele estava apenas dizendo a verdade. Talvez esperasse que eu me magoasse com aquele comentário. Tentei mostrar que aceitava a verdade de que o Brasil é um lugar um tanto perigoso para se viver:
__-É verdade. Infelizmente, temos umas das mais altas taxas de homicídio por habitante do mundo.
__Um outro senhor americano, que sentava à minha frente, e que era bastante parecido fisicamente com o senhor com quem eu estava conversando, me perguntou:
__-Você é do Brasil?
__-Sim.
__-De que parte do Brasil?
__-Da parte sul.
__-Você conhece Porto Alegre?
__Tive que rir.
__-Eu moro em Porto Alegre.
__-Uma garota de Porto Alegre passou uns meses com a minha família aqui nos EUA no ano passado. Ela fazia um programa chamado High School.
__-Ual! Bacana! Nós também recebemos participantes americanos de High School no Brasil.
__-É mesmo?
__-Sim.
__-Quantos meses você vai passar aqui?
__-Só quatro.
__-Você vai aprender a esquiar?
__-Ainda não sei.
__-Ok.
__Mais para o fundo do ônibus, uma brasileira tomou a palavra. Os americanos estavam virados para ela, prestando atenção no que ela dizia. Ela explicava em Inglês, falando bem alto:
__-O Brasil não fala Espanhol. Somos o país latino-americano que fala Português. Isso porque Portugal colonizou o Brasil, enquanto a Espanha colonizou o resto. Agora que a gente cantou uma música brasileira, por que vocês não cantam uma música americana para nós?
__Os americanos ficaram se olhando. Agora, a bola estava com eles. A brasileira tentou dar um empurrãozinho:
__-Cantem uma música de natal.
__Alguns americanos começaram a cantar:
__-We wish you a merry Christmas, we wish you a merry Christmas...
__Essa música é curtinha, mas foi cantada umas cinco vezes. Nas últimas, quase todos no ônibus cantaram. Depois que pararam de cantar, a americana atrás de mim soltou a criança (ou a brasileira) que havia dentro dela, começando a cantar outra música de natal. Mas o seu marido colocou sua mão na mão dela e disse:
__-No, no, no. Shiu.
__Depois, um brasileiro começou a cantar de novo, e bem alto:
__-Se essa porra não virar, olê olê olá...
__Olhei para o meu colega colombiano, com quem estava conversando antes de o ônibus chegar, e falei:
__-É... esse é o Brasil!
__O colombiano ria. Ele estava achando toda aquela farra muito engraçada. A risada dele era a de um pai que conhece bem as gracinhas de um filho. Ele já estava familiarizado com aquele povo, já conhecia seu comportamento. Assim como eu, estava observando a reação dos americanos ao jeito brasileiro.
__-É... é a alegria.
__Mais um dia terminava, e eu ainda não tinha noção do que era o famoso preconceito contra os latinos.

