sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Meu roomate, Dan


Foto do Dan, meu roomate.

__O quarto tinha um beliche. Eu ficaria na cama de cima. Ele já estava lá há algumas semanas.
__-Qual o seu nome?
__-Renan.
__-Como?
__Os americanos têm muita dificuldade para dizer Renan. Por isso, quando eles perguntam, eu digo meu nome do jeito que eles pronunciariam ao lê-lo em algum lugar.
__-E você é o David, certo?
__-Não. Sou o Daniel. David é meu segundo nome. Você pode me chamar de Dan.
__-Ok, Dan. Prazer.
__Ele se jogou na cama.
__-Eu te perguntei se você vai ficar em definitivo porque, na semana passada, entraram uns estrangeiros aqui no meio da noite enquanto eu estava dormindo. Eu perguntei: o que é que vocês estão fazendo aqui? Eles responderam que eram trabalhadores do resort e que iriam passar somente aquela noite neste quarto.
__Agora ele estava todo solto e risonho. A primeira impressão que tive dele estava equivocada. Ele não era nada chato. Talvez tenha parecido ser chato por estar tão contrariado ao me ver entrar e ver que ia ter que dividir o quarto com um estrangeiro cuja cultura ele desconhecia. Mas essa desconfiança já não estava mais evidente.
__-De onde você é?
__-Brasil.
__-Que parte?
__-Bem... eu viajo bastante. Hoje, moro no sul. E você?
__-Interior da Pensilvânia. Eu sou um caipira.
__Ele já estava completamente à vontade. Apenas cinco minutos depois de eu não ter simpatizado com ele, ele já me parecia ser outra pessoa. Parecia ser alguém divertido.
__-Dan... nós temos comida aqui?
__-Não.
__-Tem algum mercado aqui perto?
__-Tem um. É um pouco longe. Temos que ir de carro. Vamos lá?
__-Claro!
__-Ei! Antes, coma isso aqui. Você não vai ficar gripado enquanto comer isso todos os dias.
__Ele me deu uma cápsula de vitamina C. Não era de se dissolver na água. Era de se comer como bala.
__Descemos as escadas e ele me levou para uma caminhote azul, bem velha.
__-Essa caminhonete é a minha garota. Eu amo esse carro.
__Ligou o carro e pegou a rua. O motor não estava muito bem. Dava para perceber que o carro sofria pra sair do lugar.
__-Você tem carro no Brasil?
__-Não.
__-Por quê?
__-Sou um estudante.
__-Estudantes não têm carros no Brasil?
__-Alguns têm. Outros não. A maioria dos meus amigos não tem.
__-Como é que vocês se transportam?
__-Ônibus.
__-É de graça?
__-Não.
__-Não é melhor ter um carro?
__-Depende. Ter um carro custa caro. A gasolina é cara, o imposto é alto, a manutenção é alta, e o salário é baixo. Além disso, é um risco. Roubo de carro é muito comum no Brasil.
__-Os pobres não têm carro?
__-Alguns. Boa parte, não.
__-Se eu tivesse esse carro no Brasil, eu seria rico?
__-Quantos anos você tem?
__-Vinte e dois.
__-E o carro é seu mesmo? Você que conseguiu?
__-Sim.
__-Bem, você não seria exatamente rico. Geralmente, quem tem carro com vinte e dois anos ganhou o carro dos pais. Esses jovens são ricos de certa forma. Mas o seu carro é bem velho. Você não passaria por rico não.
__-Eu sou mais rico do que você?
__-Com certeza.
__-Isso é estranho. Eu sou um cara que sobrevive. Não ganho mais que 11 dólares por hora aqui no resort. Quando estou na Pensilvânia, tiro no máximo 4 mil dólares por mês.
__-Se você sobrevive, você não sabe o que eu faço.
__Desde que eu chegara nos EUA, minhas conversas com os americanos eram simples, com perguntas e respostas curtas. Mas, com o Dan, estava havendo um diálogo. Não era fácil falar tanto. Eu tinha que procurar as palavras e gaguejava muito. Às vezes, não sabia alguma palavra e tentava explicar o que eu queria dizer. Ele também não entendia tudo o que eu dizia. Ele falava que era complicado entender o meu sotaque.
__Chegamos ao mercado, que se chamava Hungry Moose. Andei pelos corredores, observando as comidas disponíveis. Dez fatias de presunto custavam quase quatro dólares. Doía o bolso só de olhar. Um dos corredores do pequeno mercado tinha pacotes de salgadinhos. Os pacotes eram enormes, muito maiores dos que os pacotes que temos no Brasil. Estou certo de que eu não conseguiria comer um inteiro de uma vez. Abaixo, uma foto do Hungry Moose.

