sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Questão de confiança

__Não me lembro se eu estava entrando no Walmart ou em algum minimercado. Só sei que eu estava carregando uma sacola de plástico com comida que eu comprara antes em algum outro lugar.
__Assim que entrei, procurei pelo guarda-volumes, mas não encontrei nada. Falei com uma funcionária que passava:
__-Com licença, onde posso deixar essa sacola?
__-Como assim?
__-Eu queria entrar para comprar umas coisas. Onde eu posso deixar isso?
__-Você não quer levar com você?
__-Posso?
__-Por que não?
__O rosto da funcionária mostrava confusão total. Ela não tinha idéia do que eu estava falando. Agradeci e entrei nos corredores do mercado, carregando todos os meus pertences.
__Já fazia uns três meses que eu estava nos Estados Unidos quando isso aconteceu, mas coisas assim continuavam me surpreendendo. Os grandes mercados brasileiros sempre têm um espaço na entrada para se deixar sacolas. Se esquecemos de deixar ali o que estamos trazendo, um segurança nos lembra de que temos que deixar nossas sacolas ali, ou lacrá-las. Mercados menores nas cidades grandes ou em cidades pequenas não têm essa regra. Mas quando chegamos para um de seus funcionários e perguntamos se precisamos deixar nossas sacolas em algum lugar, eles sabem do que estamos falando. Todos sabem dos ladrões que entram com uma mochila e vão jogando produtos para dentro dela. Cidades brasileiras de interior podem até não conviver com o problema, mas o conhecem da televisão ou das histórias contadas por viajantes e amigos.
__Coisa parecida não chegou ainda aos ouvidos dos moradores de Montana. Eles devem pensar: por que um cidadão não poderia entrar com suas sacolas dentro de um mercado?
__Depois de sair de Big Sky, fui recebido por um casal de amigos americanos em Silver City, no estado do Novo México. Seus nomes são Eddy e Darlene. Eles me hospedaram em sua casa por dois meses. Viajamos várias vezes ao longo desse período. Na volta de uma das viagens, encontramos na frente da sua casa uma caixa, mais ou menos do tamanho de uma televisão de 20 polegadas. Disse a minha amiga Darlene:
__-Renan! É a sua caixa! É a caixa que enviamos para o Brasil no ano passado e que nunca chegou!
__Em 2006, eles me enviaram um presente. No dia em que fui retirá-lo numa agência dos Correios, descobri que o total de impostos de importação que eu deveria pagar era de mais que o dobro do valor do que havia dentro da caixa, um belo tabuleiro de xadrez. Decidimos que eu não retiraria o presente. Apenas deixaria a caixa voltar para os Estados Unidos e a pegaria quando fosse para Silver City. Era essa caixa que estávamos vendo de dentro do carro. Sua viagem de volta de Porto Alegre até os EUA levou mais de seis meses.
__Vocês conseguem imaginar uma coisa dessas funcionando no Brasil? Os Correios deixando uma caixa com presentes caros na calçada da sua casa, na certeza de que nenhum espertinho vai pegá-la durante o dia ou durante a noite? Parece piada, não é? Nem mesmo pessoas estão seguras nas calçadas brasileiras. O que dizer de caixas?
__Em Montana e em Silver City, a certeza da honestidade é tão forte quanto a certeza da impunidade no Brasil. Da mesma forma que para nós já é ridícula a imagem de um senador sendo cassado, para eles é ridícula a imagem de alguém escondendo produtos de mercado numa sacola, ou roubando caixas que ficam nas calçadas dos seus donos.
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__Rua de Silver City. Casas sem grades e encomendas deixadas nas calçadas pelo serviço postal.
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__Eddy e Darlene Rinker, minhas amizades mais preciosas, pessoas para se ter no fundo do coração por toda a vida. Vocês sabem o quanto eu amo vocês. Bom seria se os cidadãos de todo o mundo tivessem a chance de conhecê-los antes de julgar o povo do seu país.

6 comentários:

Darlene disse...

Thank you. You are very special to us and we hope you will be able to come back to visit us very soon. We will have so much fun!

Anônimo disse...

Será que em NY, ou qualquer outra cidade maior dos EUA, sua caixa ficaria segura? Minha cidade tem 12 mil habitantes em MG (Silver City tem pouco mais de 10 mil) e muito provável que vc não teria problemas!
Não confunda alhos com bugalhos...

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Recomendo a releitura do post. Não disse que a coisa funciona assim em NY e nas cidades grandes.

Wallax disse...

Complicado o comentário de alguém anônimo. Como se dar crédito a isso?

Mas então, eu conheço diversas cidadezinhas de interior, inclusive tendo morado em algumas e não vejo realmente esse tipo de conduta.

Pesquisa na Época Negócios deste mês mostra que apenas 3% dos Brasileiros confiam uns nos outros.

Uma tristeza, talvez todos esses 3% morem na cidade do anônimo.

Fabiane Ferraz disse...

Oi, estou pesquisando empresas pra mandar uma caixa nesse Natal e me deparei com o seu blog.
Te digo, voce tem muita sorte que sua caixa ter chegado e voltado. Ja mandei 3 que foram roubadas na maior cara-de-pau la em Sao Paulo. Junto com a minha mais de 67.000 caixas foram roubadas e os responsaveis estao impunes.
Continue com a boa-sorte.
See ya.

Maria Lindaura disse...

Eu acredito na veracidade dos fatos,vc não iria perder seu precioso tempo com mentirinhas tolas.Ah,quem sabe um dia o nosso querido oaís caminha pra essa tranquilidade e paz.