sexta-feira, 25 de maio de 2007

O maior frio da minha vida IV

__Aquele dia poderia ser o fim da minha luta por um segundo emprego. A colega Laura do Ticket Sales trabalhava também no Hungry Moose e me indicara para a sua chefe. Eu só precisava aparecer lá às 7:30 da manhã, entregar um formulário preenchido e falar com a gerente geral. O primeiro ônibus passava no Golden Eagle às 7:10 e levava menos de cinco minutos até o meu possível novo empregador.
__A noite anterior fora dura. Eu geralmente dormia sem camisa no meu quarto, mas não daquela vez. O aquecedor estava na potência máxima e, ainda assim, eu acordara durante toda a madrugada sentindo frio.
__Esperei pelo ônibus na frente do alojamento com outros trabalhadores. Desde que eu chegara em Big Sky, aquele ônibus nunca atrasara. Mas já era 7:20 e nada do motorista. Eu já estava planejando o que fazer para complicar a vida dele ao extremo e me vingar.
__Uma peruana ligou para a empresa que cuida do transporte da cidade. Disseram para ela que nenhum dos ônibus da cidade estava funcionando. O que acontecia era que estava tão frio que os motoristas não conseguiam dar a partida nas máquinas. Então eu estava perdendo meu novo emprego não por causa do motorista, mas por causa de um problema extremamente comum: absolutamente todos os ônibus da cidade pararam de funcionar ao mesmo tempo.
__Às 7:30, hora exata em que eu deveria estar conversando com a gerente geral do Hungry Moose, eu estava colocando meu pé na estrada para tentar a caminhada de vinte minutos até lá. Dizem que quando estamos chateados com alguma coisa, devemos refletir sobre quantas pessoas já passaram pela mesma situação. Fiz um esforço profundo para pensar em quantos conhecidos meus perderam uma entrevista de emprego porque o transporte público simplesmente pifou por completo, mas não me lembrei de nenhum. Portanto, eu tinha todo o direito de ficar puto e pronunciar em alto e bom som todos os palavrões que um ser humano é capaz de armazenar na sua invejável memória.
__Andei até a metade do caminho apreciando a temperatura que impedia os coletivos de andar. Fechei rapidamente os olhos para encarar o vento e, depois de uma dor que tomou conta da minha cabeça, não consegui abri-los. É que as pálpebras estavam congeladas. Tive que segurá-las com os dedos e esfregá-las para desgrudá-las.
__Um carro dirigido por uma alma caridosa parou na minha frente. Fui até a porta do motorista.
__-Get in! (entre).
__Quando eu já estava dentro do carro, o senhor de uns quarenta anos que o dirigia falou, louco da vida:
__-Como é que ninguém te deu uma carona até agora? Você é um ser humano! Como é que as pessoas não param o carro? Olha isso!
__Ele apontou para o termômetro, que mostrava 36 graus Celcius negativos. Ele me disse que, durante a noite, tivéramos 41 graus Celcius negativos.
__Chegando no Hungry Moose, a Laura me disse que a gerente não havia aparecido e nem estaria lá ao longo do dia. Eu deveria tentar uma entrevista ao longo da semana. Todo o meu emputecimento fora em vão.
__Saí do mercado para esperar um ônibus, uma carona ou o que fosse, mas nada aparecia. O frio apertou, as pálpebras congelaram novamente e os pés doeram mais do que em toda a série "O maior frio da minha vida".
__Resolvi tentar uma carona para o trabalho andando na estrada, assim como conseguira a primeira. Enquanto eu caminhava, ouvi uma buzina e vi um carro parar. Uma cabeça saiu da janela do carro. Era a cabeça do Dan.
__Entrei no carro. O Dan sentava ao lado do motorista e me falou:
__-Renan, quantas vezes eu vou ter que salvar a sua bunda? Suas sobrancelhas estão congeladas, e os seus olhos... a sua cara está branca! Você estava congelando!
__Cocei a minha bochecha, que eu mal sentia. Conforme eu coçava, gelo descolava do meu rosto e caia no chão. A minha cara estava realmente sendo congelada enquanto eu estava andando na estrada.
__Cheguei no Ticket Sales. Ninguém estava vendendo ingressos, pois o resort não pode deixar as pessoas esquiarem na temperatura que estávamos vivendo na montanha: 46 graus Celcius negativos. Para cada cliente que se aproximava da minha janela eu deveria explicar que só venderíamos ingressos quando o clima esquentasse. A Karlão resolveu limpar a sua janela, que estava um pouco empoeirada. Então ela espirrou um produto de limpeza no seu vidro. O líquido congelou instantaneamente.

2 comentários:

Rojane disse...

"muitos risos".
Renan, quem te conhece é que sabe, tu vais ter que fazer é um filme sobre "as coisas deram certo na minha vida, mas eu sei aque custo".
Olha oque tu conseguiu fazer filho!!! tu conseguiu simplesmente parar a condução de uma cidade inteira......
Quando tu estiver no céu, pergunte o porque de tudo isso!!!
kakakakakak demais mesmo!!!!
Só faltava os 46 gráus Celcius negativos terem sido a menor temperatura atingida no local.

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Exatamente, loirinha!
-46 foi a temperatura mais baixa do ano!