sábado, 17 de março de 2007

Identificando um estrangeiro

__No dia 29 de dezembro, mesmo dia em que o Miguel não conseguiu contar o dinheiro por não sentir as mãos, o Jan apareceu e nos perguntou:
__-Alguém quer scanear lá fora?
__Aquele era, provavelmente, o dia mais frio desde o começo do inverno. Não seria fácil trabalhar do lado de fora, com aquele vento e aquela temperatura. Mas seriam 7.25 dólares a mais e...
__-Eu vou!
__Na primeira hora de trabalho, eu checava o ingresso de um senhor quando ele me perguntou:
__-Você é do Brasil?
__Há alguns dias eu vinha tentando achar um jeito de descobrir o país de um desconhecido. Observava as pessoas de uma mesma nacionalidade e buscava identificar traços que sempre se repetissem. Consegui notar que os argentinos não costumam usar cabelo curto e que muitos peruanos têm a pele parda. Eu também tentara perceber o que os brasileiros tinham de peculiar, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Esperava descobrir aqui em Big Sky um jeito de se identificar alguém do Brasil. E, agora, este senhor estava me dando a chance de saber que jeito era esse. Como é que ele sabia que eu sou brasileiro?
__-Como você sabe?
__-Você me falou ontem.
__Ele e a sua esposa começaram a rir. Então eu disse:
__-Você deveria ter dito que leva jeito para adivinhar os países dos estrangeiros. Eu teria acreditado.

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__Às vezes, termino de conversar com um colega de qualquer país e pergunto para o Dan:
__-Você sabe de onde é esse cara com quem eu estava conversando?
__-Parece ser americano.
__-Não. É brasileiro.
__Eu tinha a vontade de fazer o máximo de amigos americanos que eu pudesse quando chegasse nos EUA. Essa seria uma forma de aprofundar a experiência do intercâmbio, da inserção numa cultura diferente. Assim, sempre tento puxar assunto com os americanos que estão por perto. Várias vezes, comecei a bater papo com colegas que esperavam o ônibus ou com skiers que esperavam pelo lift na fila, achando que estava conversando com americanos, para só depois descobrir que estava falando com chilenos, peruanos ou brasileiros que tinham um ótimo domínio da língua. Depois de um tempo morando por aqui, não se comete mais esse erro, pois torna-se fácil reconhecer a origem do sotaque. O fato é que nós somos mais parecidos com todos os latino-americanos e com os americanos do que acreditamos. Viajamos para outro país para encontrar diferenças e acabamos nos surpreendendo com o número de semelhanças. Eu já sabia que seria assim, mas continuo achando uma experiência enriquecedora conviver com gente de todo o mundo e notar que nosso humor e nosso comportamento são tão parecidos. Parece que somos separados pela língua e nada mais.

2 comentários:

mamain disse...

Oi filho!
Bacana a percepção de que apenas a lingua nos separa.
Um beijo e apertossss na tua bochecha!!!
Amo vc meu ANJO

Priscila Félix disse...

Também gostei da sua percepção!