Bate-papo com um colega colombiano

__Os ônibus descem a montanha de hora em hora. Não me lembro se saí do jantar com a intenção de pegar o ônibus das 7:10 ou das 8:10 da noite. Mas, quando saí do Huntley, o hotel onde o jantar ocorria, pude ver o ônibus indo embora. Teria que esperar uma hora pelo próximo.
__Entrei no Mountain Mall, o pequeno shopping do resort, para ficar aquecido. Matei uns trinta minutos lá, sentado, relembrando os lugares por onde eu tinha passado desde que chegara nos EUA. Depois, dei uma volta pela área e fui para a parada do ônibus com uns vinte minutos de antecedência, para não ter perigo de perdê-lo de novo. Ali, encontrei um rapaz que parecia ser uns dois anos mais velho do que eu. Perguntei em Inglês:
__-Há quanto tempo você está esperando aí?
__-Uns 15 minutos.
__Depois, ele perguntou em Espanhol:
__-Você é do Brasil?
__Respondi em Português:
__-Sim. Como você sabe?
__-Vi você conversando em Português com uns brasileiros hoje.
__Eu não entendo nada de Espanhol, mas ele falava de um jeito que eu achava estranhamente fácil de entender.
__-E você, de onde é?
__-Sou da Colômbia. Você gosta de futebol?
__-Haha... na verdade, não. Não vejo futebol nem em época de copa.
__-É raro um brasileiro não gostar de futebol.
__-É verdade.
__Ele não estava falando Espanhol coisa nenhuma. Estava era falando Portunhol.
__Chegou um ônibus. Falei com o motorista, e ele me disse que aquele não era o ônibus que eu estava esperando, mas ele ficaria ali algum tempo e, enquanto isso, nós poderíamos ficar dentro do ônibus dele para não passarmos frio.
__Entramos na máquina e eu voltei a falar com o colombiano, ainda em Português:
__-Nossos países têm um problema em comum: a violência.
__-É uma lástima. Você conhece São Paulo?
__-Sim.
__-Quantos habitantes tem lá?
__-Uns quinze milhões.
__-Nossa! Bogotá tem dois milhões!
__O Portunhol dele estava mais para Português do que para Espanhol.
__-Você fala bem o Português, hein?
__Ele sorriu. Parecia estar recebendo um elogio por um trabalho bem feito.
__-Eu apredi a falar Português assistindo televisão.
__-Como?
__-É... qual o nome daquele canal de televisão que tem um símbolo assim?
__Ele fez um gesto com a mão, como se estivesse desenhando uma bola.
__-Globo?
__-Isso. Assisto futebol lá e aprendo a falar Português assim.
__Ele sabia do gosto do brasileiro por futebol, dava audiência a um canal brasileiro de televisão e falava um bom Português. Mas eu não sabia o que comentar sobre a Colômbia agora. Até que me lembrei de um assunto que poderia nos ser comum.
__-Na Colômbia, vocês assistem “Chavo del Ocho”?
__Eu estava perguntando sobre o programa do Chavez.
__Primeiro, ele deu um sorriso. Depois, caiu na gargalhada.
__-Chavo del Ocho? Claro!
__Há uns cinco anos eu pratico Inglês na internet conversando com americanos. Eles nunca se surpreendem quando conhecemos seus programas de televisão, suas músicas, seus políticos, seus livros e a história do seu país. Nem deveriam. Sua cultura está espalhada por todo canto. Mas não se pode dizer o mesmo da Colômbia. E aquele colombiano estava muito feliz em saber que eu conhecia um dos programas de televisão que ele assistia no seu país, e que nem era colombiano.
__Como eu gostaria de saber mais sobre o seu país nesse momento. Assim, eu poderia tornar a conversa mais agradável. Mas eu só sabia sobre as FARCs, sobre os seqüestros, sobre o Fernandinho Beiramar, sobre a cocaína... nunca me preocupei em aprender nada de bom sobre esse lugar.
__Não estava surpreso por saber pouco sobre o país dele. Eu já sabia que, quando viesse para cá, encontraria pessoas de países sobre os quais eu só conheceria os pontos negativos. E só saber dos pontos negativos do país de um estrangeiro que conhecemos é um bom motivo para não ficar ofendido quando um estrangeiro só souber sobre os problemas do nosso país.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Jantar para os empregados - 20 de dezembro de 2007

