terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Noite de natal

__Antes de sair do Brasil, participei de uma breve orientação psicológica, obrigatória para os intercambistas da minha agência. Uma psicóloga falava sobre os viajantes que entraram em tristeza profunda quando estavam nos EUA e passaram o primeiro Natal longe da família. Ela dizia que o pessoal entrava em crise quando ligava para casa na véspera e falava com os parentes, o que fazia a saudade aumentar e blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá...
__A realidade do Natal dos intercambistas por aqui é a seguinte: eles organizam festas onde o peru é substituído pela cerveja, as frutas são substituídas pela cerveja, a entrega dos presentes é substituída pela cerveja e as músicas de Natal são substituídas pelas músicas latinas em geral. O funk carioca dá o ritmo da celebração brasileira.
__Eu não estava com vontade de participar dessas “ceias”. Quando caiu a noite, saí do meu quarto (de onde já se podia ouvir a música alta) e fui andar pela rua.
__A maioria das casas estava enfeitada com luzes. Suas janelas eram bastante grandes, deixando quem passasse do lado de fora enxergar tudo o que havia do lado de dentro. Vi mulheres trabalhando em cozinhas grandes e equipadas. Vi também uma família de umas dez pessoas jantando em volta de uma mesa.
__Conforme eu andava, juntava neve com as mãos e fazia uma bola bem grande. Quando se espreme a neve com as mãos, ela vira um pedaço um tanto duro de gelo. Fiquei esfregando as mãos nela, até ela ficar bem lisa. Quando a rua onde eu caminhava terminou numa estrada, espatifei a bola de neve no chão e comecei a voltar.
__Todo o caminho que eu tinha feito até aqui era subida. Agora, voltando, enxergava um bom pedaço da cidade, que não é muito maior do que um bairro de cidade grande. As montanhas cobertas de neve podiam ser vistas nitidamente, pois a neve reflete com força a luz da lua e das estrelas. Fiquei apreciando a segurança que eu estava sentindo. A última vez que eu andara com tanta tranqüilidade pelas ruas à noite fora na madrugada do dia 1 de janeiro de 2003, em Campinas, depois de os fogos de artifício da virada do ano terem estourado. Os moradores do bairro lotaram a avenida onde eu morava, tornando o lugar seguro. Antes dessa vez, não me lembro quando foi que andei tranqüilo. Por não conseguir me lembrar disso é que sei que vou sentir saudades de Big Sky quando voltar ao Brasil.
__Não me parece ganância ou ambição desejar poder andar pelas ruas à noite. Mas, no Brasil, se você realmente quer isso, você precisa ser rico o suficiente para morar dentro de um condomínio. Mudar para uma cidade do interior já foi uma opção. Não é mais. A violência já infestou praticamente todos os cantos brasileiros.
__Procurei imprimir na memória a sensação de andar pelas ruas escuras de Big Sky. Realmente vale a pena viver longe disso? Vale a pena acreditar no Brasil? Não serei eu uma das vítimas da violência que conhecia pela televisão, mas que agora vejo no caminho da faculdade para casa?

Um comentário:

mamãe disse...

Por te Amar e te Amar e te Amar...
Termine tua faculdade filho e lute para arriscar tua felicidade ai(sinto que tu estas em estado de graças).
Quando se Ama de verdade, a nossa felicidade é a do outro. Onde tu estiver feliz meu anjo, estarei também.
*mas vou torcer para o Brasil melhorar até lá...rs
Lembre-se que tu tens asas grandes e fortes e o infinito é o teu limite(AO INFINITO E ALÉM).
Beijos no coração.