sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Meu roomate, Dan


Foto do Dan, meu roomate.

__O quarto tinha um beliche. Eu ficaria na cama de cima. Ele já estava lá há algumas semanas.
__-Qual o seu nome?
__-Renan.
__-Como?
__Os americanos têm muita dificuldade para dizer Renan. Por isso, quando eles perguntam, eu digo meu nome do jeito que eles pronunciariam ao lê-lo em algum lugar.
__-E você é o David, certo?
__-Não. Sou o Daniel. David é meu segundo nome. Você pode me chamar de Dan.
__-Ok, Dan. Prazer.
__Ele se jogou na cama.
__-Eu te perguntei se você vai ficar em definitivo porque, na semana passada, entraram uns estrangeiros aqui no meio da noite enquanto eu estava dormindo. Eu perguntei: o que é que vocês estão fazendo aqui? Eles responderam que eram trabalhadores do resort e que iriam passar somente aquela noite neste quarto.
__Agora ele estava todo solto e risonho. A primeira impressão que tive dele estava equivocada. Ele não era nada chato. Talvez tenha parecido ser chato por estar tão contrariado ao me ver entrar e ver que ia ter que dividir o quarto com um estrangeiro cuja cultura ele desconhecia. Mas essa desconfiança já não estava mais evidente.
__-De onde você é?
__-Brasil.
__-Que parte?
__-Bem... eu viajo bastante. Hoje, moro no sul. E você?
__-Interior da Pensilvânia. Eu sou um caipira.
__Ele já estava completamente à vontade. Apenas cinco minutos depois de eu não ter simpatizado com ele, ele já me parecia ser outra pessoa. Parecia ser alguém divertido.
__-Dan... nós temos comida aqui?
__-Não.
__-Tem algum mercado aqui perto?
__-Tem um. É um pouco longe. Temos que ir de carro. Vamos lá?
__-Claro!
__-Ei! Antes, coma isso aqui. Você não vai ficar gripado enquanto comer isso todos os dias.
__Ele me deu uma cápsula de vitamina C. Não era de se dissolver na água. Era de se comer como bala.
__Descemos as escadas e ele me levou para uma caminhote azul, bem velha.
__-Essa caminhonete é a minha garota. Eu amo esse carro.
__Ligou o carro e pegou a rua. O motor não estava muito bem. Dava para perceber que o carro sofria pra sair do lugar.
__-Você tem carro no Brasil?
__-Não.
__-Por quê?
__-Sou um estudante.
__-Estudantes não têm carros no Brasil?
__-Alguns têm. Outros não. A maioria dos meus amigos não tem.
__-Como é que vocês se transportam?
__-Ônibus.
__-É de graça?
__-Não.
__-Não é melhor ter um carro?
__-Depende. Ter um carro custa caro. A gasolina é cara, o imposto é alto, a manutenção é alta, e o salário é baixo. Além disso, é um risco. Roubo de carro é muito comum no Brasil.
__-Os pobres não têm carro?
__-Alguns. Boa parte, não.
__-Se eu tivesse esse carro no Brasil, eu seria rico?
__-Quantos anos você tem?
__-Vinte e dois.
__-E o carro é seu mesmo? Você que conseguiu?
__-Sim.
__-Bem, você não seria exatamente rico. Geralmente, quem tem carro com vinte e dois anos ganhou o carro dos pais. Esses jovens são ricos de certa forma. Mas o seu carro é bem velho. Você não passaria por rico não.
__-Eu sou mais rico do que você?
__-Com certeza.
__-Isso é estranho. Eu sou um cara que sobrevive. Não ganho mais que 11 dólares por hora aqui no resort. Quando estou na Pensilvânia, tiro no máximo 4 mil dólares por mês.
__-Se você sobrevive, você não sabe o que eu faço.
__Desde que eu chegara nos EUA, minhas conversas com os americanos eram simples, com perguntas e respostas curtas. Mas, com o Dan, estava havendo um diálogo. Não era fácil falar tanto. Eu tinha que procurar as palavras e gaguejava muito. Às vezes, não sabia alguma palavra e tentava explicar o que eu queria dizer. Ele também não entendia tudo o que eu dizia. Ele falava que era complicado entender o meu sotaque.
__Chegamos ao mercado, que se chamava Hungry Moose. Andei pelos corredores, observando as comidas disponíveis. Dez fatias de presunto custavam quase quatro dólares. Doía o bolso só de olhar. Um dos corredores do pequeno mercado tinha pacotes de salgadinhos. Os pacotes eram enormes, muito maiores dos que os pacotes que temos no Brasil. Estou certo de que eu não conseguiria comer um inteiro de uma vez. Abaixo, uma foto do Hungry Moose.

