segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Bozeman - Parte I

__Quando estamos no ar, puxo assunto com o cara que senta do meu lado. Ele era argentino. Falamos em inglês. Seu nome era Santiago. Já trabalhara em Big Sky no ano anterior e já tinha viajado pela Europa. Nessa temporada, trabalharia como professor de ski. Conversamos sobre a “richa”entre brasileiros e argentinos e sobre o que ouvíamos a respeito de os americanos não gostarem tanto de contato físico quanto nós, latinos, que abraçamos, damos socos de brincadeira, empurramos, damos tapinhas nas costas e chamamos pessoas cotucando.
__Conversa vai, conversa vem, ele olha pela janela e quase grita:
__-Olha! Olha! É o resort! Como é bom ver esse lugar daqui.
__O que podíamos ver do avião era algo que parecia um parquinho. Não pude ter uma boa noção do lugar com o que vi.
__Pousamos, agora sem grandes emoções, pois já era o terceiro pouso. Eu estava era ansioso para sair do aeroporto e dar de cara com os EUA de uma vez.
__Saio com a Fernanda do avião e vamos em busca das nossas malas. O saguão do aeroporto era minúsculo em comparação com os aeroportos de Guarulhos e Porto Alegre, os que eu conheço bem.


__As malas apareceram. A Fernanda comprou um cartão telefônico para ligarmos para o Brasil. Se me lembro bem, o cartão tinha cem créditos. Depois que ela usou para falar com a família por três minutos, sobraram sessenta. Não consegui falar com a minha família. Tentei ligar para o celular da Darlene, minha amiga americana que mora no Novo México. Ouvi uma mensagem de caixa postal, e agora restavam trinta créditos.
__Perto do telefone público havia uma mulher sentada, falando no celular. Assim que ela desligou seu telefone, perguntei a ela como fazer uma chamada a cobrar. Ela sorria bastante, demonstrando muita gentileza. Disse que não sabia, e então nos ofereceu seu celular. Eu disse que não era uma boa idéia, pois eu faria uma chamada internacional, e isso lhe custaria muito caro. Ela falou:
__-Vou tentar ajudar vocês.
__Ela se levantou e usou o telefone público para falar com o operador. Não entendi a conversa que ela teve com o operador, mas ela não descobriu como se fazia uma chamada a cobrar.
__Pedi a ajuda de um atendente do balcão de uma companhia aérea. Era prazeroso falar em inglês. Não mais ensaiando, não mais treinando em aulas de cursinho, onde o interlocutor, por ser um professor ou um colega de classe, podia entender nosso inglês sofrível e falar em português assim que quiséssemos. Agora, era ou falar inglês ou ficar sem comunicação. Saíra do simulacro das salas de aula enfeitadas com bandeiras americanas, fantasias de Halloween e fotos de bandas de blues. Agora, era tudo de verdade, e a sensação de falar em outra língua era a de usar uma chave que abre uma porta para um mundo desconhecido. Experimentava o primeiro pedaço de uma enorne novidade. Era o meu primeiro contato direto com aquele povo que é observado com atenção ao redor de todo o globo, através de seus filmes e músicas; que é exposto nos jornais de todo o planeta; que é atacado nas letras das canções de estilos que ele criou, escritas por pessoas que se vestem como ele ensinou; que universalizou seu humor; cujos medos, enganos e interesses levam a guerras que mudam para sempre o destino de países; que recebem tantos estrangeiros que podem não conseguir falar sua própria língua em sua própria terra. Era de verdade. Estava em outro hemisfério, outro clima, outra realidade.
__O atendente do balcão chamou um táxi. Ele me disse que precisávamos esperar vinte minutos.
__Entre o estacionamento e o saguão do aeroporto, havia uma área limitada por duas portas automáticas. Quando se está saindo do saguão, a primeira porta se abre, mas a segunda não. Depois que a primeira se fecha, a segunda se abre. Assim, o frio não entra no saguão. Eu e a Fernanda ficamos nessa área.
__-Fernanda, segura aqui as minhas coisas um pouquinho. Eu quero sentir o ar lá fora.

