quinta-feira, 10 de maio de 2007

Jeitinhos internacionais

__A razão pela qual os personagens das histórias a seguir não foram identificados foi explicada no post_Identidades Protegidas.


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Jeitinho peruano

__Eu estava tomando café da manhã com o Dan na cafeteria quando uma peruana sentou entre eu e ele e falou:
__-Dan, você conhece alguém que trabalha no Ticket Sales?
__Essa guria obviamente não era uma profissional do ramo dos jeitinhos. Eu já estava rindo da sua fala decorada e achei mais graça ainda na expressão falsa de surpresa no seu rosto quando o Dan respondeu:
__-O Renan trabalha no Ticket Sales! Esse cara aqui, ó.
__Ela tentou me olhar como se nunca tivesse me visto no resort durante todo o mês em que eu já trabalhara lá.
__-Você trabalha no Ticket Sales?
__Fiz que sim com a cabeça.
__-Putz! Que legal! Você me consegue uns ingressos de graça?
__Fiz que não com a cabeça.

Jeitinho colombiano

__Eu estava trabalhando como Front Desk num hotel chamado Mountain Inn. Eu ficava na bancada de recepção do hotel, efetuando os pagamentos dos hóspedes, esclarecendo suas dúvidas e fazendo reservas pessoalmente ou por telefone. Um dos camareiros desse hotel era colombiano, e veio falar comigo quando não havia ninguém por perto.
__-Renan, vou te pedir uma coisa e você não pode dizer não.
__-Ok.
__-Você separa um quarto para eu dormir com uma mulher aqui de noite, sem minha chefe saber?
__-Não.
__-Please, Buddy!
__-Não. Sem chances.
__-Por quê?
__-Porque não tem como.
__-Por que não?
__-Porque não.
__-Eu sou camareiro. Eu limpo o quarto no dia seguinte e ninguém vai saber.
__-Não.

Jeitinho chileno

__Eu estava morto de cansado. Há mais de sete dias eu trabalhava todas as manhãs e noites. Eu apreciava depois de um bom tempo o prazer de descer a montanha, chegar no Golden Eagle ao anoitecer, caminhar até o meu quarto com o vento me empurrando, para finalmente passar pela porta, tomar meu banho, comer uma porcaria qualquer e me jogar na cama.
__Meu trajeto de prazer terminou do lado de fora do quarto. A porta estava trancada. Há duas semanas o Dan perdera a sua chave. Ele jurava que não tinha perdido a minha chave também, mas a última vez que a vira fora com ele.
__As portas dos alojamentos podem ser trancadas sem necessidade de chave. Para isso, basta pressionar um botão da maçaneta antes de se sair do quarto. Não adiantaria esperar pelo Dan para resolver o problema, já que ele não tinha a chave. Fui ao escritório do gerente do Golden Eagle, que estava vazio. Bati na porta do quarto onde ele morava e falei com seu colega de quarto, que não sabia onde o gerente estava. Resolvi me abrigar um pouco no quarto de um colega chileno, pois o frio já estava demais para mim.
__-Colega, me ferrei! Estou trancado do lado de fora. Me dá uma dica.
__Ele me contou de um morador que conseguia abrir sua porta com um cartão. Tentei sem sucesso fazer a mesma coisa na porta do meu quarto. Mas de jeito nenhum deixaria de descansar na minha cama depois de uma semana de sufoco.
__Voltei ao quarto do chileno.
__-Colega, me empresta uma faca.
__Ele me emprestou uma dessas facas de cortar pão. Com ela, eu mataria o Dan, o gerente do Golden Eagle e depois cortaria os pulsos.
__Brincadeirinha! Eu não cortaria os pulsos depois de mais de sete dias de trabalho duro, ou eu não poderia curtir a minha cama! No máximo eu mataria o Dan e o gerente do Golden Eagle.
__Fui com a faca até a frente da janela do meu quarto. Coloquei a faca no chão e enfiei minhas unhas no pescoço do Dan... digo, no milimétrico espaço entre a madeira que protegia o vidro da janela e a parede. Puxei com força até conseguir um espaço maior para colocar quatro dedos entre a parede e a madeira. Puxava-a, depois empurrava-a e voltava a puxá-la, até ouvir um estalo, que bem poderia ser o som do pescoço do Dan quebrando, mas era o som da madeira quebrando e se descolando da dobradiça. Agora, para entrar no quarto eu só precisaria cortar a tela protetora contra insetos. Peguei a faca e, antes de fazer um buraco na tela, vi que a faca estava vermelha. No chão havia uma círculo de sangue do tamanho de uma tampa de lata de achocolatado. Infelizmente, não era o sangue do Dan! O corte era no meu dedo, feito não com a faca, mas com uma lasca de madeira da janela. Fiz um furo na tela e entrei no quarto. Destranquei a porta e voltei para o quarto do chileno.
__-Colega, desculpa. Não vou poder te devolver a faca. Ela está ensangüentada.
__-Não esquenta não. Eu roubo outra amanhã.
__Ele e seu colega de quarto, também chileno, caíram na risada.
__-Quer dizer que você rouba facas, é?
__-Não só facas.
__Ele apontou com a cabeça para a pia. Copos, panelas e talheres, todos roubados do restaurante onde ele trabalhava. No seu rosto, aquela cara de Gérson.