__O Big Sky ofereceu um jantar para os seus empregados no dia 20 de dezembro, um dia depois da minha chegada em Big Sky. Chegara nos EUA dia 18 e já estava começando a sentir falta da comida brasileira. Comida de verdade sai cara por aqui. Nós, intercambistas, temos que nos contentar com hamburger, batata frita e pão com salsicha (os americanos chamam isso de cachorro-quente). Esse jantar era um consolo para os que ainda não estavam acostumados a esse cardápio, e também para os que já estavam "acostumados demais".
__No salão onde o jantar se passou havia uma concentração de brasileiros, peruanos, chilenos e colombianos. A comida estava deliciosa. É uma pena que eu não saiba o nome de nenhuma das carnes, massas, saladas, molhos e cremes que comi.
__O salão estava preparado para um jantar chique. Todas as mesas estavam cobertas com toalhas brancas impecavelmente limpas e adornadas com flores. Os guardanapos também eram de pano. Os garçons recolhiam nossos pratos assim que terminávamos. Nada ficava sujo por muito tempo.
__Muitos dos intercambistas estão familiarizados com histórias de descaso e preconceito contra trabalhadores estrangeiros nos EUA. Big Sky não é um bom lugar para se conhecer essa face do comportamento dos americanos. Aqui, os trabalhadores de fora são recebidos com um belo de um jantar. A temporada de trabalho começa com os servidores sendo servidos. O resort estava nos passando a mensagem de que seríamos respeitados e bem tratados durante nossa estadia.
__Diante dessa mensagem de boas vindas, que mensagem nós, trabalhadores estrangeiros, deveríamos tentar passar ao nosso empregador para que ele tivesse uma boa visão dos nossos países? E de que forma?
__Usei meu tempo mais para observar do que para apreciar o jantar, e percebi que boa parte dos trabalhadores enchia o prato até não caber mais nada. Dessa montanha de comida, não se comia nem um terço. Vi alguns levando potes e guardando muita comida dentro para levar para casa. Que mensagem esses trabalhadores estavam passando em troca da recepção respeitosa que estavam tendo?
__Eu diria que a mensagem que estávamos devolvendo era: você, empregador, pode nos respeitar. Mas não espere tanto respeito assim de nós.

Primeiro dia na montanha - 20 de dezembro de 2007

__Todos os dias, às 7:10, um ônibus passa na frente do Golden Eagle e pega os empregados que trabalham mais cedo no resort. A viagem até a montanha leva 40 minutos.
__Acontece que o meu roomate tem a caminhonete. Pego carona com ele às 7:45 para chegar 8:00 no resort. Assim, posso dormir meia hora a mais do que poderia se fosse pegar o ônibus. Fazer o quê?
__Chegamos no resort às 8. Aproveitei as duas horas livres para conhecer a área. Sem querer, entrei numa área de construção e levei uma mijada de um trabalhador por estar em local proibido.
__Pouco antes de a orientação começar, encontrei a Fernanda e a Karla (agora com K porque ela não se importou de eu publicar a história do seu tombo, mas quer que, no mínimo, eu escreva seu nome corretamente) na cafeteria. Abaixo, a foto do café da manhã mais digno que a Fernanda conseguiu comprar, que dá uma idéia do que teremos que comer durante os quatro meses que passaremos aqui.


__O que seria uma orientação não foi mais do que 30 minutos de preenchimento de formulários. Um dos papéis mais importantes foi o que nos garante o reembolso de todos os impostos pagos durante a estadia nos EUA. Depois, eu e a Karla fomos levados ao Ticket Sales, local onde os ingressos para se esquiar são vendidos. Nós dois trabalharíamos lá.
__Apenas conhecemos o local e observamos os futuros colegas trabalhando. Havia três brasileiros. Um deles eu já conhecia de Porto Alegre desde a feira de empregos do Foxwoods. Também havia um rapaz do Peru e um da Indonésia.

Atraso

__Esse post é só pra me desculpar por ter passado um dia sem escrever nada. Às vezes, surgem oportunidades de fazer coisas bacanas que eu não posso perder. Ontem, por exemplo, fui pescar.
__Escrevo um post ainda hoje, voltando à ordem cronológica.
__Abaixo, uma foto do Dan pescando.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Um americano pronto para a guerra

