segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Bozeman - Parte II

__A foto acima é do Backpackers. Não foi tirada no dia em que cheguei. Ela saiu muito escura. Então, tive que editar.
__Assim que entramos, encontramos um rapaz que aparentava uns dezoito anos. Ele explicou que a noite custava 18 dólares, e que podíamos escolher o quarto e a cama. O lugar tinha cara de casa, e não de albergue, hotel ou coisa parecida. Subimos as escadas e ficamos no quarto que parecia mais limpo. Havia três beliches. Eu peguei um e a Fernanda pegou outro. Apenas jogamos nossas coisas sobre as camas para garantir o lugar.
__Descemos as escadas novamente. Estávamos loucos para andar pela região. No andar de baixo do albergue havia uma sala com sofás confortáveis e uma vista para a rua, chamada “Olive Street”. A casa tinha papel de parede e havia plantas penduradas em todos os cantos. Também havia dois violões pendurados e revistas espalhadas. A Fernanda dizia:
__-Nem tem cara de hotel. Estou me sentindo em casa._______________________Fernanda

__Fomos para a Olive. Nossa intenção era voltar para a Main Street para, em seguida, procurar pela 7th Avenue, onde sabíamos que ficava o Wall Mart. Precisávamos ir lá para comprar umas roupas de frio.
__Entre a calçada e a rua, havia muita neve. Eu me agachava e pegava a neve com as mãos. Também chutava os pedaços maiores de neve, em formato de pedra, e parecia que eles explodiam. Observávamos as casas, todas sem grades e com varandas e cadeiras de balanço. Eu não parava de repetir:
__-Isso é um filme. É igualzinho a um filme. É tudo como parece na TV.
__Essa não é a realidade de todo o país. Longe disso. Bozeman era bela e pacata. Sentia estar longe do alcance de qualquer aborrecimento e preocupação, e os números oficiais dos EUA deixam claro que, em boa parte do país, há motivos, sim, para temer assaltos, assassinatos, furtos, desemprego, pobreza e exclusão social.
__Chegamos à Main. Eram umas três da tarde. A cidade fica completamente escura às 6. Caminhamos em direção à 7th. A calçada estava coberta por uma fina camada de gelo. Era muito fácil escorregar. Meus pés ficaram gelados e doloridos. Minhas mãos também não estavam bem. O que mais doía eram as orelhas. Toquei a pele do meu rosto, que não sentiu a minha mão. Estava com a face completamente adormecida. Depois, as pernas e os braços ficaram frios. A Fernanda tinha as mesmas sensações. Percebemos que não agüentaríamos andar até o Wall Mart. Resolvemos voltar e nos agasalhar melhor. Eu estava vestindo apenas uma blusa de lã grossa, uma jaqueta e duas calças. Mas, no caminho, pararíamos para tomar um café em algum lugar.
__Tomamos o caminho de volta pela avenida principal. Quando penso em como descrevê-la, me vem na cabeça a palavra riqueza. Mas essa não era a real característica do lugar. A avenida era contornada por estabelecimentos que, por fora, eram muito parecidos com os que temos no Brasil, mas que tinham pintura recente e não eram pichados. A rua não tinha buracos e nem sujeira. Esses são detalhes de um lugar digno, e não exatamente rico. Não é com dinheiro que se deixa a rua no estado de limpeza que víamos, e sim com respeito. A sensação de segurança não vinha só do fato de sabermos que esse era um lugar tranqüilo, mas do comportamento das pessoas com quem cruzávamos, que nos olhavam nos olhos e nos cumprimentavam, mesmo sem nunca terem nos visto, deixando claro que não eram inimigas e não ofereciam risco. Os quadros, os tapetes, os papéis de parede e o estilo do interior dos prédios, sim, tinham relação direta com o poder de investimento de todos aqueles empreendimentos. Mas a limpeza e a segurança são coisas que estão ao alcance dos brasileiros. Podemos ter essas coisas antes de termos toda a riqueza que gostaríamos.
__Entramos numa cafeteria. Nas mesas, as pessoas usavam seus laptops. Pedimos nossos cafés e nos sentamos. Observei o lugar. A cor de madeira predominava. Pelas janelas, podia ver a rua calma, limpa e bela. A beleza que tínhamos do lado de dentro nós também tínhamos do lado de fora. Dificilmente podemos experimentar essa sensação no Brasil. Se, no Brasil, entramos num lugar luxuoso como o que estávamos agora, sabemos que estamos nos afastando da realidade. Pela janela, podemos ver a realidade, onde as crianças esperam que saiamos para pedir moedas, há casas pequenas e maltratadas e ladrões escolhendo suas vítimas. Não era esse o caso da cafeteria onde estávamos. Esta era perfeitamente acessível a trabalhadores de qualquer faixa de renda dessa cidade, e fazia parte do mundo de toda a população local. Em Bozeman, não é necessário entrar num shopping para estar cercado temporariamente de dignidade e se sentir seguro, pois o mundo de Bozeman é todo digno e seguro.
__Voltamos ao Backpackers. Quando estávamos no quarto separando nossas roupas, entrou uma garota perguntando, em português:
__-Vocês são brasileiros?
__-Sim.
__-Ai, que bom! Finalmente!
__A garota se chamava Carla. Vinha de Ponta Grossa, Paraná. Agora, ela iria conosco para o Wall Mart.
__Fomos para a Olive e suas calçadas escorregadias. A Carla ia na frente, e eu vinha com a Fernanda logo atrás. A Carla pisou numa camada de gelo e perdeu todo o atrito com o solo. Suas duas pernas foram para o lado e um barulho alto anunciou o seu impacto contra o chão. Não sei como descrever o som, mas foi algo mais ou menos assim: TUM!
__Ela deu um grito que, de imediato, transformou-se numa risada.
__-Hahaha! Ai! Não acredito. Ai, que dor. Ai gente, ai ai ai... não acredito. Putz! Não pode ser.