Jeitinho argentino

__Bellmen são os empregados dos hotéis responsáveis por transportar as bagagens dos hóspedes, além de lhes dar carona quando pedirem. Para poder levar as malas dos hóspedes aos seus respectivos quartos, os bellmen carregam consigo chaves mestras, que dão acesso a qualquer quarto.
__Só conheci um bellman que não era americano. Ele era argentino, e começou a trabalhar como bellman no meio do inverno. O emprego não durou muito. Foi demitido depois de ser pego roubando pertences dos quartos dos hóspedes.

Jeitinho indonésio

__Sento ao lado de um conhecido indonésio no ônibus para o resort.
__-Renan, eu preciso te pedir uma coisa.
__Que colega bacana! Sempre sorrindo para todo mundo, tratando todos com respeito e simpatia. Era o carisma em pessoa. Os colegas poderiam se mostrar menos dignos de confiança do que aparentavam no começo do intercâmbio, mas este seria sempre o bom honesto que sobra para dar esperanças aos que acham que o mundo ainda tem jeito.
__-Yeah, dude (sim, cara)!
__-Preciso que você consiga uns ingressos grátis para mim no Ticket Sales.
__Colega desgraçado, sem vergonha, filho da puta!
__-Hum.
__-Mas eu não quero ir lá pegar na sua janela, porque vão me descobrir. Então você imprime o ingresso e a gente combina uma hora para você me entregar lá no banheiro.
__Essa era a minha maior decepção entre os conhecidos até então. Aquele colega, que todos os dias parava de fazer o que estava fazendo para rezar três vezes voltado para Meca, e que nunca começava uma refeição sem agradecer ao seu deus pelo alimento, sempre atencioso e prestativo com todos, agora me pedia que eu descolasse um ingresso por fora e ainda fosse lhe entregar no banheiro, sendo que ele tinha direito a esquiar de graça, contanto que pagasse um depósito reembolsável de 200 dólares.
__-Por que você não paga o depósito? Você é empregado e pode esquisar de graça.
__-Não, não! Eu não quero pagar.
__Não quis lhe dar uma lição de moral na frente de todo mundo no ônibus. Resolvi que esperaria até chegarmos no resort para lhe dar a minha resposta.
__Chegamos na primeira parada do resort, onde ele sempre descia. Eu geralmente descia na segunda, mas, dessa vez, desci com ele na primeira e entramos no corredor do resort que levava ao lobby do hotel. Enquanto andávamos, comecei a conversa:
__-Colega, não vou poder te dar o ingresso.
__-Ué? Por que não?
__-São os meus valores.
__-It's ok. Don't worry, man.
__-Te vejo aí.
__-Bye.
__Ele entrou na sala onde trabalhava, enquanto eu segui para o Ticket Sales. Ele continuava com aquele olhar carismático no rosto, que estava sempre lá entre cada conversa, cada reza e, agora eu sabia, entre cada falcatrua.

Jeitinho brasileiro

__Não tenho nenhuma história sobre jeitinho brasileiro para contar. O povo brasileiro é um povo que não rouba e não deixa roubar. O jeitinho é algo que nunca foi nem nunca será tolerado na terra da ordem e do progresso.




Jeitinho americano

__Os americanos foram as pessoas com quem mais convivi no resort. Por isso, há várias histórias de jeitinho para se contar a respeito deles e elas serão reunidas nos posts que estão por vir.

Um comentário:

Rojane disse...

Incrível, tu viu que em termos de "jeitinho", os POVOS se tornam iguais?
O que faz a diferença são algumas pessoas(creio que também em todos os lugares).