terça-feira, 24 de abril de 2007

Motoristas doidos

__No post Bozeman - Parte III, falei do mórmom americano que falou em espanhol comigo antes de eu entrar no ônibus que ia de Bozeman para Big Sky.
__Naquele dia ele era um passageiro, mas na noite do dia 7 de janeiro ele era o motorista que levava os intercambistas do resort para o Golden Eagle. Quando ele era só um passageiro amigável que lia o livro Freakonomics no ônibus que vinha de Bozeman, eu nunca imaginaria que ele poderia ser a figura que vi quando entrei no ônibus para descer a montanha: jaqueta preta, bandana na cabeça e cara de mal. Na hora de o ônibus partir, ele se levantou do seu assento e foi para o meio do corredor:
__-Senhoras e senhores, meu nome é Chealsy e sou o motorista desse ônibus que vai para o Meadow Village e não pára no Moonlight Basin. Se alguém quer ir para o Moonlight, o próximo ônibus para lá estará aqui em alguns minutos. Nos vemos lá embaixo. O Rock and Roll já vai começar!
__Ele voltou ao volante e ligou o som bem alto. Mais ou menos no meio do caminho, a rádio começou a tocar Smell Like a Teen Spirit do Nirvana. Ele levou a rádio ao último volume e começou a chacoalhar a cabeça para frente e para trás.
__Certa manhã, ele era o motorista do ônibus que ia do Golden Eagle para o resort. Ele esperou todos entrarem no ônibus e disse:
__-Essa é para os meus amigos latinos!
__Ele ergueu o som, que tocava música latina, e ficou chacolhando a cabeça e fazendo cara de prazer.

Golden Eagle visto de cima do morro

__Chealsy mostrava já no começo das viagens de ônibus que era um cara barulhento. Bem diferente era o motorista cujo nome não sei, mas que vou chamar de “bigode”. Ele era um senhor com quase sessenta anos, muito simpático com os trabalhadores que entravam no ônibus na hora certa. Já para o pessoal atrasado que vinha correndo e gritando para o ônibus esperar só mais um pouquinho, ele dizia fazendo cara feia:
__-Você deveria acordar mais cedo!
__Uma vez que todos os intercambistas estavam no ônibus das 7:15 da manhã para o resort, ele tocava o ônibus todo alegre, com um sorrisão no rosto e, algumas vezes, assobiando. Nos últimos bancos do transporte as pessoas iam dormindo deitadas. Nos bancos mais à frente as pessoas iam sentadas, mas também dormiam. Então, sem mais nem menos, o bigode ligava o som no máximo volume, fazendo todo mundo tomar um susto e ficar sem entender o que estava acontecendo. Na primeira vez em que vi o cara fazer isso, a rádio informava a previsão do tempo. Na segunda vez, o bigode só estava querendo ouvir uma música do Nickelback. Quase todo santo dia ele surpreendia os passageiros ligando o som na potência máxima no meio da viagem, de modo que nem o colega ao lado podia ser ouvido. Certa vez, alguém gritou do fundo do ônibus:
__-Abaixe o volume!
__Quando estávamos quase chegando no resort, o bigode gritou:
__-Hey! O garoto que me mandou abaixar o volume, espere sentado até todo mundo sair do ônibus. Quero falar com você.

Ônibus parando na frente do resort.

__Adoraria saber o que foi que o bigode disse para o garoto.
__Dias mais tarde, quando ele parou o ônibus na frente do resort, ele não abriu a porta para os intercambistas descerem. Começou a gritar, louco da vida:
__-Eu não agüento mais falar isso! Quando vocês, senhores, virem alguma madame de pé no ônibus, façam o favor de ceder o seu lugar! Sejam pelo menos um pouco cavaleiros!
__Depois disso, ele abriu a porta do ônibus e disse “bom dia” gentilmente a cada um dos que desceram.
__João foi um dos caras que conseguiu bater um papo com o bigode. E adivinhem sobre o que o bigode gostava de conversar? Filosofia!

João, olhando profundamente para a batata Pringles e filosofando sobre ela.

__Tinha também o motorista que parava o ônibus duas vezes no caminho até a montanha para fumar e que, certa noite, apareceu no resort gritando, bêbado, com uma garrafa na mão. Dirigiu o ônibus só durante dezembro e janeiro. Não o vi depois disso.
__Havia também a motorista que gostava de ouvir música clássica. Era uma senhora de uns cinqüenta anos que foi minha motorista preferida até ela cometer uma barbeiragem ao me levar de ônibus para o resort. No meio do caminho, os motoristas paravam na frente de um lugar chamado Lone Mountain Ranch. Lá desciam alguns passageiros e subiam outros. Quando ela já estava deixando o lugar em direção ao resort, uma mulher que sentava no fundo do ônibus gritou uma pergunta. A motorista se virou para trás para responder a pergunta da mulher, mas resolveu continuar dirigindo o ônibus enquanto olhava para trás. Estávamos numa descida. Na nossa frente, uma pedestre tentava atravessar a rua. Em Big Sky e em Bozeman, os pedestres esperam que os motoristas dêem preferência para os que estão atravessando a rua, e nunca esperam que eles dirijam olhando para trás.
__Quando a motorista resolveu olhar para frente, já estava quase encima da moça. Felizmente, todos sobreviveram.
__Por último, tenho que falar da motorista de Porto Alegre. Sim, Porto Alegre de novo! Mora nos EUA há trinta anos e mal consegue falar português. Sempre que tenta, não pode conjugar os verbos corretamente. Perguntei certa vez para ela:
__-Quer dizer que você é de Porto Alegre?
__-É. Mas já estar aqui muito tempo. Português é difícil.
__-Você nunca voltou para lá?
__-Nunca voltou.

Motorista de Porto Alegre que mora nos EUA há trinta anos e já não consegue falar português.

Um comentário:

Rojane disse...

Uaaaaaaauuuuuuuuuuuuuu!!!
que legal, o bom e velho Renan esta devolta.....
Adorei o post de hoje e te digo ainda que mesmo longo, quando cheguei ao fim, fiquei com gostinho de quero maissssssss....