__Era meu primeiro dia em Big Sky, e eu continuaria a minha política de economizar o máximo possível. Encontrei uma batata frita Pringles por US$ 1.75. Além dessa batata, peguei duas maçãs. Dan pegou uns pães e depois veio falar comigo:
__-O que você quer beber? Cerveja? Refrigerante?
__-Eu não sei.
__-Você não sabe? Ok.. Já tomou Wild Cherry Pepsi?
__-Não.
__-Você vai gostar. Eu garanto.
__Ele pegou uma caixa com doze latinhas, que custava cinco dólares. As frutas eram pesadas no caixa. Ele pagou no cartão de crédito, e eu lhe paguei em dinheiro a parte que me cabia.
__A caminho de casa, na sua caminhonete, ele voltou a puxar assunto:
__-Renan, você já comeu carne de veado?
__-Não.
__Nem essas perguntas curtas eram fáceis para mim. Eu não sabia como dizer carne nem veado em Inglês. Assim, uma simples pergunta dessas exigia uns dois minutos de explicação. Ele tinha que encontrar um jeito de me explicar o que era um veado e o que era carne. Na verdade, eu sabia como era carne em Inglês. É flesh. Acontece que flesh é carne humana. Então, se eu fosse a algum restaurante americano e perguntasse que carne eles tinham, o atendente entenderia algo como:
__-Que tipo de carne humana vocês têm aí?
__Dan me falou que alguns amigos seus viriam dentro de alguns dias, e trariam carne de veado, e também o seu computador.
__Chegamos em casa. Reparei que todos os carros estacionados próximos ao alojamento tinham fios ligados a algum lugar dentro do alojamento. Eu queria perguntar para que serviam aqueles fios. Mas eu não sabia dizer “fio”. O mais próximo que consegui chegar de dizer o que queria foi:
__-Pra que servem essas coisas que estão lá?
__Apontei com o dedo.
__-Os fios?
__-Isso! Os fios.
__-Servem para esquentar os carros, para que eles funcionem de manhã. Aqui é muito frio. De manhã, os carros não ligam.
__Entramos novamente no quarto.
__-Renan, depois que você comer carne de veado, você não vai mais querer saber de outra coisa. Olha isso.
__Ele me mostrou um conjunto de temperos que ele guardava em cima de uma estante, e depois me fez cheirar alguns.
__-Eu vou cozinhar pra você.
__-Em troca de quê?
__-De nada, cara. Eu vou ter muita carne. Você vai ser o habitante de Big Sky a comer melhor. Ninguém vai comer melhor do que você por aqui.
__-Isso vai sair caro pra você.
__-Não vai não. Eu e meus amigos somos caçadores. Sai tudo de graça.
__-Legal.
__Comecei a tirar as coisas da minha mala e a ocupar as estantes.
__-Dan, quantos americanos há aqui no Golden Eagle?
__-Só eu.
__-Estou morando com o único americano?
__-Sim.
__-Vou ser o único a praticar inglês de verdade em casa, todos os dias?
__-Sim.
__-Estou com sorte, hein?
__-Só pela carne de veado você já está com sorte. Você não sabe do que eu estou falando, cara. Eu estou te dizendo. Você vai ficar louco quando experimentar.
__Fui tomar um banho. Assim como no Backpeckers, eu não conseguia abrir o registro do chuveiro.
__-Dan, como é que eu abro esse negócio?
__Ele estranhou a pergunta, e depois deu risada.
__-Ok. É assim:
__Ele puxou o registro, e a água começou a sair. Ao invés de girar o registro, é preciso puxá-lo. Daí, ao girá-lo para a esquerda, a água fica quente. Ao girá-lo para a direita, a água fica fria.
__Tomei meu banho e, depois, subi na minha cama, onde fiquei escrevendo sobre o dia. Mas ele queria papo. Definitivamente, ele era uma companhia agradável, hospitaleira e paciente. De cada dez palavras que ele falava, eu não entendia cinco, e eu tinha que pedir que ele falasse devagar e explicasse. Ele nunca se cansava de explicar. Quando eu não conhecia alguma palavra, ele ria e depois explicava. Se fosse algo difícil de se descrever, ele desenhava num caderno.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Chegando em Big Sky

__O hotel se chamava “Huntley”. Sabíamos que ali ficava o departamento de recursos humanos do resort, e deveríamos ir até lá para alguns procedimentos iniciais. Assim que comparecemos, fomos atendidos por um secretário, que disse:

__-Where are you from?
__-Brazil.
__-Ah. Legal.
__É. Ele era brasileiro.
__Havia várias pessoas sentadas na sala. Uma mulher entra elas nos perguntou:
__-Are you all from Brazil?
__-Yes, we are.
__-Oooooo, brasileirada.
__É. O secretário era brasileiro, as pessoas que estavam ali eram brasileiras... não há escapatória. Cedo ou tarde, vamos dominar o mundo.
__A primeira coisa que me preocupava era a moradia. Pelo contrato de trabalho que eu tinha com o resort, eu deveria ter chegado na cidade sete dias antes. Como eu estava atrasado, era possível que todas as moradias oferecidas pelo resort estivessem lotadas. Eu me inscrevera para morar num abrigo chamado Mountain Lodge, que fica no próprio resort. A opção que eu recusara ainda no Brasil era a de morar num abrigo chamado Golden Eagle, que é praticamente igual ao Mountain Lodge, mas fica a 30 minutos de ônibus da montanha. A maioria dos intercambistas escolhem o Mountain Lodge. Portanto, era improvável que eu conseguisse uma vaga lá.
__Chegou uma mulher para falar conosco sobre a moradia. Ela nos disse que a Fernanda e a Carla tinham suas vagas garantidas no Mountain Lodge, mas que eu estava no Golden Eagle. Perguntei se existia alguma chance de eu conseguir uma vaga no Mountain Lodge mais tarde. Ela disse que seria difícil. Talvez mais para o final da temporada.
__Ela me entregou um papel e uma chave.
__-Essa é a chave do seu quarto, que é o número quarenta. O número está aí no papel, junto com o nome do seu roomate, David.
__A mulher também me entregou uma agenda com os horários dos ônibus locais. Vinnie, o secretário brasileiro, disse que eu deveria correr para a parada do ônibus, pois já era hora de ele passar. Depois, ele me perguntou:
__-Você é o Renan?
__-Sim.
__-Tem uma caixa pra você da Darlene.
__Quando eu estava no Brasil, a Darlene me mandava umas caixas com presentes de tempos em tempos. Aliás, as fotos que colocarei no blog são batidas com uma máquina que ela me mandou certa vez.
__Vinnie buscou a caixa e me entregou. Não estava fácil carregar a mala, a mochila e a caixa. Um carioca de dezoito anos que também acabara de se apresentar no RH me ajudou a levar tudo.
__A parada ficava a uns sessenta metros do Huntley. Na cidade onde estávamos agora, o branco tomava conta de todo o chão, dos telhados, das montanhas e das árvores. Estar num lugar que fala uma língua diferente já é o suficiente para fazer alguém se sentir em outro mundo. Mas essa paisagem completamente branca tornava essa sensação ainda mais forte para mim.

