quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A Cabeça do Brasileiro


__Hoje - já em Porto Alegre, levando a velha vida de estudante e estagiário - , no meu horário de almoço, dei um pulo numa livraria para comprar "A Cabeça do Brasileiro", livro recente de Alberto Carlos Almeida. Não havia praticamente ninguém no local. Falei com o simpaticíssimo atendente:
__-Boa tarde, colega. Estou procurando pelo livro "A Cabeça do Brasileiro". É lançamento. Tu tens aí?
__-Deixa eu dar uma olhada aqui no sistema. Pode repetir o nome do livro?
__-A Cabeça do Brasileiro.
__-Tá. É... não tenho aqui comigo. Mas posso chamar e daí chega hoje à tarde mesmo.
__-Não é certo que eu vou comprar.
__-Não tem problema. Vou pedir alguns mesmo assim. Tu foi o primeiro a pedir, mas, já que é lançamento, é bom ter aqui.
__Combinei que passaria mais tarde para comprar o livro, depois de pesquisar uns preços. Chegando no meu serviço, usei o computador para visitar algumas livrarias virtuais e achei que o preço justo seria entre 34 e 38 reais. Telefonei então para o atendente:
__-Amigo, encontrei aquele livro por 34. Tu não me faz por 34?
__-Espera aí. Qual é mesmo o nome do livro?
__-A Cabeça do Brasileiro.
__-Achei aqui. É... posso fazer pra ti por 37.
__-37 está bom.
__Terminado o expediente, fui para a livraria.
__-E aí, amigo? Chegou meu livro?
__-Vamos ver aqui...
__Ele foi para uma prateleira onde havia vários livros marcados com bilhetes e depois me perguntou:
__-Qual é mesmo o nome do livro?
__-A Cabeça do Brasileiro.
__Comprei o livro para entender melhor a cabeça do brasileiro. Antes mesmo de começar a ler, já posso deduzir que essa cabeça tem memória curta.
__Lerei o livro no fim de semana, e depois comento aqui no blog, se eu me lembrar.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Confusões com "pênis"

__As moedas têm nome nos Estados Unidos. Moedas de 25 centavos são chamadas quarters, as de 10 centavos são chamadas dimes, as de 5, nickels, e as de 1 centavo, pennies. A pronúncia de pennies é "pênis". Essa relação me fez pagar pelo menos 1 mico.
__Eu trabalhava na recepção do Mountain Inn. Era hora de fechar o caixa. Meu chefe pediu que eu lhe alcançasse algumas moedas de 1 centavo. Perguntei:
__-De quantos pênis você precisa?
__Esclareço a confusão: uma vez que a pronúncia da palavra pennies é "pênis", eu acabava sentindo que estava falando algo que não deveria. Daí, ao invés de pronunciar "pênis", eu acabava pronunciando "pinãs", que é justamente como se diz pênis em inglês.
__Meu chefe me perguntou:
__-O que você disse?
__-Eu disse: de quantos pennies você precisa?
__-Ah, tá.
__Certo dia, eu descia a montanha com o Dan na sua camionete, que ele chamava agora de Popozuda (palavra que ele aprendeu com este blogueiro). Ele comentou algo sobre a beleza da paisagem e das árvores. Respondi:
__-É mesmo. Tem pênis pra todo lado.
__-O quê?
__-PÊNIS! Digo... pinheiros!
__Ele já ria das minhas trapalhadas não anatômicas com o inglês. Com essa última, então, ele se rachou. Eu tentei dizer pinheiros, que em inglês é "pinus", e cuja pronúncia é "painãs", mas acabei dizendo "pinãs", que, como eu já disse, é pênis em inglês.
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__A paisagem de Montana é coberta de pên... pinheiros.
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__Dan gostava muito de sanduíche de manteiga de amendoim.
__-Renan, por que você não come esse sanduíche que eu faço com manteiga?
__-Não posso comer pênis.
__ O plural de amendoim em inglês é peanuts e pronuncia-se "pinãts". Se tirar o "t" fica "pinãs", que, mais uma vez, significa pênis.
__-O que você disse, Renan?
__-Amendoim... eu não posso comer.
__Passei meus dois últimos meses de intercâmbio com os meus amigos Eddy e Darlene, no Novo México. Sempre conversávamos sobre comida. Eu dizia que o feijão que se come no Brasil tem um gosto um pouco diferente do feijão que se come nos EUA. Um dia, fomos ao Walmart e pediram que eu mostrasse qual feijão eu costumava comer. Ao passar pela prateleira dos feijões, apontei para um deles e disse:
__-Com certeza não é desse feijão que comemos.
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_Feijões pinto. Já comeu?
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__Foto da Popozuda, que vai fazer explodir o número de acessos a este blog, porque tem muita gente na internet procurando sacanagem e que escreve assim no Google: "Foto de Popozuda. " Aí o cara cai num blog de intercâmbio com foto de camionete e fica louco!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Casas de Silver City