____________________À direita, Carla. ___________________________
__Para termos certeza da localização do Wall Mart, entrei num bar e perguntei a direção. Uma mulher me atendeu e repassou a pergunta para um homem, que me pareceu ser seu marido. Eles tinham um sorriso muito grande, que rasgava o rosto. A educação e a gentileza daquele povo me parecia anormal. As pessoas com quem eu tinha conversado até agora exibiam uma simpatia que ia além do necessário para fazer uma pessoa se sentir bem. Elas eram capazes de fazer os visitantes da cidade se sentirem especiais, queridos.
__Agora certos da localização do Wall Mart, caminhamos em direção à 7th Avenue. Ainda na Main, vimos um carro batido sendo removido. Os poucos carros que passavam por essa avenida andavam muito lentamente. Acredito que o acidente foi pura e simplesmente em função da neve, que deixava o asfalto escorregadio.
__Depois de vinte minutos de caminhada, chegamos ao Wall Mart. Antes de mais nada, queríamos comer. Logo na entrada do mercado, havia um McDonalds. Era a hora de descobrir se os lanches realmente são diferentes dos lanches brasileiros ou não.
__Pedi o número 1. A atendente disse algo que não consegui entender e pedi que repetisse. Ela repetiu, e eu continuei sem entender. Pedi mais duas vezes que repetisse. Então ela me perguntou:
__-Do you speak Spanish?
__-A little.
__- 4 e 69.
__Ela estava me dizendo o preço do lanche. Me senti estúpido por não ter entendido uma coisa tão simples quanto esses números. Até então, eu tinha entedido praticamente tudo o que já tinham me falado em Inglês. Fui empacar pela primeira vez logo nos malditos números que aprendemos antes de mais nada nas clássicas aulinhas de inglês.
__Saindo dali, fomos comprar comida e roupas. Eu não quis comprar muita coisa, pois já tinha uma mala bem pesada e uma mochila para levar a Big Sky. Compraria mais coisas outro dia. Por hora, procurei por uma calça social preta. Estava trazendo uma do Brasil, e fora orientado por e-mail pelo RH do Big Sky a trazer roupas sociais. Acontece que eu não entendia as medidas que os americanos usavam para roupas. Peguei umas sete calças e experimentei todas elas no provador. Nenhuma delas serviu perfeitamente. Eram todas grandes demais. De qualquer forma, acabei pegando uma. Todos os ex-intercambistas que eu conhecia me disseram que é fácil engordar nessa país.
__Comprei também uma bota especial para neve. Depois nos reunimos e, ainda sem ter cartão telefônico e sem querer tentar usar o telefone público, pedimos que uma atendente chamasse um táxi para nós. A essa hora, não havia nenhum ônibus circulando e tínhamos bastante peso para carregar.
__Chegamos no Backpackers. Resolvi tomar um banho. O lugar era todo aquecido. De qualquer forma, eu estava sempre sentindo um friozinho. O banheiro era mais frio do que os outros lugares da casa. Entrei, tirei a roupa e fiquei com muito frio. Girei o registro do chuveiro para a direita e nada. Girei para a esquerda e nada também.
__Mais abaixo, havia uma torneira sobre a banheira. Essa era fácil de se abrir. Eu não estava disposto a me vestir de novo e sair pelo albergue perguntando o que deveria fazer para conseguir fazer o chuveiro funcionar. Entrei na banheira e tomei banho de torneirinha.
__Voltei para o quarto. A Carla também dormiria com a gente. E dormiria mal, pois o tombo lhe machucara e ela só conseguiria deitar de lado.
__Fiquei na frente da janela do quarto, olhando a rua e as casas cobertas de neve. Nas últimas noites no Brasil, eu vinha sonhando que estava nos EUA. Quando eu acordava, pensava: falta pouco para chegar lá. Agora, estava indo dormir certo de uma coisa: caso eu sonhasse novamente com os EUA, acordaria dentro do sonho.

3 comentários:

Rojane disse...

Esta parte de tua viajem, ENCANTADORA(tirando a queda da Carla(tadinha)).
Fico imaginando, quanta coisa temos para ver, quantos mundos para descobrir, uma ida apenas e tanto para se ver e contar...
Me peguei no final desta leitura, pensando mais uma vez no que escreveu Amyr Klink(esta no inicio do teu Blog):
"Conhecer o frio para desfrutar o calor". Lembra Nenan?
Te Amo meu """pinguinzinho"""

amyr disse...

veiiiiiiii
essa do chuveiro eh classica man.
me bati tambem! :D
bem legal...
to rindo mto aqui

Anônimo disse...

Bom, se você tivesse se hospedado em algum dos hotéis da rede Accors no Brasil não teria esse problema... acho que a maioria dos registros dos que fiquei é assim.