__Eu estava sentindo frio. Umas dez pessoas esperavam o mesmo ônibus. Quando ele chegou, o carioca me ajudou a colocar minha mala e minha caixa no ônibus.
__Não é preciso pagar para se andar nos ônibus de Big Sky no inverno. Sentei no fundo do ônibus, que estava quase lotado. Atrás de mim, um rapaz brasileiro conversava com uma garota também brasileira. Depois de um tempo, ele puxou assunto comigo:
__-Você é novo aqui?
__-Sim.
__-Vai trabalhar onde?
__-Ticket Sales.
__-Oba! Vou esquiar de graça.
__Estava dado o recado. Eu deveria esperar que os trabalhadores locais viessem pedir “jeitinhos”para os vendedores de ingressos.
__O ônibus fez o mesmo caminho que fizéramos quando viemos de Bozeman, até chegarmos num bairro chamado Meadow Village. Lá, o carioca e uma amiga sua, que já esperava por ele há uma semana e que lhe encontrara no ônibus, me chamaram, dizendo que deveríamos descer ali. Desci carregando minha mala, minha mochila e minha caixa. Tínhamos que andar uns 6 minutos para chegar ao abrigo. Coloquei a caixa em cima da mala e fui andado bem devagarinho. Estava tudo muito pesado. Minha mochila de uma alça só caiu do meu ombro e, agora, eu a segurava com a mão, com o corpo inclinado, e não percebi que ela estava sendo arrastada no chão. Quando chegamos no abrigo, o Golden Eagle, ela estava toda rasgada.

__Acima, a foto do centro do bairro. Você pode ver a foto do Golden Eagle clicando aqui. Subi as escadas. Meu quarto era no terceiro piso. Abri a porta sem precisar da chave. Dentro, um rapaz me olhou com estranheza, sem saber exatamente o que estava acontecendo. Falei, em Inglês:
__-Oi, tudo bom? Sou o seu companheiro de quarto. Acabei de chegar na cidade.
__-Hum.
__Ele parou de olhar para mim e ficou olhando para a estante, que ele estava arrumando. Depois, ele me perguntou:
__-Você vai ficar aqui em definitivo, ou só alguns dias?
__-Em definitivo.
__-Ok. Então, vou separar um espaço pra você.
__Ele reorganizou suas roupas, deixando metade da estante para mim.Ele parecia contrariado. Minha opinião era a de que ele não tinha ido nada nada com a minha cara. E eu também não tinha ido nada nada com a cara dele. Tive a primeira impressão de que era um gurizão imaturo e chato. O lado positivo era que ele era americano, e eu poderia melhorar meu Inglês conversando com ele.
__Já que passaríamos quatro meses juntos, não havia porque não começar a trabalhar para que aquela convivência não fosse tão desagradável quanto eu esperava que fosse.
__-Ei. Eu tenho uma amiga americana que deixou uma caixa para mim, aqui em Big Sky. Vamos abrir e ver o que há aqui para nós?
__-Claro.
__Abri a caixa. A primeira coisa que vi foi uma caixa de cookies.
__-E aí? Vamos comer?
__-Claro! Adoro esse negócio.
__Agora ele já estava sorrindo. Também tirei da caixa um burrinho de brinquedo que vinha junto com umas balas. Tínhamos que colocar as balas dentro do burrinho e depois apertá-lo, para que a bala saísse do seu traseiro. Bem que me avisaram que eu comeria muita merda quando viesse pra cá.