__Vivi dois meses em Silver City, estado do Novo México, onde moram meus amigos Eddy e Darlene. Nesse post, coloco fotos de algumas casas da vizinhança onde eles moram.
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A foto acima eu bati em uma área mais pobre da cidade. Vale a pena ampliá-la e observar os detalhes. Achei o lugar parecido com várias regiões de São Paulo.
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Um jeito econômico de se morar nos Estados Unidos é numa casinha móvel como essa da foto acima. Elas são trazidas por caminhões já nesse formato. Bem arrumadas, dão mais espaço e conforto do que pode parecer.
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Pouquíssimas vezes vi pessoas andando pelas ruas e calçadas dessa cidade. Tampouco há transporte público. Se você quer ir a algum lugar, é preciso ter carro. Fiquei pensando se não acabaria arrumando encrenca sendo o único a perambular, ainda mais fotografando casas.
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__Por alguma razão inexplicável, sempre que eu passava pela casa acima, eu me lembrava do filme "Edward mãos de tesoura". A propósito, os filmes das sessões da tarde de lá são os mesmos que vemos aqui: Edward, Quero ser Grande, Máquina Mortífera, Robocop... até nisso os americanos nos imitam.
__A última é demais: uma limousine enferrujando ao sol.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O caso Roswell

__Há uns dez anos, o Fantástico exibiu um filme que seria a autópsia de um alienígena que teria caído na cidade de Roswell, estado do Novo México, nos Estados Unidos. Acho que eu tinha uns oito anos quando as imagens apareceram, e por isso me lembro bem de tudo: aquele E.T maldito me deixou sem dormir por uma semana!
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__Nos meus dois meses de passeio pelos EUA, acabei caindo na tal cidade do E.T. Linda cidade, diga-se de passagem, e bem humorada. Nas avenidas e ruas principais, incontáveis lojas fazem referências a alienígenas em suas placas e luzes. Os bichinhos carecas de olhos pretos estão em todos os cantos.
__A cidade tem um "centro de pesquisas ufológicas" - entre aspas porque o que vi não se parece nada com um centro de pesquisas - e um museu que ficam no mesmo prédio. Pela entrada, você logo vê a seriedade com que se pode encarar o lugar:
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__Nesse post, mostro como foi minha visita ao "museu".
__Logo que você entra, dá de cara com um enorme e ridículo disco-voador brilhante protegido por correntes. Quando se aproxima, você não acredita no que vê: no meio de um museu que quer ser levado a sério, um disco-voador de... lantejoula? Não. Não é possível.
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__Só encostando pra acreditar. Você estica o braço para tocar, mas percebe que tem um bilhete alertando para algo:
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__Sim, esse disco-voador é feito de lantejoulas. Por favor, não toque!
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__Pelas paredes, há jornais pendurados de todo o mundo, noticiando mistérios relacionados a abduções e OVNIs, e também textos e imagens resumindo relatos sobre criaturas estranhas. Entre as criaturas, adivinhem só quem aparece?
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__Ele mesmo! O E.T de Varginha! AÊÊÊÊÊ GAROTO! Esse sim é um alien!
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__Em outra parede, a foto que é a prova cabal da veracidade dos relatos de abdução: o pescoço TATUADO de uma brasileira. Foi um E.T quem fez a tatuagem! Se depois dessa você continua não acreditando que E.Ts visitam a Terra o tempo todo, você é um idiota!
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__Meu momento de maior diversão foi quando encontrei os quadros que tentavam explicar o já manjado "mistério" dos Crop Circles:
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___Crop Circles
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__Dêem só uma lidinha no esclarecimento abaixo! Depois dessa, você não precisa ler mais nada sobre o assunto.
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__Crop Circles podem ser ligados a impressões físicas de uma consciência de outro nível de realidade, possivelmente de um plano quadridimensional. Se for isso, no nosso mundo tridimensional, o que nós percebemos no chão como círculos são, na verdade, esferas em outro nível de realidade. O fenômeno é análogo a um humano tridimensional desenhando uma esfera em um plano ou em um pedaço de papel.
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__Para quem estiver interessado em uma explicação de verdade para os círculos cada vez mais complexos que aparecem desde 1970 em plantações de cereais, recomendo o livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios", de Carl Sagan. O autor conta a história de Doug Bower e Dave Chorley, que demonstraram aos repórteres como eles faziam os círculos usando simples pranchas de madeira.
__Logo ao lado do museu, o tal centro de pesquisa, que não passa de um corredor com livros e uma estante cheia de brinquedinhos à venda.
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domingo, 4 de novembro de 2007