__Resolvi que queria falar de política. Eu não tinha vocabulário para articular um assunto e chegar ao ponto principal começando pelas beiradas. Desci da minha cama e sentei no chão. Ele estava sentado na sua cama, comendo um sanduíche de manteiga de amendoim com geléia de uva.
__-Você gosta do Bush?
__Ele ficou pensando e mastigando.
__-Bem... eu acho que ele vai ser o nosso último bom presidente.
__-É mesmo?
__-Sim. Agora, a mulher do Clinton quer se candidatar. Ela quer tirar todas as armas de todos os cidadãos. Isso é impossível. Pra quê? Não tem cabimento. Os democratas acham tudo lindo, que é possível fazer um mundo perfeito. Nunca existirá um mundo perfeito.
__Ele se levantou da cama e mexeu na sua mochila.
__-Renan, vou te mostrar uma coisa, mas você tem que prometer que não conta pra ninguém.
__Ele tinha acabado de falar em armas. Só podia ser uma arma. Não me senti confortável em ter um companheiro de quarto armado. Mas ele tinha uma arma. Eu poderia vê-la ou não.
__Já que eu tinha conhecimento de que ele estava armado, achei prudente saber com o que ele estava armado.
__-Eu prometo.
__Ele me mostrou o que estava escondendo. Para mim, que não entendo nada de armas, aquilo era um 38 gigante.
__-Magnum 357. Você já viu uma dessas?
__-Não. Só na TV.
__Ele estendeu a arma para mim.
__-Pega.
__Minha primeira opinião sobre ele estava errada. Ele não era chato nem imaturo. Era uma companhia agradabilíssima. Estava provado que eu não estava apto a fazer um bom julgamento inicial de um americano que conhecesse pessoalmente. Como eu havia errado quando achara que ele era um chato, também poderia estar errando novamente ao pensar que ele era um cara legal. E, agora, ele estava me estendendo uma arma. Por que é que ele tinha esse revólver? E por que é que ele queria que eu segurasse? O que ele pretendia fazer com aquilo? E se ele matasse alguém durante a temporada? O que significaria as minhas digitais naquilo quando estivessem procurando suspeitos?
__-Melhor não.
__-Por quê? Não gosta de armas?
__-Não.
__-Aconteceu alguma coisa?
__-Sim. Tive uma apontada para mim uma vez.
__-Putz! Não quero nem imaginar isso.
__Ele guardou a arma e começou a tirar várias coisas de dentro da mochila. Tirou duas balas que eram do tamanho de um dedo indicador.
__-Essas aqui são foda. Uma bala dessa na cabeça de um alce é o suficiente pra acabar com o bicho. Fode mesmo.
__Depois, tirou uma caixa. Dentro dela, havia balas de revólver com um furo na ponta. Ele perguntou:
__-Você sabe pra que serve esse furo na ponta?
__-Sim. É pra bala abrir quando entrar no corpo e fazer um estrago maior.
__-Hum, então você entende de armas?
__-Um amigo de um conhecido meu morreu com uma bala dessas.
__Ele fez uma cara de assustado.
__-Sério? Como aconteceu?
__-Um de seus colegas tinha acabado de comprar uma arma. Ao mostrar a arma para ele, colocou a arma na sua barriga e disse: imagina só se eu apertasse o gatilho assim? Ele apertou o gatilho, e a arma estava carregada com uma bala dessas.
__Ele gritou:
__-O quê? Matou o próprio amigo?
__-Sim. Não se sabe se foi sem querer ou não.
__A história era verdadeira, e achei que seria bom contá-la, para que ele pensasse antes de fazer qualquer brincadeirinha com o seu revólver.
__Perguntei a razão de ele ter aquela bala do tamanho de um indicador.
__-Ela é para a arma que eu tenho dentro da caminhonete.
__-Que arma é?
__-Uma sniper russa.
__Continuou a tirar coisas de dentro da mochila. Tirou um saco de papel, do tamanho de um saco de pó de café.
__-Sabe o que é isso?
__-Não.
__-É pólvora.
__Revólver, balas que se abrem dentro do corpo, sniper, pólvora...
__-Por que você precisa de pólvora?
__-Você gosta de gatos?
__-Não muito.
__-Ótimo! Eu também não. Quando eu estou na Pensilvânia, eu faço umas bombas e jogo neles. Só por diversão.
__-E por que você trouxe todo esse armamento pra cá? Vai pra guerra?
__-Você nunca sabe.
__Seria ele do tipo que gosta de reagir a assaltos?
__-Nunca sabe o quê? Se vão tentar te roubar?
__Ele ficou pensando.
__-Não bem isso. Assim... você nunca sabe. É sempre bom ter. Você pode encontrar um veado ou um alce em qualquer lugar. A carne é muito boa.
__Depois, ele me mostrou seu equipamento de pesca.
__Voltei para minha cama e continuei escrevendo. E ele comeu mais um sanduíche de manteiga de amendoim.

Dan mudou de idéia sobre manter a arma em segredo. Publiquei esse post com a autorização ele.