__Quando ele viu o burrinho, ele deu risada. Ele já não estava com a cara fechada. Estava começando a se soltar.
__-Eu adoro esse negócio também.
__A caixa ainda tinha um conjunto de canetas de assinar cheque e uma agenda de executivo. A Darlene sabe que eu gosto de escrever. Por último, um Sudoku eletrônico.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Bozeman - Parte III

__Essa era a sala do albergue:__-Renan, você está acordado?

__-Estou. Não tá conseguindo dormir?
__-Não.
__Fernanda acordara quatro da manhã. Na verdade, era 9 da manhã para nós, brasileiros. Mas eu ainda estava sentindo bastante sono, pois não dormira nada bem no avião. Ficamos conversando, e acabamos acordando a Carla.
__Às 9, deveríamos estar no Social Security Office para solicitar nosso Social Security Card. Precisamos ter esse cartão para trabalhar nos EUA. Como ele não fica pronto imediatamente, os intercambistas recebem uma autorização provisória para trabalhar.
__Me vesti e fui colocar as minhas botas novas. Elas me pareciam muito bonitas e protegidas contra a neve. Estava seguro de que, com elas, não sentiria frio nos pés como no dia anterior. Calço a primeira e acho ótimo. Calço a segunda e quero me matar. Os pares eram iguais. Serviam apenas no pé direito.
__-Ah! Não acredito. Não acredito que eu fiz isso.
__Ao invés de aproveitar desde o começo meu primeiro dia nos EUA, eu teria que ir até oWall Mart novamente para trocar a porcaria da bota.
__Abaixo, mais uma foto de mim na frente do albergue:

__Às 8, estávamos na rua, procurando um lugar para tomar o café da manhã, e eu com uma sacola que continha o par de botas. Entramos num lugar parecido com a cafeteria onde estive com a Fernanda no dia anterior. Olhamos o cardápio. Eu não conhecia aquelas opções de comida. Uma das opções era Brazilian não sei o quê. Era uma das escolhas mais caras. Perguntei à atendente:
__-O que é esse Brazilian?
__Ela explicou um monte de coisa que eu não entendi. Uma das minhas fraquezas no inglês é o vocabulário alimentar. Não sei o nome de quase nada. Depois que ela falou sobre tudo o que vinha nesse prato, eu brinquei:
__-Aposto que é o que há de melhor aqui.
__-No fim, escolhi um chocolate quente e um sanduíche. Era a opção mais barata. Não tinha noção de quanto gastaria nos EUA antes de receber meu primeiro pagamento, então tentava economizar o máximo que podia.
__-Pagamos para usar a internet por doze minutos, apenas para fazermos nosso cadastro no SEVIS, que é um sistema de controle dos imigrantes, implantado depois dos atentados de 11/9. Depois que chegamos nos EUA, temos cinco dias para nos cadastrarmos no sistema. Toda vez que mudarmos de cidade dentro dos EUA, também temos que informar o sistema. Desrespeitar essas regras pode levar à prisão.
__Tiramos algumas fotos no lugar, mas acabei apagando todas elas da minha máquina. Nenhuma ficou boa. Depois, me arrependi por ter jogado fora aquela lembrança do lugar.
__Terminado o café da manhã, fomos ao escritório do seguro social. Ficava num prédio maior do que todos os outros da região. Já o escritório parecia bem pequeno. Logo que entramos, vimos outros intercambistas solicitando seus cartões. Numa das paredes do escritório, havia uma foto do presidente George W. Bush sorrindo.
__-Fernanda, olha a foto do Bush. Você acha que é obrigatório ter a foto do presidente aqui? Ou será que algum dos funcionários gosta dele e pendurou o quadro?
__-Não sei. Deve ser obrigatório.
__Achei estranho. Acredito que algum funcionário que gosta do presidente pendurou o quadro, pois este não fazia qualquer menção à presidência do país. Parecia uma homenagem a uma pessoa, e não a uma instituição.
__O ônibus para Big Sky sairia 1:45 da tarde, e eu ainda precisava ir ao Wall Mart. Combinei com as colegas que iria ao Wall Mart e depois voltaria ao Backpackers para, de lá, pegarmos um táxi até o local onde o ônibus para Big Sky nos pegaria. Assim que terminei a solicitação do meu cartão do seguro social, saí correndo.
__A caminho do Wall Mart, resolvi tirar uma foto. Não havia nada especial ali para se fotografar. Mas a neve, a segurança e a limpeza proporcionavam uma sensação com a qual eu não estava acostumado, e resolvi tirar uma foto para que pudesse me lembrar dessa sensação sempre que quisesse. Abaixo, a foto:

__Cheguei no mercado e fui à área de atendimento ao cliente. A atendente pegou a caixa com as botas e pediu que eu pegasse um outro par e voltasse ali. Voltei, apresentei o recibo e ficou tudo certo.
__-Você pode chamar um táxi para mim?
__-Claro!
__-Não sei muito bem como usar esses cartões telefônicos daqui. É minha primeira vez nos EUA.
__-Ah é? Você é muito bem vindo!
__-Obrigado.
__O táxi chegou em dez minutos. Entrei no táxi e já fui puxando assunto com o motorista. Não sabia se os americanos gostavam de conversar com estranhos, mas eu não estava ligando pra isso. Já estava a milhares de quilômetros de casa para conhecer esse lugar e esse povo e faria o possível para não perder qualquer chance de interação.
__-Como você está, senhor?
__-Cansado.
__-É mesmo?
__-Muito. E você? Com muito frio?
__-Ah, sim. Essa temperatura não existe no Brasil.
__Ele deu uma gargalhada.
__Quando chegamos ao Backpeckers, o preço tinha ficado mais alto do que para a mesma corrida da noite anterior. Não havia taxímetro. O motorista nos dava o preço quando chegávamos ao destino. Paguei, e ele ficou com a gorjeta.
__Logo que entrei, encontrei a Carla com suas malas. Ela e a Fernanda já estavam prontas e já tinham chamado um táxi para nos levar até o local onde o ônibus nos pegaria. Peguei minhas malas e fui para a frente do albergue. O taxista que nos levaria era o mesmo que tinha me trazido até ali.
__Colocamos toda a bagagem no carro e saímos. Ao chegar no shopping, que era o local onde o ônibus nos pegaria, o taxista disse que, para ficar justo, ele cobraria 10 dólares de cada um. Não sei do ponto de vista de quem era a justiça de que ele estava falando. A distância entre o Backpeckers e o lugar onde estávamos não era muito maior do que a distância entre o Backpeckers e o Wall Mart, que era de uns vinte e cinco minutos de caminhada.
__Ficamos esperando o ônibus na frente do shopping. Quando ele chegou, um rapaz apareceu de dentro do shopping e nos perguntou se queríamos ajuda para colocar as malas no ônibus, com aquele jeito simpático de todos os habitantes com quem tínhamos conversando até então. Perguntou isso em espanhol. Depois, ele embarcou conosco. Já a caminho de Bozeman, puxei assunto com ele. Logo que comecei a falar, ele me interrompeu educadamente e falou, em Inglês:
__-Desculpa ter falado em Espanhol com você. Eu jurava que tinha ouvido vocês falando Espanhol.
__De alguma forma, ele sabia agora que éramos brasileiros.
__-Tudo bem. Não se preocupe.
__Ele me contou que já havia estado no Chile, e que estava tentando aprender um pouco de Português. Também disse que era mórmom. Mostrei para ele um videozinho que tinha feito em Bozeman, de mim chutando a neve. Ele riu bastante. Assim que paramos de conversar, ele dedicou atenção ao livro que estava lendo, Freaknomics. Ele parecia aqueles CDFs simpáticos, que são bonzinhos com todo mundo e são judiados na infância.
__A paisagem predominante no começo da viagem era o marrom. Depois de uma hora de estrada, a paisagem perdeu essa cor e ganhou o branco da neve e o cinza das rochas. Entramos numa pista estreita. Do nosso lado esquerdo, montanhas. Do outro lado, um riacho e mais montanhas. O riacho estava congelado em alguns pontos. E o caminho agora era todo subida em direção ao resort, que ficava próximo do topo de uma das maiores montanhas locais, o Lone Peak.

__Um pouco mais acima, a pista ficou familiar, pois as curvas eram aquelas que aparecem no vídeo que eu postei aqui no blog antes de viajar. A viagem terminou quando vimos um estacionamento, um shopping e paramos na entrada de um hotel.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Bozeman - Parte II

__A foto acima é do Backpackers. Não foi tirada no dia em que cheguei. Ela saiu muito escura. Então, tive que editar.
__Assim que entramos, encontramos um rapaz que aparentava uns dezoito anos. Ele explicou que a noite custava 18 dólares, e que podíamos escolher o quarto e a cama. O lugar tinha cara de casa, e não de albergue, hotel ou coisa parecida. Subimos as escadas e ficamos no quarto que parecia mais limpo. Havia três beliches. Eu peguei um e a Fernanda pegou outro. Apenas jogamos nossas coisas sobre as camas para garantir o lugar.
__Descemos as escadas novamente. Estávamos loucos para andar pela região. No andar de baixo do albergue havia uma sala com sofás confortáveis e uma vista para a rua, chamada “Olive Street”. A casa tinha papel de parede e havia plantas penduradas em todos os cantos. Também havia dois violões pendurados e revistas espalhadas. A Fernanda dizia:
__-Nem tem cara de hotel. Estou me sentindo em casa._______________________Fernanda