Política nas placas

__Não me lembro se tirei a foto abaixo no Arizona ou no Novo México. No canto inferior direito, está escrito "Buck Fush". O significado aparece quando você troca o F por B e o B por F.
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__Clique na foto para ampliá-la.
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__Essa outra eu tirei numa cidadezinha da Virgínia.
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__Esta última tirei na cidade de Roswell, aquela onde um disco voador teria caído e um corpo de alienígena teria sido encontrado. A história inspirou o filme "O Caso Roswell". A placa na frente da casa diz: "Nós apoiamos Bush e nossas tropas."
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__Clique na foto para ampliá-la.

sábado, 3 de novembro de 2007

Dinheiro brasileiro

__Mostrei para vários americanos as cédulas de real. Eles sempre ficam impressionados com as cores do nosso dinheiro. Acham incrível como cada nota pode ser de uma cor diferente. A nota de vinte, então! Um espetáculo!
__A ironia é que, no Brasil, quando os bandidos invadem a casa do cidadão e apontam armas para seus familiares, eles não dão a mínima para as cores do real. Eles pedem logo as verdinhas.

Loja de armas

__Eu andava pela rua principal de Bozeman quando passei na frente de uma loja de armas do tamanho de um supermercado. Entrei para matar a curiosidade. Uma pena eu não ter a máquina fotográfica comigo naquele dia. Nem tanto para tirar fotos da loja, mas do senhor simpático que, ao me ver olhando um revólver, perguntou:
__-Problemas com os vizinhos?

Mais uma do Dan

__Não gosto de contar histórias nojentas. Mas meu compromisso é retratar todos os elementos de um intercâmbio, incluindo os nojentos. O jeito é ser breve.
__Estou na minha cama lendo quando entra o Dan no quarto e me pergunta:
__-Renan, você viu meu chapéu de cagar?
__-O quê?
__-O chapéu que eu uso quando eu vou ao banheiro.
__-Ah não. Você tá brincando.
__-É sério!
__-Por quê você precisa de um chapéu para ir ao banheiro?
__-É pra ajudar na concentração. Facilita as coisas. Sem o chapéu, eu não consigo.
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__Esse é o Dan, numa foto editada por ele próprio.
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Você pode ler todas as histórias do Dan clicando aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Jeitinho americano 8

