quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Jeitinho americano 6

__Era o último dia de esqui. Na manhã seguinte, o resort fecharia as portas. A neve derretia e levava consigo a paisagem que, dali pra frente, eu só teria na minha memória e nas minhas fotos. A saudade que já me tomava fazia com que tudo o que eu visse ficasse impresso com força na minha mente, e uma das coisas que vi nessa condição foi justamente mais um dos jeitinhos americanos.
__Caminhando na frente do hotel onde mais gostei de trabalhar, o Mountain Inn, encontro um dos americanos com quem mais convivi durante o intercâmbio. Ele me viu primeiro:
__-Olha o que eu achei na neve, Renan!
__Ele me mostrou um iPod.
__-Pena que está no fim da temporada. Está funcionando perfeitamente. Alguém perdeu na neve.
__Durante os três meses que trabalhei nos hotéis do resort, tive que procurar por dezenas e mais dezenas de itens perdidos por donos tristes, nervosos e loucos da vida que perdiam relógios, carteiras, tocadores de mp3 e outras coisas. As caixas de achados e perdidos raramente tinham o que procuravam, pois o resort estava cheio de gente como esse meu colega da Pensilvânia.
__-No inverno que vem, eu vou poder esquiar quatro meses ouvindo música. Vai ser incrível.
__Não me lembro se foi essa a última ou a penúltima vez que vi o cara, para quem devolver o que não lhe pertencia não lhe parecia algo que lhe coubesse fazer.
__Foram muitas as histórias desse blog sobre jeitinhos latinos e americanos. Ter vivido esses episódios foi um dos maiores ganhos do meu intercâmbio. Coisa difícil é achar alguém que preste nesse mundo. A expressão "jeitinho brasileiro" já não faz sentido para mim.
_
__O inverno se despede e cores quentes vão tomando conta da paisagem. Hóspedes vão embora para nunca mais encontrar seus pertences.

9 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Renan.
Sempre digo para os meus amigos do Brasil que a diferença está no controle. Onde não existe controle, as coisas acontecem do mesmo jeito que no Brasil.
Outro dia um colega da empresa onde meu marido trabalha contou que ele entrou em um caixa eletronico e alguém havia deixado o dinheiro lá (deve ter esquecido de retirar). Ele pegou o dinheiro e saiu feliz, pois "nem foi preciso sacar nada".
É mole?
^^^DraGonFly^^^

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Falou e disse!
Mais crimes são cometidos no Brasil porque cometer crimes por aqui é uma grande vantagem, um investimento de uma baita rentabilidade e risco mínimo.

Scarlett disse...

"tocador" de mp3 Renan? huahauhau forçou a barra né? creio que esse bagulhinho começou a ficar popular qd tu tava lá... bem, aqui em SC pelo menos sempre ouço o pessoal falar mp3 player huahauhauhuahua Sou fã da série "Jeitinhos" e boa essa aí de colocar fotos com um pequeno resumo da matéria embaixo hehehe. Abraço pra ti.

Scarlett disse...

Ah... e legal o comentário anônimo acima, verdade!!! Me canso de ver oportunidades em que da pra ganhar um dinheirinho fácil, essa cultura ta empregnada... isso se aplica desde um jogo de Banco Imobiliário e por aí vai... até nosso futebol é mais malandro e malandragem já é quase que uma arte legítima, pelo que vejo as vezes.

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Scarlett, falei "tocador de mp3" porque sou um homem à frente do nosso tempo!
Tramita no congresso um projeto de lei que proíbe estrangeirismos. É possível que dentro de alguns meses as lojas sejam obrigadas a vender "rato" ao invés de "mouse". A palavra "show" será substituída por "apresentação musical".
O projeto é do deputado Aldo Rebelo, do PCdoB.

Vicky disse...

Renan, sinto muito mas isso e o caso da loira nao tem nada a ver com jeitinho. Isso eh roubo puro e simples. O jeitinho eh soh um "atalho" para alguma coisa que de outra forma leva um caminho enorme para ser cumprido...

Leia um livro chamado "O Jeitinho Brasileiro" de Livia Barbosa.

Rúben Reis disse...
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Rúben Reis disse...

[comentário ré-escrito]
"Jeitinho brasileiro": um conceito feito de muitos preconceitos

Caro Renan,
Vc chegou a uma conclusão à qual muitas cabeças preguiçosas (brasileiras, americanas européias ou de onde forem) e apegadas ao "palavreado fácil" (um engano!) e viciadas em clichês jamais conseguiriam. O uso da expressão "jeitinho brasileiro" tornou-se uma praga que infesta quase todas as falas que ouvimos o dia todo. Não há nenhum fundamento sólido que justifique essa expressão, q é mau cunhada e mal utilizada por muitos comunicadores – péssimos críticos, pelo menos. A expressão apenas manifesta o preconceito e a preguiça intelectual de quem a utiliza, na busca por uma generalização desinteligente e por uma fala supostamente bonita e popular.

