quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Avião para Salt Lake City - Parte II

___Estou morrendo de sono, mas o assento não inclina o suficiente para que se possa dormir com dignidade. Aceito um cafezinho oferecido pela aeromoça, para ver se perco o sono de uma vez. Os passageiros americanos não estão conversando, então não tenho no que prestar atenção para me distrair. Sentado do lado da janela, começo a olhar através dela, e tudo o que vejo são nuvens. “Nossa! Que legal essas nuvens americanas”.
___Dessa vez, não estou junto da Fernanda. Ela está sentada mais à frente. Depois de uns vinte minutos de viagem, ela vem para o assento ao meu lado, que estava vazio, e começa a fuçar na tela que ficava à sua frente. Ela acessa um jogo de perguntas e respostas. O jogo envolve todos os passageiros do avião, que competem entre si. A cada rodada, a tela mostra quantos pontos cada um dos passageiros fez.
___Algum tempo depois, não mais tantas nuvens. Consigo enxergar o chão verde e marrom. Mais tarde, a visão fica toda branca de novo. que, agora, as nuvens pareciam estar muito mais baixas. Na verdade, elas pareciam estar coladas no chão. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Aquilo era tão estranho. Não sabia se eram nuvens baixas ou uma espuma. Passei uns quinze segundos tentando entender o que via. Do nada, tomo um susto. Era neve!
___Estava vendo a neve pela primeira vez. Era a vista de um imenso plano branco. Parecia um lago coberto por um creme. Ao redor, muitas montanhas coladas umas às outras.
___-Fernanda! Olha, Fernanda! É neve!
___Ela colocou a cabeça na janela, olhou para a paisagem, sorriu e voltou para o jogo.
___Acreditei que ela tinha voltado para a tela para desligá-la. Enquanto isso, eu ficava olhando aquelas montanhas. Comecei a rir de novo. Aquela vista me levava à infância. Tenho álbuns de fotos de família cujas capas são fotos de montanhas cobertas de neve. Desde pequeno, eu pegava essas capas e ficava imaginando como seria estar naquele lugar. Desde que virei usuário da internet, em 2000, freqüentemente faço downloads de várias fotos de paisagens e cidades cobertas de neve. Olhava para elas e descansava, me imaginando numa casa quente, onde eu tivesse uma janela pela qual pudesse observar a paisagem branca, com o céu nublado ou aberto, cinza escuro ou azul. Acho que o céu fica bonito de qualquer jeito quando combinado com uma paisagem fria e branca.
___Agora, eu estava vendo um dos cantos do mundo onde essa paisagem existe. Eu estava entrando na capa dos meus álbuns de fotografia e nas imagens que eu baixei da internet e observei por tanto tempo. Antes da sensação de entrar nos filmes americanos, eu experimentava a sensação de entrar nas fotografias geladas.
___-Fernanda! Olha isso!
___-Aham... mas está difícil de ver daqui.
___-Troca de lugar comigo, então! Aproveita um pouquinho.
___-Não, pode deixar.
___Por alguma razão, aquela paisagem mexia mais comigo do que com ela. Na verdade, acredito que eu era o mais empolgado com a vista que tínhamos dali. Olhei para os passageiros ao redor e não vi ninguém eufórico, apontando, comentando, rindo ou falando alto.
___Eu olhava as montanhas que estavam de frente para a minha janela, entortava a cabeça para ver as montanhas que estavam mais à frente do bico da aeronave e também virava a cabeça para ver de novo as montanhas que eu tinha visto e que agora estavam mais atrás. Os picos das montanhas eram finos. Pareciam cortantes.
___-Fernanda, você viu neve?
___Ela seguia olhando para o jogo.
___-Não, essa é a primeira vez.
___Agora, eu podia ver muito mais montanhas. Até onde a vista alcançava era possível -las. Um espaço imenso que não pode ser habitado e que, da nossa altura, parecia tão vasto quanto um oceano.
___Voamos por uns seis minutos sobre essa paisagem, e continuávamos vendo as montanhas por todos os lados. Acredito que nenhum homem conseguiria chegar andando até as montanhas que eu estava vendo agora, pois estas estavam cercadas por muitas outras montanhas pontiagudas e geladas. Fiquei feliz por achar que, pelo menos aqui, nós, humanos, não seríamos capazes de chegar e destruir. Não árvores para derrubar, nem como chegar ao local para caçar. Aqueles picos brancos pareciam intocáveis.
___Mas, logo depois, me lembrei de umas fotos que vi recentemente, que comparavam a quantidade de neve dos picos de diversas montanhas do mundo dez anos com a quantidade de neve que cobre as mesmas montanhas hoje. Algumas das montanhas não tinham nenhuma neve. Ainda que de longe, estamos conseguindo deformar essa paisagem com o aquecimento global. E o personagem principal dessa degradação, atualmente, é o país que eu estava sobrevoando.
___Pensei que o avião estivesse mais baixo. Na verdade, as montanhas é que estavam muito altas. A proximidade do chão dava a impressão de que havíamos começado o procedimento de pouso.

4 comentários:

sharon disse...

EU ia adorar ver neve no céu!
E dava pra ver ela caindo? Ou o que você via era a nuvem de neve?

Nossa, que inveja...

Beijo, primo!

Renan Caleffi de Oliveira disse...

Oi, prima!

Não dava pra ver a neve caindo não. Só a nuvem.
Quando neva por aqui, é muito engraçado. O céu fica preto, como se estivesse vindo um temporal. Mas a neve cai fraquinha e devagar. Logo, vou colocar umas fotos disso no blog.

Rojane disse...

bah que paisagem linda filho!! do jeito que tu descreves, lembra-me algodão doce(a neve)...
Saudades de ti.

Scarlett disse...

"Nuvens americanas" hehehe I wonder what they look like... Não se sinta estranho por isso ter mexido ctg. Ou melhor, não se sinta o único. Estranhos, nós até q bem podemos ser mesmo. :) Se aquelas bolinhas de cristal de chacalhar com pequenas paisagens de neve dos filmes já me faziam suspirar....