__Fomos para a Olive. Nossa intenção era voltar para a Main Street para, em seguida, procurar pela 7th Avenue, onde sabíamos que ficava o Wall Mart. Precisávamos ir lá para comprar umas roupas de frio.
__Entre a calçada e a rua, havia muita neve. Eu me agachava e pegava a neve com as mãos. Também chutava os pedaços maiores de neve, em formato de pedra, e parecia que eles explodiam. Observávamos as casas, todas sem grades e com varandas e cadeiras de balanço. Eu não parava de repetir:
__-Isso é um filme. É igualzinho a um filme. É tudo como parece na TV.
__Essa não é a realidade de todo o país. Longe disso. Bozeman era bela e pacata. Sentia estar longe do alcance de qualquer aborrecimento e preocupação, e os números oficiais dos EUA deixam claro que, em boa parte do país, há motivos, sim, para temer assaltos, assassinatos, furtos, desemprego, pobreza e exclusão social.
__Chegamos à Main. Eram umas três da tarde. A cidade fica completamente escura às 6. Caminhamos em direção à 7th. A calçada estava coberta por uma fina camada de gelo. Era muito fácil escorregar. Meus pés ficaram gelados e doloridos. Minhas mãos também não estavam bem. O que mais doía eram as orelhas. Toquei a pele do meu rosto, que não sentiu a minha mão. Estava com a face completamente adormecida. Depois, as pernas e os braços ficaram frios. A Fernanda tinha as mesmas sensações. Percebemos que não agüentaríamos andar até o Wall Mart. Resolvemos voltar e nos agasalhar melhor. Eu estava vestindo apenas uma blusa de lã grossa, uma jaqueta e duas calças. Mas, no caminho, pararíamos para tomar um café em algum lugar.
__Tomamos o caminho de volta pela avenida principal. Quando penso em como descrevê-la, me vem na cabeça a palavra riqueza. Mas essa não era a real característica do lugar. A avenida era contornada por estabelecimentos que, por fora, eram muito parecidos com os que temos no Brasil, mas que tinham pintura recente e não eram pichados. A rua não tinha buracos e nem sujeira. Esses são detalhes de um lugar digno, e não exatamente rico. Não é com dinheiro que se deixa a rua no estado de limpeza que víamos, e sim com respeito. A sensação de segurança não vinha só do fato de sabermos que esse era um lugar tranqüilo, mas do comportamento das pessoas com quem cruzávamos, que nos olhavam nos olhos e nos cumprimentavam, mesmo sem nunca terem nos visto, deixando claro que não eram inimigas e não ofereciam risco. Os quadros, os tapetes, os papéis de parede e o estilo do interior dos prédios, sim, tinham relação direta com o poder de investimento de todos aqueles empreendimentos. Mas a limpeza e a segurança são coisas que estão ao alcance dos brasileiros. Podemos ter essas coisas antes de termos toda a riqueza que gostaríamos.
__Entramos numa cafeteria. Nas mesas, as pessoas usavam seus laptops. Pedimos nossos cafés e nos sentamos. Observei o lugar. A cor de madeira predominava. Pelas janelas, podia ver a rua calma, limpa e bela. A beleza que tínhamos do lado de dentro nós também tínhamos do lado de fora. Dificilmente podemos experimentar essa sensação no Brasil. Se, no Brasil, entramos num lugar luxuoso como o que estávamos agora, sabemos que estamos nos afastando da realidade. Pela janela, podemos ver a realidade, onde as crianças esperam que saiamos para pedir moedas, há casas pequenas e maltratadas e ladrões escolhendo suas vítimas. Não era esse o caso da cafeteria onde estávamos. Esta era perfeitamente acessível a trabalhadores de qualquer faixa de renda dessa cidade, e fazia parte do mundo de toda a população local. Em Bozeman, não é necessário entrar num shopping para estar cercado temporariamente de dignidade e se sentir seguro, pois o mundo de Bozeman é todo digno e seguro.
__Voltamos ao Backpackers. Quando estávamos no quarto separando nossas roupas, entrou uma garota perguntando, em português:
__-Vocês são brasileiros?
__-Sim.
__-Ai, que bom! Finalmente!
__A garota se chamava Carla. Vinha de Ponta Grossa, Paraná. Agora, ela iria conosco para o Wall Mart.
__Fomos para a Olive e suas calçadas escorregadias. A Carla ia na frente, e eu vinha com a Fernanda logo atrás. A Carla pisou numa camada de gelo e perdeu todo o atrito com o solo. Suas duas pernas foram para o lado e um barulho alto anunciou o seu impacto contra o chão. Não sei como descrever o som, mas foi algo mais ou menos assim: TUM!
__Ela deu um grito que, de imediato, transformou-se numa risada.
__-Hahaha! Ai! Não acredito. Ai, que dor. Ai gente, ai ai ai... não acredito. Putz! Não pode ser.

____________________À direita, Carla. ___________________________
__Para termos certeza da localização do Wall Mart, entrei num bar e perguntei a direção. Uma mulher me atendeu e repassou a pergunta para um homem, que me pareceu ser seu marido. Eles tinham um sorriso muito grande, que rasgava o rosto. A educação e a gentileza daquele povo me parecia anormal. As pessoas com quem eu tinha conversado até agora exibiam uma simpatia que ia além do necessário para fazer uma pessoa se sentir bem. Elas eram capazes de fazer os visitantes da cidade se sentirem especiais, queridos.
__Agora certos da localização do Wall Mart, caminhamos em direção à 7th Avenue. Ainda na Main, vimos um carro batido sendo removido. Os poucos carros que passavam por essa avenida andavam muito lentamente. Acredito que o acidente foi pura e simplesmente em função da neve, que deixava o asfalto escorregadio.
__Depois de vinte minutos de caminhada, chegamos ao Wall Mart. Antes de mais nada, queríamos comer. Logo na entrada do mercado, havia um McDonalds. Era a hora de descobrir se os lanches realmente são diferentes dos lanches brasileiros ou não.
__Pedi o número 1. A atendente disse algo que não consegui entender e pedi que repetisse. Ela repetiu, e eu continuei sem entender. Pedi mais duas vezes que repetisse. Então ela me perguntou:
__-Do you speak Spanish?
__-A little.
__- 4 e 69.
__Ela estava me dizendo o preço do lanche. Me senti estúpido por não ter entendido uma coisa tão simples quanto esses números. Até então, eu tinha entedido praticamente tudo o que já tinham me falado em Inglês. Fui empacar pela primeira vez logo nos malditos números que aprendemos antes de mais nada nas clássicas aulinhas de inglês.
__Saindo dali, fomos comprar comida e roupas. Eu não quis comprar muita coisa, pois já tinha uma mala bem pesada e uma mochila para levar a Big Sky. Compraria mais coisas outro dia. Por hora, procurei por uma calça social preta. Estava trazendo uma do Brasil, e fora orientado por e-mail pelo RH do Big Sky a trazer roupas sociais. Acontece que eu não entendia as medidas que os americanos usavam para roupas. Peguei umas sete calças e experimentei todas elas no provador. Nenhuma delas serviu perfeitamente. Eram todas grandes demais. De qualquer forma, acabei pegando uma. Todos os ex-intercambistas que eu conhecia me disseram que é fácil engordar nessa país.
__Comprei também uma bota especial para neve. Depois nos reunimos e, ainda sem ter cartão telefônico e sem querer tentar usar o telefone público, pedimos que uma atendente chamasse um táxi para nós. A essa hora, não havia nenhum ônibus circulando e tínhamos bastante peso para carregar.
__Chegamos no Backpackers. Resolvi tomar um banho. O lugar era todo aquecido. De qualquer forma, eu estava sempre sentindo um friozinho. O banheiro era mais frio do que os outros lugares da casa. Entrei, tirei a roupa e fiquei com muito frio. Girei o registro do chuveiro para a direita e nada. Girei para a esquerda e nada também.
__Mais abaixo, havia uma torneira sobre a banheira. Essa era fácil de se abrir. Eu não estava disposto a me vestir de novo e sair pelo albergue perguntando o que deveria fazer para conseguir fazer o chuveiro funcionar. Entrei na banheira e tomei banho de torneirinha.
__Voltei para o quarto. A Carla também dormiria com a gente. E dormiria mal, pois o tombo lhe machucara e ela só conseguiria deitar de lado.
__Fiquei na frente da janela do quarto, olhando a rua e as casas cobertas de neve. Nas últimas noites no Brasil, eu vinha sonhando que estava nos EUA. Quando eu acordava, pensava: falta pouco para chegar lá. Agora, estava indo dormir certo de uma coisa: caso eu sonhasse novamente com os EUA, acordaria dentro do sonho.