__Era meu primeiro dia em Big Sky, e eu continuaria a minha política de economizar o máximo possível. Encontrei uma batata frita Pringles por US$ 1.75. Além dessa batata, peguei duas maçãs. Dan pegou uns pães e depois veio falar comigo:
__-O que você quer beber? Cerveja? Refrigerante?
__-Eu não sei.
__-Você não sabe? Ok.. Já tomou Wild Cherry Pepsi?
__-Não.
__-Você vai gostar. Eu garanto.
__Ele pegou uma caixa com doze latinhas, que custava cinco dólares. As frutas eram pesadas no caixa. Ele pagou no cartão de crédito, e eu lhe paguei em dinheiro a parte que me cabia.
__A caminho de casa, na sua caminhonete, ele voltou a puxar assunto:
__-Renan, você já comeu carne de veado?
__-Não.
__Nem essas perguntas curtas eram fáceis para mim. Eu não sabia como dizer carne nem veado em Inglês. Assim, uma simples pergunta dessas exigia uns dois minutos de explicação. Ele tinha que encontrar um jeito de me explicar o que era um veado e o que era carne. Na verdade, eu sabia como era carne em Inglês. É flesh. Acontece que flesh é carne humana. Então, se eu fosse a algum restaurante americano e perguntasse que carne eles tinham, o atendente entenderia algo como:
__-Que tipo de carne humana vocês têm aí?
__Dan me falou que alguns amigos seus viriam dentro de alguns dias, e trariam carne de veado, e também o seu computador.
__Chegamos em casa. Reparei que todos os carros estacionados próximos ao alojamento tinham fios ligados a algum lugar dentro do alojamento. Eu queria perguntar para que serviam aqueles fios. Mas eu não sabia dizer “fio”. O mais próximo que consegui chegar de dizer o que queria foi:
__-Pra que servem essas coisas que estão lá?
__Apontei com o dedo.
__-Os fios?
__-Isso! Os fios.
__-Servem para esquentar os carros, para que eles funcionem de manhã. Aqui é muito frio. De manhã, os carros não ligam.
__Entramos novamente no quarto.
__-Renan, depois que você comer carne de veado, você não vai mais querer saber de outra coisa. Olha isso.
__Ele me mostrou um conjunto de temperos que ele guardava em cima de uma estante, e depois me fez cheirar alguns.
__-Eu vou cozinhar pra você.
__-Em troca de quê?
__-De nada, cara. Eu vou ter muita carne. Você vai ser o habitante de Big Sky a comer melhor. Ninguém vai comer melhor do que você por aqui.
__-Isso vai sair caro pra você.
__-Não vai não. Eu e meus amigos somos caçadores. Sai tudo de graça.
__-Legal.
__Comecei a tirar as coisas da minha mala e a ocupar as estantes.
__-Dan, quantos americanos há aqui no Golden Eagle?
__-Só eu.
__-Estou morando com o único americano?
__-Sim.
__-Vou ser o único a praticar inglês de verdade em casa, todos os dias?
__-Sim.
__-Estou com sorte, hein?
__-Só pela carne de veado você já está com sorte. Você não sabe do que eu estou falando, cara. Eu estou te dizendo. Você vai ficar louco quando experimentar.
__Fui tomar um banho. Assim como no Backpeckers, eu não conseguia abrir o registro do chuveiro.
__-Dan, como é que eu abro esse negócio?
__Ele estranhou a pergunta, e depois deu risada.
__-Ok. É assim:
__Ele puxou o registro, e a água começou a sair. Ao invés de girar o registro, é preciso puxá-lo. Daí, ao girá-lo para a esquerda, a água fica quente. Ao girá-lo para a direita, a água fica fria.
__Tomei meu banho e, depois, subi na minha cama, onde fiquei escrevendo sobre o dia. Mas ele queria papo. Definitivamente, ele era uma companhia agradável, hospitaleira e paciente. De cada dez palavras que ele falava, eu não entendia cinco, e eu tinha que pedir que ele falasse devagar e explicasse. Ele nunca se cansava de explicar. Quando eu não conhecia alguma palavra, ele ria e depois explicava. Se fosse algo difícil de se descrever, ele desenhava num caderno.

5 comentários:

Renata disse...

Oi, é a Renata, vc ja aprendeu quantas palavras novas em ingles??
Vc ja esquiou no seu trabalho??
Ainda esta tomando a vitamina C??
Vc ja comeu carne de viado ou "flesh"!!kkkkkkkkkkkk!!!
Zoera, bom, aliais quais palavras vc aprendeu??
Comeu muita "merda"??
Coloca a foto do burrinho cagão!!auhuauhauhauhau!!! E presta atenção no burrinho se o cookie tinha gotas de chocolate pode não ser chocolate !!!!! Bom, um bj e um abraço, Rere

rojane disse...

Bom filho, depois dos comentários da Renatinha, me resta apenas te mandar um beijo
Amo Vc pinguinzinho

mãe do RENAN disse...

Agora não é um comentário, mas sim um convite ao DAN, quero que ele venha ao Brasil e fique em minha casa em Dezembro ou julho pois vc estaria aqui.
Já gosto dele sem mesmo vê-lo.

Renan Caleffi de Oliveira disse...

E aí, Renatinha????
Ainda não fiz ski não. Trabalho todos os dias, o dia todo, e daí não dá tempo.
Comi a carne de veado. É bom pra caramba! Ainda mais com a quantidade de tempero que o meu parceiro coloca.
Boa idéia a de colocar a foto do burrinho! Vou ver se faço isso ainda essa semana!

Scarlett disse...

Ah q massa ler td isso! É vc teve sorte, foi o máximo vc ter conseguido o único americano, uau. Ir pros States pra falar em Brasileiro é pra acabar... hehehe ou mesmo espanhol sei lá... né, um conhecido meu foi pra uma estação de esqui e td q conseguiu foi praticar um pouco de espanho, só q daí poderia ter ido pro Bariloche. Hmm essa coisa de comunicação em outras línguas é mesmo o máximo... tbm o máximo de extressante. Pode render escacíssimo assunto msm (por razões óbvias) ou mt (por uma palavra em cada dez exigir uma explicaçãozinha extra)... Então ta... vou parar pq tem gente no msn agora... Tchau.