segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Pousando em New York

___Depois de comer o frango com molho, escuto mais um pouquinho de jazz, inclino o banco e caio no sono. Acordo de tempos em tempos e olho para o mapa na tela, que mostra a localização do avião. Na primeira vez em que acordei, já tínhamos saído da América do Sul. Isso mexia comigo. Estávamos em ares estrangeiros. Me senti mal por saber pouco sobre os países dos quais nos aproximávamos agora, na América Central.
___Achamos muito engraçado quando os americanos nos perguntam se falamos espanhol, se a capital do Brasil é Argentina, se no Brasil tem aeroporto. Mas se tivéssemos que falar algo sobre a cultura dos países pelos quais passávamos agora, perceberíamos que não somos o povo certo para julgar um país arrogante, desconhecedor de outras nações e indiferente quanto a elas.
___Mesmo sem saber nada sobre aqueles países, eu me emocionava. Fechava os olhos e apreciava o momento. Sentia vontade de rir. Pretendo viajar para fora muitas vezes ainda, mas a sensação não será a mesma quando eu puder. Agora, tudo estava acontecendo pela primeira vez.
___Acordei mais umas quatro ou cinco vezes. Eu olhava para o mapa e via que já sobrevoávamos território americano. Tentei imaginar qual seria a minha sensação ao ver os primeiros prédios gigantes de New York. Pensava nisso desde que soube que entraria nos EUA por essa cidade. A qualquer momento, os prédios apareceriam na minha janela. Já não estavam mais a meses de espera. Nada de "um dia ainda vou vê-los", de ficar observando o lugar pela televisão, de ouvir falar sobre a cidade. Não precisava mais planejar, sempre com aquela sensação de que pode aparecer um empecilho que coloque o sonho na gaveta. Isso já era tudo passado. Já estava longe do meu país como nunca estive, ao lado de pessoas que não falavam a minha língua. Não leria mais opiniões dos colunistas de jornais e revistas sobre o comportamento dos americanos, ou o que meus amigos ouviram do seus amigos que viajaram. Era hora de conhecer o povo, sem nenhuma pessoa para filtrar informações sobre eles, escondendo coisas boas ou ruins.
___Na última vez em que acordo, lembro a Fernanda de que temos que preencher o formulário I 94, obtido dentro do avião. Ela preenche o dela numa boa. Eu erro duas vezes e preciso de dois formulários novos para preencher. Esses formulários eram pequenos cartõezinhos onde deveríamos dizer que objetos estávamos levando para os EUA. Mais tarde, mostraríamos o cartão a um oficial da imigração. Na hora de voltar para o Brasil, deveríamos apresentá-lo a um oficial americano novamente. O meu primeiro erro foi na data, que escrevi no formato brasileiro ao invés do formato americano, com o mês primeiro. Não me lembro qual foi o segundo erro.
___O piloto anuncia a aproximação do aeroporto e o início do procedimento de pouso. Novamente, eu ficava com vontade de rir. Chegara a hora! O avião começava a descer. Estava amanhecendo. Não tenho a menor noção de que horas eram. Não me familiarizei com os horários das cidades onde faríamos escalas. Ainda pousaríamos em Salt Lake City e, depois, em Bozeman. No meu relógio, eu já tinha o horário de Bozeman, que estava cinco horas à frente do Brasil.
___Eu espichava a cabeça em direção à janela, pra ver se conseguia enxergar algum prédio. Mas não via nada.
___A pista se aproximava. Fechei os olhos. Queria curtir o momento em que as rodas do avião tocariam o chão e eu saberia que estaríamos finalmente em solo estrangeiro.
___Impacto! Estamos no chão. Não tem mais volta. Não há mais empecilhos. Estou nos EUA. Estou em New York.
___E não vi um prédio sequer.

2 comentários:

Rojane disse...

Também estou em New York filho, a espera dos próximos acontecimentos.....que delicia.

Scarlett disse...

Poxa... dá vontade de chorar... hehehe bem eu fico tentando imaginar... sim pq ainda to na fase dos sonhos, planos, expeculações... É uma sensação q sei lá... sem palavras né.