Bozeman - Parte I

__Quando estamos no ar, puxo assunto com o cara que senta do meu lado. Ele era argentino. Falamos em inglês. Seu nome era Santiago. Já trabalhara em Big Sky no ano anterior e já tinha viajado pela Europa. Nessa temporada, trabalharia como professor de ski. Conversamos sobre a “richa”entre brasileiros e argentinos e sobre o que ouvíamos a respeito de os americanos não gostarem tanto de contato físico quanto nós, latinos, que abraçamos, damos socos de brincadeira, empurramos, damos tapinhas nas costas e chamamos pessoas cotucando.
__Conversa vai, conversa vem, ele olha pela janela e quase grita:
__-Olha! Olha! É o resort! Como é bom ver esse lugar daqui.
__O que podíamos ver do avião era algo que parecia um parquinho. Não pude ter uma boa noção do lugar com o que vi.
__Pousamos, agora sem grandes emoções, pois já era o terceiro pouso. Eu estava era ansioso para sair do aeroporto e dar de cara com os EUA de uma vez.
__Saio com a Fernanda do avião e vamos em busca das nossas malas. O saguão do aeroporto era minúsculo em comparação com os aeroportos de Guarulhos e Porto Alegre, os que eu conheço bem.


__As malas apareceram. A Fernanda comprou um cartão telefônico para ligarmos para o Brasil. Se me lembro bem, o cartão tinha cem créditos. Depois que ela usou para falar com a família por três minutos, sobraram sessenta. Não consegui falar com a minha família. Tentei ligar para o celular da Darlene, minha amiga americana que mora no Novo México. Ouvi uma mensagem de caixa postal, e agora restavam trinta créditos.
__Perto do telefone público havia uma mulher sentada, falando no celular. Assim que ela desligou seu telefone, perguntei a ela como fazer uma chamada a cobrar. Ela sorria bastante, demonstrando muita gentileza. Disse que não sabia, e então nos ofereceu seu celular. Eu disse que não era uma boa idéia, pois eu faria uma chamada internacional, e isso lhe custaria muito caro. Ela falou:
__-Vou tentar ajudar vocês.
__Ela se levantou e usou o telefone público para falar com o operador. Não entendi a conversa que ela teve com o operador, mas ela não descobriu como se fazia uma chamada a cobrar.
__Pedi a ajuda de um atendente do balcão de uma companhia aérea. Era prazeroso falar em inglês. Não mais ensaiando, não mais treinando em aulas de cursinho, onde o interlocutor, por ser um professor ou um colega de classe, podia entender nosso inglês sofrível e falar em português assim que quiséssemos. Agora, era ou falar inglês ou ficar sem comunicação. Saíra do simulacro das salas de aula enfeitadas com bandeiras americanas, fantasias de Halloween e fotos de bandas de blues. Agora, era tudo de verdade, e a sensação de falar em outra língua era a de usar uma chave que abre uma porta para um mundo desconhecido. Experimentava o primeiro pedaço de uma enorne novidade. Era o meu primeiro contato direto com aquele povo que é observado com atenção ao redor de todo o globo, através de seus filmes e músicas; que é exposto nos jornais de todo o planeta; que é atacado nas letras das canções de estilos que ele criou, escritas por pessoas que se vestem como ele ensinou; que universalizou seu humor; cujos medos, enganos e interesses levam a guerras que mudam para sempre o destino de países; que recebem tantos estrangeiros que podem não conseguir falar sua própria língua em sua própria terra. Era de verdade. Estava em outro hemisfério, outro clima, outra realidade.
__O atendente do balcão chamou um táxi. Ele me disse que precisávamos esperar vinte minutos.
__Entre o estacionamento e o saguão do aeroporto, havia uma área limitada por duas portas automáticas. Quando se está saindo do saguão, a primeira porta se abre, mas a segunda não. Depois que a primeira se fecha, a segunda se abre. Assim, o frio não entra no saguão. Eu e a Fernanda ficamos nessa área.
__-Fernanda, segura aqui as minhas coisas um pouquinho. Eu quero sentir o ar lá fora.