__Lembram-se de quando eu disse que o Jeitinho americano 7 seria a última história de jeitinho americano? Eu menti.


__Para entender essa piada, você precisa ter assistido Comando para Matar.
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__Do lado do primeiro alojamento onde morei em Big Sky, o Golden Eagle, havia uma academia. Para poder malhar lá, era preciso pagar uma mensalidade. Decidi não pagar pelo serviço, para ficar mais fácil recuperar o investimento que fiz na viagem. O preço que paguei por essa decisão foi ter que importar 14 quilos de gordura na minha volta ao Brasil.
__Um amigo americano, com quem convivi bastante, volta e meia me convidava para ir à academia com ele. Ele insistia para que eu começasse a pagar a mensalidade, mas eu nunca topei.
__Certo dia, caminhávamos para nossos trabalhos quando ele me disse:
__-Renan, tenho uma coisa aqui para você.
__Ele tirou uma chave eletrônica do bolso. Era a chave que ele usava para acessar a academia. Depois, tirou outra e apontou para mim:
__-Renan, consegui essa aqui para você.
__-É a chave da academia?
__-É sim. Achei no chão. Pega. É sua.
__Peguei a chave. Com ela, eu poderia acessar a academia quando quisesse, sem precisar pagar.
__Continuamos andando, enquanto eu segurava a chave e pensava numa forma de devolvê-la sem ferir os sentimentos do colega. Levei mais ou menos um minuto para bolar o que diria:
__-Sabe, colega... o Brasil está muito ruim hoje. Eu já te disse isso. Ninguém pode confiar em ninguém. Eu não quero colaborar para que essa situação piore. Claro que o Brasil não vai mudar por minha causa, mas você sabe. Eu gosto de fazer a minha parte. Não posso aceitar isso.
__Eu sei que eu não estava no Brasil. O que eu tentei dizer foi que ele deveria agir assim também, para não deixar os bons costumes daquela cidade se perderem.
__Ele pegou a chave de volta e disse:
__-Entendo.
__Eu defendi o meu argumento da maneira mais descontraída e simpática que pude. Mas não teve jeito. Ele ficou envergonhado, com cara de quem levou uma mijada do pai.
____Big Sky: sonho de férias e de aposentadoria.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Jeitinho americano 7

__Éramos cinco brasileiros, um peruano, um sul-africano e dois americanos na bilheteria. As quintas-ferias eram muito mais movimentadas do que os outros dias da semana. Por isso, uma americana e uma tailandesa se juntavam a nós para não deixar que filas de compradores de ingresso se formassem.
__A americana tinha uns vinte e cinco anos. Era formada em matemática. Apaixonada por esportes, passava o inverno inteiro em Big Sky para poder esquiar todas as semanas. Trabalhando para o resort, ela podia esquiar de graça.
__Ela era uma guria light. Trabalhava também em um restaurante, de onde trazia saladas que comia ao longo de todo o dia. Gostava principalmente de cebola, o que não seria problema se tomasse banho todos os dias e escovasse os dentes. Mas o cheiro não era a única coisa que incomodava os meus colegas. Ela dedicava boa parte do seu tempo a ficar julgando as atitudes dos companheiros de trabalho. Abaixo, algumas de suas máximas:
__"Você bebe cerveja? Não acredito. Isso faz mal pra saúde".
__"Vocês têm que parar de comer porcaria. Parem com chocolate quente e hambúrgeres."
__"Por que vocês ficam fazendo piadinhas sobre vocês mesmos? Vocês acham graça em ficar reparando nos defeitos dos outros?"
__"A maioria das pessoas não sabe o que é se divertir. Pra mim, diversão é ficar em casa lendo um bom livro, ter uma boa conversa com um amigo..."
__"Boates. Odeio boates! Que espécie de pessoa você vai conhecer numa boate?"
__Quase todos esses comentários são pertinentes. O engraçado foi descobrir depois de quatro meses quem realmente era essa dona da moral e da saúde.
__Os visitantes do resort ganhavam pontos por cada ingresso que compravam para esquiar. Para contabilizar esses pontos, pegávamos o cartão de crédito do cliente, depois seu cartão de skier e cruzávamos os dados. Nossa colega americana das quintas-feiras tinha um método um pouco diferente de realizar o procedimento, método esse que só foi descoberto a menos de uma semana de o inverno acabar e o resort fechar. Ao invés de usar o cartão de pontos do cliente, ela usava o dela. Durante quatro meses, ela se apropriou dos ganhos dos clientes e, com isso, garantiu horas gratuitas de esqui para os amigos, descontos em hotéis, em aparelhos de esqui, em almoços e em várias outras coisas.
__Como fazia para não ser pega? Simples: quando algum colega ia ao banheiro ou saía do seu computador por alguma razão qualquer, ela se prontificava:
__-Amigo, deixa que eu cuido dos seus clientes aqui!
__Sua camaradagem servia para que ela usasse os computadores dos "amigos" para roubar. Assim, quando o chefe fosse conferir os caixas no fim do dia, os desvios seriam constatados em todos os computadores, menos no dela.
__Casey, um dos colegas americanos, percebeu a sacanagem quando ela saiu do computador dele depois de uma de suas ladroagens, esquecendo-se de apagar os rastros. A amiga que o abraçava, que esquiava com ele, que brincava com ele, que dizia que ele era um barato, que pulava, sorria e gritava quando o via, era sua inimiga oculta, que colocava seu emprego e seu respeito em risco.
__Loura, olhos azuis, pele rosada, fala suave, saudável, sorridente, simpática, amiga e bandida. Ela encerra as histórias de jeitinho americano deste blog.
__Se bem que é muito cedo para dizer isso. Foram tantos! Volta e meia me vem um na cabeça.
__Como não há provas contra ela, seus benefícios adquiridos valerão por tempo indeterminado. Vai usufruir dos seus furtos numa boa. Nem demitida ela foi.
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__Quando o trabalhador deixa sua cadeira vazia, entra em cena a protagonista do maior causo de jeitinho deste blog.

