domingo, 4 de fevereiro de 2007

Um americano pronto para a guerra

__Resolvi que queria falar de política. Eu não tinha vocabulário para articular um assunto e chegar ao ponto principal começando pelas beiradas. Desci da minha cama e sentei no chão. Ele estava sentado na sua cama, comendo um sanduíche de manteiga de amendoim com geléia de uva.
__-Você gosta do Bush?
__Ele ficou pensando e mastigando.
__-Bem... eu acho que ele vai ser o nosso último bom presidente.
__-É mesmo?
__-Sim. Agora, a mulher do Clinton quer se candidatar. Ela quer tirar todas as armas de todos os cidadãos. Isso é impossível. Pra quê? Não tem cabimento. Os democratas acham tudo lindo, que é possível fazer um mundo perfeito. Nunca existirá um mundo perfeito.
__Ele se levantou da cama e mexeu na sua mochila.
__-Renan, vou te mostrar uma coisa, mas você tem que prometer que não conta pra ninguém.
__Ele tinha acabado de falar em armas. Só podia ser uma arma. Não me senti confortável em ter um companheiro de quarto armado. Mas ele tinha uma arma. Eu poderia vê-la ou não.
__Já que eu tinha conhecimento de que ele estava armado, achei prudente saber com o que ele estava armado.
__-Eu prometo.
__Ele me mostrou o que estava escondendo. Para mim, que não entendo nada de armas, aquilo era um 38 gigante.
__-Magnum 357. Você já viu uma dessas?
__-Não. Só na TV.
__Ele estendeu a arma para mim.
__-Pega.
__Minha primeira opinião sobre ele estava errada. Ele não era chato nem imaturo. Era uma companhia agradabilíssima. Estava provado que eu não estava apto a fazer um bom julgamento inicial de um americano que conhecesse pessoalmente. Como eu havia errado quando achara que ele era um chato, também poderia estar errando novamente ao pensar que ele era um cara legal. E, agora, ele estava me estendendo uma arma. Por que é que ele tinha esse revólver? E por que é que ele queria que eu segurasse? O que ele pretendia fazer com aquilo? E se ele matasse alguém durante a temporada? O que significaria as minhas digitais naquilo quando estivessem procurando suspeitos?
__-Melhor não.
__-Por quê? Não gosta de armas?
__-Não.
__-Aconteceu alguma coisa?
__-Sim. Tive uma apontada para mim uma vez.
__-Putz! Não quero nem imaginar isso.
__Ele guardou a arma e começou a tirar várias coisas de dentro da mochila. Tirou duas balas que eram do tamanho de um dedo indicador.
__-Essas aqui são foda. Uma bala dessa na cabeça de um alce é o suficiente pra acabar com o bicho. Fode mesmo.
__Depois, tirou uma caixa. Dentro dela, havia balas de revólver com um furo na ponta. Ele perguntou:
__-Você sabe pra que serve esse furo na ponta?
__-Sim. É pra bala abrir quando entrar no corpo e fazer um estrago maior.
__-Hum, então você entende de armas?
__-Um amigo de um conhecido meu morreu com uma bala dessas.
__Ele fez uma cara de assustado.
__-Sério? Como aconteceu?
__-Um de seus colegas tinha acabado de comprar uma arma. Ao mostrar a arma para ele, colocou a arma na sua barriga e disse: imagina só se eu apertasse o gatilho assim? Ele apertou o gatilho, e a arma estava carregada com uma bala dessas.
__Ele gritou:
__-O quê? Matou o próprio amigo?
__-Sim. Não se sabe se foi sem querer ou não.
__A história era verdadeira, e achei que seria bom contá-la, para que ele pensasse antes de fazer qualquer brincadeirinha com o seu revólver.
__Perguntei a razão de ele ter aquela bala do tamanho de um indicador.
__-Ela é para a arma que eu tenho dentro da caminhonete.
__-Que arma é?
__-Uma sniper russa.
__Continuou a tirar coisas de dentro da mochila. Tirou um saco de papel, do tamanho de um saco de pó de café.
__-Sabe o que é isso?
__-Não.
__-É pólvora.
__Revólver, balas que se abrem dentro do corpo, sniper, pólvora...
__-Por que você precisa de pólvora?
__-Você gosta de gatos?
__-Não muito.
__-Ótimo! Eu também não. Quando eu estou na Pensilvânia, eu faço umas bombas e jogo neles. Só por diversão.
__-E por que você trouxe todo esse armamento pra cá? Vai pra guerra?
__-Você nunca sabe.
__Seria ele do tipo que gosta de reagir a assaltos?
__-Nunca sabe o quê? Se vão tentar te roubar?
__Ele ficou pensando.
__-Não bem isso. Assim... você nunca sabe. É sempre bom ter. Você pode encontrar um veado ou um alce em qualquer lugar. A carne é muito boa.
__Depois, ele me mostrou seu equipamento de pesca.
__Voltei para minha cama e continuei escrevendo. E ele comeu mais um sanduíche de manteiga de amendoim.

Dan mudou de idéia sobre manter a arma em segredo. Publiquei esse post com a autorização ele.

6 comentários:

Rojane disse...

Também fiquei preocupada(armas), lembra do Carl Sagan(O mundo assombrado pelos demônios). Te cuida my Baby...
Amo vc, obrigado por se cuidar. Vc só me encanta com tuas atitudes.
Bj de mãe.

Darlene disse...

I think I would look for a different roommate. Not sure about Dan. I wouldn't touch the gun either - because of fingerprints. And, a person can't just go out and kill a deer or elk anytime they want to. We have special hunting seasons for such things.

Anyone who can be cruel to animals can also be cruel to people.

I worry for you.

Anônimo disse...

Oi Renan, querido!!

Uhm..Cá estou eu novamente desfrutando de suas incriveis história, e de seu maravilhoso Blog!

Confesso-lhes que fiquei um tanto quanto tácita com seu novo post, diferente de tudo que já vi tu postando aqui, mas gostei, afinal tu sabes como ninguém narrar uma boa história.

ah..aguardando o proximo post, viu..:D

Beijinhos, com carinho!

Suelen

Scarlett disse...

Nossa, não to mais tão certa sobre ser tão legal vc tê-lo encontrado, às vezes, era melhor um brasileiro do bem... :) Talvez não seja nada, seja só mais um americano em busca da sensação de controle total das coisas, o q poderia, sei lá, ter até suas vantagens mas... matar gatos???? Se vc olhar minhas comunidades, vai ver q eu teria pego aquele revolver e se não atirasse, teria feito ele o ingolir. Divirtir-se com a desgraça alheia sempre soa como um filminho de terror. Bom, mas vc foi bem esperto de não ter tocado nela, eu não teria pensado nisso. Aposto q não.

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Realmente, o fato de ele gostar de matar gatos nos leva a pensar que ele seja cruel ou violento. Como você disse, é divertir-se com a desgraça do animal.
Ao mesmo tempo, os brasileiros adoram pescar, e a atividade de pescar também é uma forma de se divertir com o sofrimento de um bicho. Para o pescador, é a emoção de fisgar e brigar com um peixe. Para o peixe, é uma luta dolorosa pela vida.
Quando o pescador come o peixe que fisgou, diz que não está fazendo nada de mal, pois está pescando para comer. Quando o pescador joga o peixe de novo na água, também diz que não está fazendo nada de mal. É apenas pesca esportiva.

Scarlett disse...

You've got a point there!
But still, it's not the same thing! Not exactly!