quinta-feira, 29 de março de 2007

Dia de pagamento

__Dia 29/12 era payday (dia de pagamento), que ocorre a cada quinze dias. Na nossa folha são descontadas as refeições na cafeteria, moradia, um imposto estadual e um imposto federal. Os impostos totalizam aproximadamente 12% do pagamento, e o intercambista recebe o valor desses impostos de volta no mês de janeiro do ano seguinte.________Cafeteria
__
A folha dos intercambistas que chegaram na mesma data que eu e, portanto, não haviam trabalhado nem dez dias, não era algo animador. Descontados os impostos, restavam uns 270 dólares, dos quais ainda se descontavam uns 60 dólares de moradia e uns 20 dólares de refeição. Embora os 190 dólares restantes já representassem mais do que o salário mínimo brasileiro, e já estivéssemos livres de ter que pagar moradia, comida e transporte, que é gratuito, predominava um desânimo entre os colegas do Ticket Sales por sabermos que o que ganhávamos por hora e a quantidade de horas que trabalhávamos não seria suficiente para recuperar o valor investido no programa.
__O pagamento mínimo por aqui é 7.25 dólares a hora, e é esse o valor que um trabalhador do Ticket Sales ganha. Meu roomate Dan dá aula de ski para crianças e ganha 11 dólares por hora, trabalhando 7 horas por dia. Além desse pagamento, ele ganha gorjeta dos pais de alguns de seus alunos no fim do dia. O total das gorjetas varia entre 5 e 70 dólares diários. Esses 70 dólares de gorjeta representa o que os trabalhadores do Ticket Sales conseguem juntar depois de três dias de trabalho.
__Lá pelas quatro horas da tarde, fui para a cafeteria comer alguma coisa. Lá estava o Dan, com o paycheck sobre a mesa, parecendo frustrado. Perguntei:
__-O que foi, Dan?
__-Olha esse paycheck! Terrível!
__Seu pagamento tinha sido mordido por uma porcentagem de impostos um pouco maior do que a minha. Porém, o que pesava mais naquela folha eram os descontos da cafeteria. Para não depender da cafeteria, onde um sanduíche de bacon com ovo custa 2.37 dólares, os estrangeiros vão para Bozeman sempre que podem, e então fazem compras no Wallmart. Voltam com sacolas carregadas e vivem o maior tempo possível com os enlatados comprados lá. Dan não gosta de ir para lá, pois seu carro consome muita gasolina. Digo-lhe que poderia ir de ônibus, já que o transporte de ida e volta é gratuito. Mas ele diz que é muito complicado trazer sacolas de lá no ônibus, e só vai se for de carro.
__-Merda! Ainda tenho que pôr gasolina no carro. Vou ficar sem nada!
__Dan vai a festas ou sai para beber várias noites na semana. Guardar dinheiro não é o seu forte. Quando está em casa durante a noite, ele fica me perguntando o que vamos fazer. Geralmente, quando ele me faz essa pergunta, estou lendo um livro.
__-Renan, o que vamos fazer?
__-Eu estou lendo, ué!
__-Eu odeio ler. Você deveria parar com isso, cara! É perda de tempo.
__Eu sei que essa frase dele soa um tanto forçada quando é escrita. Não é todo mundo que conhece pessoas que têm coragem de dizer isso sem o menor constrangimento. Parece até que esse diálogo foi tirado de um programa infantil de televisão, onde um menino mal tenta convencer um menino bom a seguir o caminho errado. Mas foi exatamente isso que ele disse.
__Na cidade de Big Sky, vendem-se livros até nos minimercados. Na verdade, os três minimercados da cidade têm sua estante de livros, sendo que um deles tem uma boa prateleira de livros usados sobre os mais variados temas. Mas Dan não é um representante dos consumidores desse produto. Certa vez, perguntei a ele:
__-Dan, você não vai fazer faculdade?
__-Não. Odeio estudar. Meu negócio é esquiar.

______Dan

__Saímos juntos da cafeteria e fomos a um hotel chamado Mountain Inn, a uns quatro minutos a pé dali. Ele queria checar seus e-mails e, nesse hotel, havia um computador de livre acesso para os hóspedes. Dan costumava usar esse computador uma ou duas vezes por semana. Embora ele não fosse hóspede, os trabalhadores do hotel não implicavam com ele.
__Esse hotel me pareceu bem mais luxuoso do que o Huntley, hotel do Big Sky Resort por onde eu sempre andava. A beleza e a classe daquele lugar me fizeram sentir um pouco de desconforto. Desde que chegara na cidade, desejava encontrar um segundo emprego para compensar o baixo pagamento do Ticket Sales. Pensei por um momento em tentar algo ali, mas desisti rapidamente da idéia. O resort, de propriedade do Boyne Resorts, estava disposto a contratar estrangeiros e lidar com os problemas que viessem da sua dificuldade com o Inglês. Mas este lugar, que não era propriedade do Boyne, parecia estar em outro patamar, e não me senti à vontade para tentar qualquer coisa por ali.
__Depois que o Dan usou o computador, ele telefonou para a sua família. Depois disso, o mau humor causado pelo pagamento se foi. Saímos do hotel e pegamos o ônibus para casa.
__Já no Golden Eagle, ele disse:
__-Hey, Renan! Hoje à noite, nós vamos comer.
__-Ué! Seu pagamento não tava mal?
__-Eu ganhei uma gorjeta hoje, e meus pais vão me mandar uma grana. Eu pago. Vamos comer.
__Pegamos seu carro e fomos a uma pequena lanchonete chamada Wrap Shack.

______Wrap Shack

__Lá, comemos algo parecido com a comida brasileira em termos de sabor, e somente de sabor. Era uma panqueca gigante que se come com a mão. O recheio era arroz, feijão, batata, verduras, tomate, frango e bacon.
__-Hey, Dan! De onde vem esse negócio?
__-Do México. Eles gostam de enrolar as comidas nesses negócios redondos.
__A panqueca era enorme.
__-Comida mexicana em tamanho americano, certo?
__-Exatamente.

________Wrap

3 comentários:

mamainnnnnnnn disse...

Que coisa louca esta panqueca gigante filho!!!
Que mistura mais doida!
Era bom?

Denilso de Lima disse...

Hey pal, how are things going?
I usually have some visitor coming to my blog from your weblog. Amazing, huh?
Take care... All the best to you!
http://denilsodelima.blogspot.com

ifox disse...

O cara é o legitimo Redneck... hahahaha. muito engraçado.