terça-feira, 15 de maio de 2007

O maior frio da minha vida II

__Esse post é continuação do post "O maior frio da minha vida".
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__O resort estava parado no dia 10 de janeiro, pois os estudantes estavam voltando às aulas. Quando havia poucos skiers, ninguém me chamava para trabalhar checando ingressos no frio. Na manhã daquele dia, eu já sabia que o resort estaria calmo e saí de casa sem grandes proteções: bota impermeável, calça térmica, calça de moleton, calça jeans, camiseta térmica, camiseta de manga comprida, duas blusas de lã e uma jaqueta de couro.
__O expediente no Ticket Sales foi uma vagabundagem. Às dez horas, ninguém mais queria comprar ingressos. Já era quase hora de ir embora quando o Miguel me disse:
__-Renan, vai lá no Pinnacle hoje. Eles estão contratando.
__Eu vinha procurando por um segundo emprego já fazia umas duas semanas. O Miguel fora no restaurante Pinnacle durante a manhã e o entrevistador lhe dissera que ele precisaria de mais empregados.
__O Pinnacle era um restaurante que ficava em cima de uma montanha. A única forma de se chegar lá durante o dia era pegando um teleférico.
__Saí do trabalho e fui direto para o teleférico. Chegando ao topo, eu era o único ser vivo sem esquis. Andei até o restaurante e pedi para falar com alguém do departamento de recursos humanos. Um rapaz apareceu, conversou comigo sobre meus horários no Ticket Sales e então me disse o que eu deveria fazer para conseguir a vaga: ir até o resort Spanish Peaks e falar com um senhor chamado Robert Jinny.
__Ok! Havia subido a montanha à toa. O Miguel deve ter tido a sorte de conversar com alguma outra pessoa que lhe complicou menos a vida. Só me restava descer e dar um jeito de ir ao Spanish Peaks, para onde não havia nenhum ônibus.
__Antes de voltar para a base da montanha, entrei na cabine da operadora do teleférico para lhe dizer que eu iria descer. É que não é permitido se descer a montanha pelo teleférico. As pessoas obrigatoriamente têm que descer a montanha esquiando.
__-Colega, eu sou empregado do Big Sky e tive que subir aqui para fazer uma entrevista no Pinnacle. Estou sem esquis. Vou descer pelo teleférico, ok?
__-Você não pode descer de teleférico agora.
__-Por que não?
__-Só depois das quatro da tarde.
__-Eu sou empregado do Big Sky e já desci de teleférico antes. Por que não posso descer agora?
__-É a norma.
__-Mas eu só subi para ir rapidinho no restaurante.
__-Mesmo assim. Eles estão proibindo os empregados de descer pelo teleférico porque o teleférico é para os clientes e não para os empregados.
__-Tem certeza que vão me deixar descer depois das quatro?
__-Sim, eu prometo.
__Eram três da tarde. Quando eu subira a montanha ninguém me avisara que eu não poderia descer. Agora eu deveria desfrutar o delicioso prazer de ficar ali parado por uma hora, vendo as cadeiras do teleférico descendo vazias para a base da montanha.
__Voltei ao restaurante para esperar sentado. De repente, o céu ficou preto. O vento fazia um barulho alto. A neve caía do céu, mas também vinha dos lados e de baixo, pois o vento a levantava do chão. A coisa só piorou até o relógio mostrar quatro horas.
__Do caminho do restaurante até o teleférico eu quase congelei. O vento me empurrava com tudo para o lado. Entrei na cabine da operadora e pedi para descer, e ela me disse que eu deveria esperar pela cadeira 29. Eu estava sentindo muito frio, mesmo ali dentro da cabine aquecida. Três empregados do Pinnacle apareceram para descer de teleférico também. Eles batiam papo enquanto eu começava novamente naquele processo de sofrer o frio com a alma.
__Quando eu saí da cabine para pegar a maldita cadeira 29 que havia chegado, um vento bateu e eu senti o maior frio da minha vida (eu sei que já disse isso antes). A neve que caía era grossa. Cada floco tinha o tamanho de uma moeda.
