quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Jeitinho americano 7

__Éramos cinco brasileiros, um peruano, um sul-africano e dois americanos na bilheteria. As quintas-ferias eram muito mais movimentadas do que os outros dias da semana. Por isso, uma americana e uma tailandesa se juntavam a nós para não deixar que filas de compradores de ingresso se formassem.
__A americana tinha uns vinte e cinco anos. Era formada em matemática. Apaixonada por esportes, passava o inverno inteiro em Big Sky para poder esquiar todas as semanas. Trabalhando para o resort, ela podia esquiar de graça.
__Ela era uma guria light. Trabalhava também em um restaurante, de onde trazia saladas que comia ao longo de todo o dia. Gostava principalmente de cebola, o que não seria problema se tomasse banho todos os dias e escovasse os dentes. Mas o cheiro não era a única coisa que incomodava os meus colegas. Ela dedicava boa parte do seu tempo a ficar julgando as atitudes dos companheiros de trabalho. Abaixo, algumas de suas máximas:
__"Você bebe cerveja? Não acredito. Isso faz mal pra saúde".
__"Vocês têm que parar de comer porcaria. Parem com chocolate quente e hambúrgeres."
__"Por que vocês ficam fazendo piadinhas sobre vocês mesmos? Vocês acham graça em ficar reparando nos defeitos dos outros?"
__"A maioria das pessoas não sabe o que é se divertir. Pra mim, diversão é ficar em casa lendo um bom livro, ter uma boa conversa com um amigo..."
__"Boates. Odeio boates! Que espécie de pessoa você vai conhecer numa boate?"
__Quase todos esses comentários são pertinentes. O engraçado foi descobrir depois de quatro meses quem realmente era essa dona da moral e da saúde.
__Os visitantes do resort ganhavam pontos por cada ingresso que compravam para esquiar. Para contabilizar esses pontos, pegávamos o cartão de crédito do cliente, depois seu cartão de skier e cruzávamos os dados. Nossa colega americana das quintas-feiras tinha um método um pouco diferente de realizar o procedimento, método esse que só foi descoberto a menos de uma semana de o inverno acabar e o resort fechar. Ao invés de usar o cartão de pontos do cliente, ela usava o dela. Durante quatro meses, ela se apropriou dos ganhos dos clientes e, com isso, garantiu horas gratuitas de esqui para os amigos, descontos em hotéis, em aparelhos de esqui, em almoços e em várias outras coisas.
__Como fazia para não ser pega? Simples: quando algum colega ia ao banheiro ou saía do seu computador por alguma razão qualquer, ela se prontificava:
__-Amigo, deixa que eu cuido dos seus clientes aqui!
__Sua camaradagem servia para que ela usasse os computadores dos "amigos" para roubar. Assim, quando o chefe fosse conferir os caixas no fim do dia, os desvios seriam constatados em todos os computadores, menos no dela.
__Casey, um dos colegas americanos, percebeu a sacanagem quando ela saiu do computador dele depois de uma de suas ladroagens, esquecendo-se de apagar os rastros. A amiga que o abraçava, que esquiava com ele, que brincava com ele, que dizia que ele era um barato, que pulava, sorria e gritava quando o via, era sua inimiga oculta, que colocava seu emprego e seu respeito em risco.
__Loura, olhos azuis, pele rosada, fala suave, saudável, sorridente, simpática, amiga e bandida. Ela encerra as histórias de jeitinho americano deste blog.
__Se bem que é muito cedo para dizer isso. Foram tantos! Volta e meia me vem um na cabeça.
__Como não há provas contra ela, seus benefícios adquiridos valerão por tempo indeterminado. Vai usufruir dos seus furtos numa boa. Nem demitida ela foi.
_
__Quando o trabalhador deixa sua cadeira vazia, entra em cena a protagonista do maior causo de jeitinho deste blog.

2 comentários:

Caio disse...

Renan,

Bom sinto informar que nosso tiu Mr. Boyne não era tão burro assim, e infelelizmente nossa queridissima colega de trabalho não pode se apropriar dos seus pontos.

Como todos sabemos eu nos meus momentos de genio do mal buscando encontrar possiveis fraudes em big sky, havia pensado nessa possibilidade, e fui averiguar com o Jamie - num dos dias de folga do Jan. Bom se o cartão da Boyne tava no nome da queridissima, ela não pode ter pontos ou seja, logo no fim da temporada a boyne rewards pega o nome de todos seus funcionarios e apaga seus pontos. Entretanto se o cartão fosse no nome de outra pessoa, o q eu acho q ela nao seria capaz de pensar sozinha, ela talvez conseguiria. Uma das consierges, no inicio da temporada, a Jocye tinha tentado isso, mas foi pega, nada aconteceu afinal a BOYNE é ONIPRESENTE!

Moral da História: 1984, Big brother disfarçado, como sempre em big sky, vc está sendo controlado mesmo quando pensa que não! Por isso amamos aquele lugar!

Forte abraço
Caio

mamainnnnnnnnnnn disse...

É me parece que apenas os lugares são diferentes....
...as pessoas são iguais em qualquer lugar.