quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Condomínio

__O sujeito está sentado em sua poltrona, ao lado da lareira que nunca viu fogo. A lareira foi crucial na escolha entre as duas casas que estavam à venda nesse condomínio. Mas, em três anos morando nesse lugar, nunca houve um frio que justificasse o seu uso.
__Ele se esforça para se concentrar no assunto tratado no programa de entrevistas que passa na televisão, mas o sono não deixa. Mal pode manter um olho aberto. Desliga o aparelho e desce as escadas para tomar uma água na sua cozinha. Depois, sai pela porta da sala e fica na frente da sua casa, apreciando o ar da noite, que lhe faz lembrar do campo.
__A dez metros da frente da sua casa, ele pode ver o muro que delimita o território do condomínio. Ele gostaria de não ter precisado trabalhar tanto tempo para poder morar do lado de dentro desse muro, e não do lado de fora.
__Entra novamente na sua casa e vai para o quarto. Hoje, ele consegue dormir com muita paz, diferentemente do que acontecia antes, quando ele estava do lado de fora do muro e todas as janelas e portas de sua antiga casa alugada eram equipadas com sensores preparados para disparar um alarme.
__Acorda sem apetite para tomar o café da manhã. Toma seu banho, veste-se e vai pegar o carro, que não está dentro da garagem, onde ele sempre costumava deixar o veículo quando morava do lado de fora. O carro está estacionado ao lado do seu jardim. Sua esposa molha com uma mangueira a grama que cerca a casa, ao mesmo tempo que conversa com o vizinho, que também molha seu jardim. Quando moravam do lado de fora, ela não tinha coragem de cuidar do seu jardim logo cedo como gostaria de fazer. A antiga casa dava de frente para uma avenida pouco movimentada, onde ocorreram tentativas de seqüestros contra dois de seus vizinhos quando esses saíam para trabalhar.
__Ele dirige seu carro pelas ruazinhas sem buracos e contornadas pelos jardins das casas dos vizinhos. A maioria dessas casas tem um telhado triangular bastante inclinado, como o das casas de países onde telhados assim são necessários para que a neve não se acumule. Assim como a lareira, é charmoso e não serve para nada no Brasil.
__Chega a hora de passar com seu carro pelo portão, que é a única grade do condomínio e que passa a segurança de que os moradores dali precisam para não colocarem grades também ao redor de suas casas e nas suas portas e janelas. Do lado do portão há uma guarita, onde fica um homem que segura uma arma, do tamanho de um porrete, com as duas mãos. Esse homem pode dar alguma segurança aos que estão do lado de dentro, mas já não pode oferecer nada ao sujeito que está saindo dali no seu carro.
__Ele paga um preço bem alto para estar do lado de dentro, seguro e longe das imagens que vê depois de passar pelo portão e que lhe entristecem: pessoas magras e sujas pedindo dinheiro nas sinaleiras, prédios há décadas sem pintura, casas amontoadas, ruas esburacadas, mulheres tensas segurando suas bolsas com as duas mãos enquanto caminham, homens com a mão no bolso de trás para proteger a carteira, famílias vivendo embaixo da ponte...
__Depois de vinte minutos dirigindo, deixa seu carro num estacionamento e sai andando pelas calçadas do centro da cidade. As pessoas não se cumprimentam. Elas se chocam e não pedem desculpas. As mulheres que passam ouvem grosserias dos vendedores que expõem suas mercadorias no chão. Um velhinho descreve para o policial o jovem que acabou de lhe assaltar.
__Deixar o simulacro para encarar uma face dura do Brasil lhe deixa um pouco desanimado para trabalhar. Ele sabe que o que ele vê no caminho entre o condomínio e o trabalho no centro nem é o que existe de mais triste no Brasil. Mas ele procura não pensar nisso agora. Se parar para pensar, não recupera a energia de que precisa para encarar o serviço. Como ele gostaria que a empresa onde trabalha também ficasse do lado de dentro do muro. Do lado de dentro, ele pode andar sem nada a temer. Ele recebe cumprimentos das pessoas que passam e sente que não vai ser desrespeitado pelos que cruzarem seu caminho.
__O lado de dentro é um território muito menor do que ele gostaria que fosse. Quando se está nele, é possível avistar de qualquer lugar o muro que separa aquela ilha de paz do mundo real. Ele gostaria de estar muito mais longe do Brasil do que ele está. Quando está perto do portão, ele até pode ver as pessoas passando do lado de fora e olhando com curiosidade as casas e as pessoas que ali moram. Não sabe quais dessas pessoas que observam seu lar são homens de bem que dão o sangue trabalhando, como ele fez no passado, ou se são seqüestradores observando sua rotina e planejando um ataque.
__No fim do dia, ao passar novamente pelo portão do condomínio e acessar a área segura, ele pensa:
__-Como seria esse lugar se eu pudesse empurrar o muro até onde eu não pudesse enxergá-lo, mesmo que andasse em sua direção por horas e horas? Como seria se as pessoas do lado de fora ganhassem o suficiente para morar do lado de dentro? E se pudéssemos desmontar os becos e expulsar os bandidos que existem do lado de fora? Como seria o lado de dentro se ele fosse maior do que o lado de fora?

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__Eu nunca morei do lado de dentro. Mas sei como seria a vida que aquele sujeito imaginava: seria como a vida é em Big Sky.
__Aqui, você sobe no ponto mais alto da cidade e observa cada um dos bairros, sem ser capaz de encontrar um que seja menos iluminado, mais escondido, onde as pessoas iriam para comprar e vender o que elas não comprariam nem venderiam à luz do dia, à vista das pessoas com quem elas têm que conviver todos os dias. Não há lugar mais seguro ou mais perigoso para se morar. A cidade é uma só.
__As casas são afastadas umas das outras. Têm espaço para esbanjarem sua beleza. Suas portas ficam destrancadas. As famílias se aquecem em frente à lareira, que protege os moradores da casa do frio de quarenta graus negativos. As pessoas que se cruzam se olham nos olhos e se cumprimentam. Os motoristas passam oferecendo carona aos desconhecidos que andam a pé.
__Para o brasileiro que tem toda uma família a perder para a violência banal do seu país, viver e andar por Big Sky é como experimentar o sonho que não acaba, o prato que não termina, a rosa que não morre. Você caminha e caminha, e não encontra algo que te assuste ou que te entristeça. Não se vê uma paisagem a ser recuperada, nem bairros a serem replanejados, nem ruas a serem restauradas.
__Big Sky tem as vantagens e as belezas do condomínio fechado, mas é um território aberto. Aqui, as pessoas podem gozar durante a vida toda daquilo que milhões de brasileiros nem sabem o que é: dignidade.

3 comentários:

Rojane disse...

Bah!!! que bacana Renan! diante deste texto, podes atrasar o blog sempre que quizeres. Serás perdoado todas as vezes.
Que bom ter experimentado estar do lado de fora(através de ti), ficou ainda melhor sonhar com esta possibilidade(e lutar para isso).
Te Amo Tégo Tégo Glóiss Glóiss.

Bibiana disse...

Adorei o texto!!!
E aqui no Brasil, nem sempre o lado de dentro já é tão seguro assim...

bjs amorzão!

angel_carpe_diem disse...

Encontro-me tácita diante deste texto..uma das melhores e mais elaboradas reflexões que já li.
Parabéns...meu caro!
Viva cada vão momento, e desfrute de todas as possibilidades que a Big Sky pode lhes oferecer, como tu mesmo disse estas dentro deste condomínio fechado, mas que é um território aberto...

Abraços, com carinho!

Suelen