__Todos os três que se sentaram na cadeira comigo estavam com jaqueta especial de esqui, menos eu. Todos estavam com calça especial de esqui, menos eu. Todos estavam com óculos especial de esqui, menos eu. Todos estavam com luvas, menos eu. Todos estavam de capuz, menos eu.
__Um dos colegas disse:
__-Meu Deus! Nunca senti tanto frio!
__Queria que ele soubesse como era sentir aquele frio com as roupas que eu vestia.
__O vento só aumentava. Aquela viagem até a base da montanha levaria pelo menos seis minutos. O mais preparado dos colegas me passou um capuz e disse:
__-Vista isso.
__-Obrigado.
__Aquele capuz servia para proteger a parte de cima da cabeça. Mas eu puxei o capuz até o queixo. Os colegas do lado disseram:
__-Boa idéia! Vamos fazer isso.
__O rapaz que me emprestou o capuz disse:
__-Isso. Vocês não vão enchergar nada, mas eu aviso vocês quando chegarmos.
__Na última vez que eu tivera que descer de teleférico, eu sentira tanto frio que eu começara a pular e gritar na cadeira. Os meus companheiros estavam fazendo exatamente isso agora. Mas eles estavam com roupas especiais e eu estava com a minha roupa de todos os dias. O frio e a dor que eu sentia em cada parte do meu corpo eram tão fortes que eu já não conseguia nem gritar, nem pular. Eu sentia que estava ficando louco. Quando o vento acalmava um pouco, eu desejava ardentemente que parasse por completo. Então vinha uma rajada que nos pegava de frente. Os companheiros gritavam e eu pensava que ia morrer.
__Depois de uma eternidade, o rapaz que não havia escondido os olhos com o capuz disse:
__-Pessoal, estamos chegando. Tirem o capuz.
__Coloquei a mão no meu capuz. Puxei-o para cima, mas ele pareceu não se mexer. Puxei com mais força e nada. Comecei a puxá-lo repetidamente, cada vez com mais força, mas era inútil. Então eu percebi que não era o capuz que eu estava segurando, e sim algo mole. Aquilo era uma borracha macia colada na minha cabeça. Continuei tentando puxar, mas de nada adiantava.
__Já devíamos estar quase no chão e eu ainda não enxergava nada. Só quando eu soltei a coisa mole que estava segurando eu entendi o que acontecia. Eu não estava segurando o capuz, e sim a pele do meu pescoço! Eu enfiara as unhas na minha própria pele e não sentira nada. Eu passara o tempo todo tentando arrancar meu papo.
__Finalmente tirei o capuz. Quando pisei no chão, vi à minha frente uma fogueira a trinta metros e o shopping a vinte metros. Resolvi correr até o shopping ao invés de correr até a fogueira, que, obviamente, seria mais útil para me aquecer. É que para chegar até ela eu precisaria passar mais uns três segundos no frio, o que eu não estava disposto a fazer.
__Uma vez no shopping, corri para o banheiro. Lá dentro, coloquei as mãos debaixo do ar quente onde se seca as mãos. Só depois de uns vinte segundos eu fui capaz de gritar de novo e de falar todos os palavrões que eu conhecia.
__Agora eu estava me sentindo como na primeira vez que tive que descer a montanha, quando gritava e pulava de dor. Parecia que eu tinha brasas circulando dentro das minhas mãos e que eu estava pisando numa chapa quente. Lá estava eu pulando, gemendo e me debatendo novamente. Mas essa sensação ainda era muito melhor do que a que eu sentira há um minuto no teleférico, quando a dor era tanta que eu nem podia gritar.

2 comentários:

mamainnnnnnnnnnnn disse...

Impressionante...
É impossivel imaginarmos tudo isso.
Parece inacreditável nos tocarmos e não sentir.
Realmente chocante Renan.
Como tudo para ti é sempre complicado, claro que os funcionarios apartir daquele dia não poderiam descer antes das 4:00 da tarde, claro que tu ias ficar lá encima esperando por uma hora, claro que o entrevistador não iria estar lá, obvio que armaria uma tempestade, tranquilamente que tu nem capuz teria, principalmente naquele dia, o dia de uma nevasca ...
...ai meu anjo!!!!

Lipee disse...

hahahahaha


essa minha idea de ficar de lift acho que ta indo pro saco!


=P

mas engraçada a historia, agora que ja passou

abraço renan.