Essa expressão costuma estar ligada à preguiça ou à desonestidade. Mas a "preguiça" – q, se manifesta em qualquer ser humano e não só nos brasileiros, como pretendem algumas (de)mentes - é uma contrapartida comportamental muito conhecida pela economia à lei do menor esforço: "a maior produção pelos menores custos possíveis". Traduzindo: "o máximo de satisfação pelo mínimo de esforço". Os habitantes de todos os países estão sujeitos a ela. Os hábitos desonestos e a falta de respeito pelos direitos alheios são pura decorrência da impunidade, e não da brasilidade.

“Jeitinho brasileiro"... Se alguém pretende criar um conceito, está num ótimo caminho! Mas é bom também q estude e faça reflexões objetivas; não que fique desgastando nossa língua e nossa paciência com usos sem sentido, sem bom senso. O próprio fato de criar expressões com esse grau de seriedade é danoso para à auto-estima nacional... E, no futuro, pode ser base para a elaboração de um conceito tão ou mais preconceituoso. É importante discutir a identidade nacional; mas identidade nacional num país grande – e diverso – como o nosso, definitivamente, não é feita sem muito trabalho, rigor científico e - se é que é preciso dizer – muita, mais muita seriedade. E é impossível que se resuma numa expressão pobre como "Jeitinho brasileiro", que não consegue dizer nada – quando deveria dizer tanto...
Nossa identidade cultural é gigante. Tão grande que só conseguimos vê-la em parte: A “nordestina” – que quer dizer milhares de ricas e complexas particularidades; a “gaúcha”, igualmente; a “mineira”, a “baiana” (q é parte da “nordestina”); a “amazônica”, que traduz um verdadeiro universo cultural e tantas... Tantas... Acho mesmo que as pessoas q falam em "Jeitinho brasileiro” não querem falar de identidade cultural brasileira... Trata-se de um empreendimento sério, vasto, trabalhoso; cansativo como um texto mal escrito e longo [como esse? – Não. Muito (!) mais!]. Acima de tudo, é bom q se diga, trata-se de um empreendimento que não se alcança com pretensões simplistas.

Jeitinho brasileiro... O uso desse conceito - que não é conceito nenhum porque não conceitua nada - se presta a muitos fins sujos e nocivos, como a proteção aos delinqüentes institucionalizados – os políticos e outros agentes públicos ou não – que deveriam ser responsabilizados pelas decorrências de sua atos e pelo não cumprimento dos deveres que lhe são imputados por nosso "povinho brasileiro" [já que a onda é diminuir]. E igualmente à manutenção da inferioridade do brasileiro diante dos "países civilizados": Só por ser brasileiro, vc já tem um currículo que "garante cientificamente" sua inferioridade diante de qualquer cidadão do 'mundo civilizado'...

Decorrência do referido (pré)conceito: "No Brasil nada funciona mesmo". Assim, os ladrões continuam lezando os hipossuficientes e os roubados continuam sem o direito até de se revoltar... "Pra que se revoltar, se no Brasil é sempre e irremediavelmente assim?"... Sérgio Naia, Paulo Maluf, Juiz Lalau, ACM et cetera, et cetera, et cetera, et cetera... ... ...Como é q as pessoas não percebem isso?!!
...A expressão “jeitinho brasileiro” não faz mais sentido pra mim... Vc está certo... Ela nunca fez sentido pra ninguém. Acontece que quem a utiliza está em busca de qualquer coisa, menos de sentido, de clareza, de reflexão, de rigor. Se eu fosse adepto da "teoria do jeitinho brasileiro", diria q vc descobriu isso porque respirou os bons ares americanos, recebeu os sopros superiores do desenvolvimento... Nada disso! Vc concluiu isso porque resolveu pensar... Parabéns!
Parece que me empolguei... Rsrs... Não é orgulho nacional; essa é outra idéia ruim – linha pra outro 'tricô'...
Se algém quizer continuar o diálogo, pode entrar em contato.

Um abraço! Até!
Rúben Reis (wwruben.spaces.live.com e oiruben@hotmail.com).

Rúben Reis disse...

Uma correção necessária:
Peço desculpas pelo aparecimento das duas preposições - "para" e "à" - juntas no terceiro parágrafo. Foi um descuido de digitação... Um abraço!