__Saí pela porta automática e parei na calçada, tendo à minha frente a visão dessa foto acima. Senti o mesmo frio de Salt Lake City. Aquele ar era gelado, e dava a sensação de que não importava quantas roupas usássemos, pois sentiríamos frio de qualquer forma. Isso me deixava muito feliz. Sempre quis morar num lugar frio. Quando me mudei de Campinas para Porto Alegre, tive uma decepção completa quanto ao clima. Esperava encontrar uma cidade fria, e o que descobri foi um inverno que dura muito pouco e oferece um frio que qualquer boa blusa de lã resolve. Agora, naquela calçada, eu sentia que não havia como se proteger daquelas temperaturas baixas. Elas invadiriam qualquer roupa.
__Respirei bem fundo. Sempre que chego a uma cidade diferente, a primeira coisa que faço é tentar sentir seu cheiro. Nas minhas viagens de ônibus de Campinas a Porto Alegre, quando eu ainda morava longe da Bibiana e lhe visitava sempre que podia, parávamos no Paraná e em Santa Catarina, e eu podia sentir muito bem a diferença dos cheiros das cidades. Agora, eu queria prestar muita atenção no cheiro dos EUA. Tinha que ser agora, pois, no fim do dia, já não conseguiria sentir a diferença, por já estar acostumado.
__Atravessei aquela rua do estacionamento. Agachei e peguei a neve. Sua textura era o que eu esperava depois de tê-la visto de perto pela primeira vez na pista do aeroporto: parecia raspadinha. A mão ficava gelada instantaneamente e doía. Olhei ao redor. A cor predominante da paisagem era o marrom da terra seca e do mato queimado pelo frio. Voltei para a área que separava o aeroporto do estacionamento, e então foi a vez de a Fernanda experimentar o lugar.
__Depois que ela voltou, saí de novo. Fui para um canto do estacionamento onde eu podia ver algumas montanhas distantes. Peguei a máquina fotográfica e me aproximei da grade que limitava a área. A um passo de subir na calçada, escorreguei no gelo. Quase caí. Percebi que não levaria muito tempo para levar o primeiro tombo.
__Tirei algumas fotos e voltei para a área entre o estacionamento e o aeroporto, onde esperávamos pelo táxi.
__Chegou um táxi bem grande. Era um furgão. O motorista era um senhor magrinho, de jaqueta, boné e óculos. Ele veio pegar nossas malas. Perguntei a ele:
__-Senhor, posso ajudá-lo?
__Ele riu, fechando os olhos e apontando a cabeça para cima, e disse, parecendo um avô bonzinho:
__-Claro! Por favor. Você é muito mais forte do que eu.
__Entramos no táxi eu, a Fernanda e dois senhores, que aparentavam uns 60 anos. Eles chegariam antes de nós ao seu destino. Eu e a Fernanda desceríamos por último no Backpackers Hostel.
__Da janela do carro eu via muito espaço e pouca ocupação. Os senhores conversavam com o motorista, e eu só observava a paisagem.
__Chegamos ao destino dos senhores. Depois que eles desceram, sentei do lado do motorista. Puxei assunto. Ele disse morar na cidade há bastante tempo. Perguntei se ele tinha orgulho daquela terra. Ele respondeu que sim. Perguntei se ele tinha orgulho do seu povo. Ele levantou as sobranchelhas e fez um bico com os lábios, numa expressão de dúvida. Depois, fez que sim com a cabeça, mas conservando aquela expressão no rosto.
__-Esse povo é legal.
__Entramos na avenida principal de Bozeman, que era uma avenida de comércio e entreterimento. O motorista nos disse que estávamos próximo do Backpackers. Perguntei se essa era uma avenida tranqüila para se andar à noite. Ele respondeu que sim, que não havia nada com que devêssemos nos preocupar.
__Ele parou na frente do Backpackers. Não me lembro quanto exatamente foi a corrida, mas paguei com uma nota alta. Os EUA são um dos países que têm o hábito de dar gorjeta de no mínimo 10% às pessoas que prestam qualquer serviço. Assim, quando se dá uma nota maior do que o valor do serviço, subentende-se que a diferença seja a gorjeta. Mas o motorista estava devolvendo o troco completo. Eu esperava que ele ficasse com a maior parte. Não era minha intenção deixar de respeitar esse hábito dos americanos. Mas ele estava devolvendo todo o dinheiro. Quando ele já tinha devolvido quase tudo, falei:
__-Tudo bem. Tá tudo certo.
__-Tudo certo?
__-Sim.
__-Ok.

Tamanho dos posts

__Perdoem-me pelo erros de portugu^es desse post. Estou escrevendo do hotel onde trabalho e, aqui, n~ao d'a para acentuar as palavras.
__Hoje `a noite, publico o 'ultimo post sobre a chegada nos EUA. Depois, vou dedicar um post para cada dia vivido aqui nos EUA. Estou escrevendo bastante sobre a chegada porque, como tenho dito, pisar pela primeira vez em solo tao distante 'e um momento muito especial.

renancontador-contato@yahoo.com.br

domingo, 28 de janeiro de 2007

Moonlight Basin


___Fugi um pouco da ordem cronológica do blog pra postar essa foto, tirada em um resort chamado Moonligh Basin.