quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Chegando em Big Sky

__O hotel se chamava “Huntley”. Sabíamos que ali ficava o departamento de recursos humanos do resort, e deveríamos ir até lá para alguns procedimentos iniciais. Assim que comparecemos, fomos atendidos por um secretário, que disse:

__-Where are you from?
__-Brazil.
__-Ah. Legal.
__É. Ele era brasileiro.
__Havia várias pessoas sentadas na sala. Uma mulher entra elas nos perguntou:
__-Are you all from Brazil?
__-Yes, we are.
__-Oooooo, brasileirada.
__É. O secretário era brasileiro, as pessoas que estavam ali eram brasileiras... não há escapatória. Cedo ou tarde, vamos dominar o mundo.
__A primeira coisa que me preocupava era a moradia. Pelo contrato de trabalho que eu tinha com o resort, eu deveria ter chegado na cidade sete dias antes. Como eu estava atrasado, era possível que todas as moradias oferecidas pelo resort estivessem lotadas. Eu me inscrevera para morar num abrigo chamado Mountain Lodge, que fica no próprio resort. A opção que eu recusara ainda no Brasil era a de morar num abrigo chamado Golden Eagle, que é praticamente igual ao Mountain Lodge, mas fica a 30 minutos de ônibus da montanha. A maioria dos intercambistas escolhem o Mountain Lodge. Portanto, era improvável que eu conseguisse uma vaga lá.
__Chegou uma mulher para falar conosco sobre a moradia. Ela nos disse que a Fernanda e a Carla tinham suas vagas garantidas no Mountain Lodge, mas que eu estava no Golden Eagle. Perguntei se existia alguma chance de eu conseguir uma vaga no Mountain Lodge mais tarde. Ela disse que seria difícil. Talvez mais para o final da temporada.
__Ela me entregou um papel e uma chave.
__-Essa é a chave do seu quarto, que é o número quarenta. O número está aí no papel, junto com o nome do seu roomate, David.
__A mulher também me entregou uma agenda com os horários dos ônibus locais. Vinnie, o secretário brasileiro, disse que eu deveria correr para a parada do ônibus, pois já era hora de ele passar. Depois, ele me perguntou:
__-Você é o Renan?
__-Sim.
__-Tem uma caixa pra você da Darlene.
__Quando eu estava no Brasil, a Darlene me mandava umas caixas com presentes de tempos em tempos. Aliás, as fotos que colocarei no blog são batidas com uma máquina que ela me mandou certa vez.
__Vinnie buscou a caixa e me entregou. Não estava fácil carregar a mala, a mochila e a caixa. Um carioca de dezoito anos que também acabara de se apresentar no RH me ajudou a levar tudo.
__A parada ficava a uns sessenta metros do Huntley. Na cidade onde estávamos agora, o branco tomava conta de todo o chão, dos telhados, das montanhas e das árvores. Estar num lugar que fala uma língua diferente já é o suficiente para fazer alguém se sentir em outro mundo. Mas essa paisagem completamente branca tornava essa sensação ainda mais forte para mim.

__Eu estava sentindo frio. Umas dez pessoas esperavam o mesmo ônibus. Quando ele chegou, o carioca me ajudou a colocar minha mala e minha caixa no ônibus.
__Não é preciso pagar para se andar nos ônibus de Big Sky no inverno. Sentei no fundo do ônibus, que estava quase lotado. Atrás de mim, um rapaz brasileiro conversava com uma garota também brasileira. Depois de um tempo, ele puxou assunto comigo:
__-Você é novo aqui?
__-Sim.
__-Vai trabalhar onde?
__-Ticket Sales.
__-Oba! Vou esquiar de graça.
__Estava dado o recado. Eu deveria esperar que os trabalhadores locais viessem pedir “jeitinhos”para os vendedores de ingressos.
__O ônibus fez o mesmo caminho que fizéramos quando viemos de Bozeman, até chegarmos num bairro chamado Meadow Village. Lá, o carioca e uma amiga sua, que já esperava por ele há uma semana e que lhe encontrara no ônibus, me chamaram, dizendo que deveríamos descer ali. Desci carregando minha mala, minha mochila e minha caixa. Tínhamos que andar uns 6 minutos para chegar ao abrigo. Coloquei a caixa em cima da mala e fui andado bem devagarinho. Estava tudo muito pesado. Minha mochila de uma alça só caiu do meu ombro e, agora, eu a segurava com a mão, com o corpo inclinado, e não percebi que ela estava sendo arrastada no chão. Quando chegamos no abrigo, o Golden Eagle, ela estava toda rasgada.

__Acima, a foto do centro do bairro. Você pode ver a foto do Golden Eagle clicando aqui. Subi as escadas. Meu quarto era no terceiro piso. Abri a porta sem precisar da chave. Dentro, um rapaz me olhou com estranheza, sem saber exatamente o que estava acontecendo. Falei, em Inglês:
__-Oi, tudo bom? Sou o seu companheiro de quarto. Acabei de chegar na cidade.
__-Hum.
__Ele parou de olhar para mim e ficou olhando para a estante, que ele estava arrumando. Depois, ele me perguntou:
__-Você vai ficar aqui em definitivo, ou só alguns dias?
__-Em definitivo.
__-Ok. Então, vou separar um espaço pra você.
__Ele reorganizou suas roupas, deixando metade da estante para mim.Ele parecia contrariado. Minha opinião era a de que ele não tinha ido nada nada com a minha cara. E eu também não tinha ido nada nada com a cara dele. Tive a primeira impressão de que era um gurizão imaturo e chato. O lado positivo era que ele era americano, e eu poderia melhorar meu Inglês conversando com ele.
__Já que passaríamos quatro meses juntos, não havia porque não começar a trabalhar para que aquela convivência não fosse tão desagradável quanto eu esperava que fosse.
__-Ei. Eu tenho uma amiga americana que deixou uma caixa para mim, aqui em Big Sky. Vamos abrir e ver o que há aqui para nós?
__-Claro.
__Abri a caixa. A primeira coisa que vi foi uma caixa de cookies.
__-E aí? Vamos comer?
__-Claro! Adoro esse negócio.
__Agora ele já estava sorrindo. Também tirei da caixa um burrinho de brinquedo que vinha junto com umas balas. Tínhamos que colocar as balas dentro do burrinho e depois apertá-lo, para que a bala saísse do seu traseiro. Bem que me avisaram que eu comeria muita merda quando viesse pra cá.

__Quando ele viu o burrinho, ele deu risada. Ele já não estava com a cara fechada. Estava começando a se soltar.
__-Eu adoro esse negócio também.
__A caixa ainda tinha um conjunto de canetas de assinar cheque e uma agenda de executivo. A Darlene sabe que eu gosto de escrever. Por último, um Sudoku eletrônico.

2 comentários:

Mamãe disse...

Obrigado pela foto do burrinho,
Não conseguia imaginar como era.
Parece ser de chocolate, é?
Um beijo doce
Mamaínnnnnn.

Renata disse...

Renan aquele bicho não seria um alce ou viado???