terça-feira, 8 de maio de 2007

Devo visitar o Brasil?

__Eu trabalhava checando ingressos em algum dia de janeiro quando um skier me perguntou, em inglês:
__-De onde você é?
__Eu ainda não havia pedido pelo seu ingresso, nem falara com qualquer pessoa próxima a ele. Portanto, não fora pelo sotaque que ele percebera que eu era estrangeiro.
__-Como você sabe que eu não sou daqui?
__-Na verdade, eu não sabia que você não era daqui. Só quis começar uma conversa.
__-Ah... ok. Eu sou do Brasil.
__-Eu queria visitar o Brasil, mas está tudo muito violento por lá.
__-É verdade. Está mesmo.
__-E aí? Você acha que eu devo ir ao Brasil ou não?
__Viver uma rotina de paz foi uma das melhores partes da minha experiência como intercambista. Poder pegar o ônibus a qualquer hora e em qualquer lugar, chegar em casa a qualquer momento da noite, caminhar pela rua na maior escuridão, não precisar trancar a porta do alojamento... eu vivia a rotina que sonho que o Brasil possa ter um dia.
__Correr riscos tão altos de se perder a vida na mão de um assaltante sempre foi o que pesou mais nas minhas reflexões sobre sair definitivamente do Brasil. Disciplina pode atenuar muitos dos problemas com que os brasileiros convivem: adotar uma dieta saudável e exercitar-se regularmente pode evitar ter que enfrentar uma fila de hospital público; estudar muito pode garantir uma vaga numa universidade pública de qualidade; poupar pode garantir recursos para uma aposentadoria tranqüila e independente da miséria paga pelo INSS, ou pode resultar num bom capital inicial para quem não tem alternativa a não ser abrir um negócio depois de perder o emprego. Esses são todos problemas que acreditamos poder resolver com esforço e trabalho duro. Mas o que se pode fazer para se sentir seguro quanto à vida? Latrocínios acontecem dentro dos ônibus, dos bancos, na frente das universidades e das escolas. Bandidos pulam portões e arrombam portas de casas, invadem prédios e fazem dezenas de reféns dentro de seus apartamentos, atiram em policiais dentro de shopping centers. O Brasil é o país onde nasceu o seqüestro-relâmpago, o arrastão e onde o clima de medo tornou o cidadão vulnerável a um golpe tão grosseiro como o disque-seqüestro. E agora aquele americano preocupado com a violência brasileira me perguntava se era uma boa idéia visitar o meu país. Poderia eu dizer a ele que sim? Eu, que tantas vezes pensei em abandonar meu país por causa do perigo de se andar pelas ruas, mesmo que de dia? Respondi:
__-Não. Não visite o Brasil.
__O americano caiu na risada e pegou o teleférico. Meu colega de trabalho estava a alguns metros de mim, mas ouvira toda a conversa.
__-Renan, você está louco? Você confirma o que o cara diz! Não é tão perigoso assim. Você tem que fazer uma imagem boa do seu país.
__-Não. Tenho que dizer a verdade.
__Tenho que ser honesto ao descrever o meu país, mas não passei a imagem correta àquele americano. Mais de 3 milhões de estrangeiros visitam o Brasil anualmente e voltam inteiros aos seus países. Assim como acontecia com assaltos a brasileiros no passado, assaltos a turistas ainda aparecem nos noticiários, justamente por não serem tão freqüentes assim. Disse o que disse àquele americano por estar confuso ao viver num dos cantos mais seguros do mundo após ter vivido num dos cantos mais perigosos do mundo. O que lhe fazia ter medo de visitar o Brasil era justamente o que me faz ter medo de ficar no Brasil, e eu falhei em ser racional na hora de responder sua pergunta.
__Nos meses seguintes, quando me perguntaram se seria muito perigoso visitar o Brasil, respondi:
__-Você precisa saber aonde vai. Peça dicas aos guias locais para saber aonde você pode ir e aonde você não pode ir, e em quais horários. De preferência, tenha um amigo brasileiro com você, e não use relógios caros, roupas caras e brincos caros.
__É assim que vivo minha vida no Brasil. Ando atentamente e sem pertences pelas ruas. Sei em quais lugares eu posso andar com certa tranqüilidade, mas sempre com uma mão protegendo a carteira. Sei em quais lugares devo passar correndo e somente em caso de extrema necessidade, e sei em quais lugares não posso estar em hipótese alguma. Só depois de aconselhar muitos americanos a procederem dessa forma é que fui pensar em quantos brasileiros podem ter sido vítimas da violência tomando esses mesmos cuidados. Quantos seriam? Nenhum, dezenas, centenas ou milhares?
__Se algum dia um estrangeiro lhe perguntar se ele deve visitar o Brasil, lembrar-se deste meu conto pode ser útil para se encontrar uma boa resposta. Lembre-se das precauções que eu tomo para chegar em casa vivo todos os dias, e então procure saber se eu ainda vivo ou se já fui vítima da violência desse país.

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Esse texto também pode ser lido no Recanto das Letras.

4 comentários:

mamainnnnR disse...

Eu sei de ti desde o princípio.
Parabéns filho!
Te amo.

Anônimo disse...

E o post sobre as drôgas, hein? Esqueceu não, né? Estou querendo ir, mas estou meio com medo, porque ouvi que rola muito por aí, e eu nem curto essas coisas.

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Não esqueci do post sobre as drogas não! Provavelmente aparecerá nos próximos 5 dias. É que eu conto os acontecimentos na ordem em que aconteceram.
_Fica de olho que está vindo aí.

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto.
Fiz um comentário lá no violência não (do orkut) antes mesmo de lê-lo e acho que nossas idéias partiram de um pensamento parecido.
Abraço e boa sorte.