__Saí pela porta automática e parei na calçada, tendo à minha frente a visão dessa foto acima. Senti o mesmo frio de Salt Lake City. Aquele ar era gelado, e dava a sensação de que não importava quantas roupas usássemos, pois sentiríamos frio de qualquer forma. Isso me deixava muito feliz. Sempre quis morar num lugar frio. Quando me mudei de Campinas para Porto Alegre, tive uma decepção completa quanto ao clima. Esperava encontrar uma cidade fria, e o que descobri foi um inverno que dura muito pouco e oferece um frio que qualquer boa blusa de lã resolve. Agora, naquela calçada, eu sentia que não havia como se proteger daquelas temperaturas baixas. Elas invadiriam qualquer roupa.
__Respirei bem fundo. Sempre que chego a uma cidade diferente, a primeira coisa que faço é tentar sentir seu cheiro. Nas minhas viagens de ônibus de Campinas a Porto Alegre, quando eu ainda morava longe da Bibiana e lhe visitava sempre que podia, parávamos no Paraná e em Santa Catarina, e eu podia sentir muito bem a diferença dos cheiros das cidades. Agora, eu queria prestar muita atenção no cheiro dos EUA. Tinha que ser agora, pois, no fim do dia, já não conseguiria sentir a diferença, por já estar acostumado.
__Atravessei aquela rua do estacionamento. Agachei e peguei a neve. Sua textura era o que eu esperava depois de tê-la visto de perto pela primeira vez na pista do aeroporto: parecia raspadinha. A mão ficava gelada instantaneamente e doía. Olhei ao redor. A cor predominante da paisagem era o marrom da terra seca e do mato queimado pelo frio. Voltei para a área que separava o aeroporto do estacionamento, e então foi a vez de a Fernanda experimentar o lugar.
__Depois que ela voltou, saí de novo. Fui para um canto do estacionamento onde eu podia ver algumas montanhas distantes. Peguei a máquina fotográfica e me aproximei da grade que limitava a área. A um passo de subir na calçada, escorreguei no gelo. Quase caí. Percebi que não levaria muito tempo para levar o primeiro tombo.
__Tirei algumas fotos e voltei para a área entre o estacionamento e o aeroporto, onde esperávamos pelo táxi.
__Chegou um táxi bem grande. Era um furgão. O motorista era um senhor magrinho, de jaqueta, boné e óculos. Ele veio pegar nossas malas. Perguntei a ele:
__-Senhor, posso ajudá-lo?
__Ele riu, fechando os olhos e apontando a cabeça para cima, e disse, parecendo um avô bonzinho:
__-Claro! Por favor. Você é muito mais forte do que eu.
__Entramos no táxi eu, a Fernanda e dois senhores, que aparentavam uns 60 anos. Eles chegariam antes de nós ao seu destino. Eu e a Fernanda desceríamos por último no Backpackers Hostel.
__Da janela do carro eu via muito espaço e pouca ocupação. Os senhores conversavam com o motorista, e eu só observava a paisagem.
__Chegamos ao destino dos senhores. Depois que eles desceram, sentei do lado do motorista. Puxei assunto. Ele disse morar na cidade há bastante tempo. Perguntei se ele tinha orgulho daquela terra. Ele respondeu que sim. Perguntei se ele tinha orgulho do seu povo. Ele levantou as sobranchelhas e fez um bico com os lábios, numa expressão de dúvida. Depois, fez que sim com a cabeça, mas conservando aquela expressão no rosto.
__-Esse povo é legal.
__Entramos na avenida principal de Bozeman, que era uma avenida de comércio e entreterimento. O motorista nos disse que estávamos próximo do Backpackers. Perguntei se essa era uma avenida tranqüila para se andar à noite. Ele respondeu que sim, que não havia nada com que devêssemos nos preocupar.
__Ele parou na frente do Backpackers. Não me lembro quanto exatamente foi a corrida, mas paguei com uma nota alta. Os EUA são um dos países que têm o hábito de dar gorjeta de no mínimo 10% às pessoas que prestam qualquer serviço. Assim, quando se dá uma nota maior do que o valor do serviço, subentende-se que a diferença seja a gorjeta. Mas o motorista estava devolvendo o troco completo. Eu esperava que ele ficasse com a maior parte. Não era minha intenção deixar de respeitar esse hábito dos americanos. Mas ele estava devolvendo todo o dinheiro. Quando ele já tinha devolvido quase tudo, falei:
__-Tudo bem. Tá tudo certo.
__-Tudo certo?
__-Sim.
__-Ok.

3 comentários:

Rojane disse...

bah que bacana este taxista, gostei dele, penso que ele deve ser um vôzinho bem estraga netos, aquele que todos nós queriamos ter.
Imaginei o frio que tu sentiu filho e quase tremi...rs, lembra, a mãe não gosta do frio...rs novamente.
Amo vc

Rojane disse...

bah que bacana este taxista, gostei dele, penso que ele deve ser um vôzinho bem estraga netos, aquele que todos nós queriamos ter.
Imaginei o frio que tu sentiu filho e quase tremi...rs, lembra, a mãe não gosta do frio...rs novamente.
Amo vc

Gisela disse...

Oi... estou indo passar uma temporada em Bozeman para fazer um curso de ingles e acho que vou ficar neste Backpackers hostel. Queria saber se é bom mesmo?!?! Vc pode mandar informações para o meu email por favor?!?! gimte@hotmail.com

Obrigada!!!!
Gisela