Jeitinho americano 6

__Era o último dia de esqui. Na manhã seguinte, o resort fecharia as portas. A neve derretia e levava consigo a paisagem que, dali pra frente, eu só teria na minha memória e nas minhas fotos. A saudade que já me tomava fazia com que tudo o que eu visse ficasse impresso com força na minha mente, e uma das coisas que vi nessa condição foi justamente mais um dos jeitinhos americanos.
__Caminhando na frente do hotel onde mais gostei de trabalhar, o Mountain Inn, encontro um dos americanos com quem mais convivi durante o intercâmbio. Ele me viu primeiro:
__-Olha o que eu achei na neve, Renan!
__Ele me mostrou um iPod.
__-Pena que está no fim da temporada. Está funcionando perfeitamente. Alguém perdeu na neve.
__Durante os três meses que trabalhei nos hotéis do resort, tive que procurar por dezenas e mais dezenas de itens perdidos por donos tristes, nervosos e loucos da vida que perdiam relógios, carteiras, tocadores de mp3 e outras coisas. As caixas de achados e perdidos raramente tinham o que procuravam, pois o resort estava cheio de gente como esse meu colega da Pensilvânia.
__-No inverno que vem, eu vou poder esquiar quatro meses ouvindo música. Vai ser incrível.
__Não me lembro se foi essa a última ou a penúltima vez que vi o cara, para quem devolver o que não lhe pertencia não lhe parecia algo que lhe coubesse fazer.
__Foram muitas as histórias desse blog sobre jeitinhos latinos e americanos. Ter vivido esses episódios foi um dos maiores ganhos do meu intercâmbio. Coisa difícil é achar alguém que preste nesse mundo. A expressão "jeitinho brasileiro" já não faz sentido para mim.
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__O inverno se despede e cores quentes vão tomando conta da paisagem. Hóspedes vão embora para nunca mais encontrar seus pertences.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Comendo porcaria e engordando

__O João, além de vendedor de ingressos e cozinheiro, cuidava de crianças na creche do resort. Certo dia, um holandês apareceu lá para deixar a filha e resolveu perguntar a ele sobre as opções de comida na cidade:
__-Hey, eu queria te perguntar uma coisa: onde é que se come bem por aqui? Digo... não quero nada muito caro, nada de luxo. Queria um lugar que não fosse muito caro, mas que tivesse uma comida gostosa. Onde é que tem?
__O João só balançou a cabeça para os lados.
__-Não tem isso aqui não.
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__Os tipos mais conhecidos são os caras que sabem um pouco de muito e os caras que sabem muito de um pouco. O João é dos caras que sabem muito de muito. O defeito dele é que ele acha que Contábeis não é uma ciência, e sim uma técnica. Vem aqui na UFRGS que a gente vai te dar um pau!
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__A comida é uma queixa constante em Big Sky. Todo relatório mensal de satisfação dos clientes que caía na minha mão tinha reclamações do tipo: "A comida aqui é cara e ruim. Não se consegue comer bem em lugar nenhum." Eu comentava com os locais sobre como eu sentia falta da comida do Brasil. Um deles me disse:
__-Cara, por favor, não pense que a comida de Big Sky é igual à comida do resto dos Estados Unidos. A comida daqui realmente é uma bosta, mas fora daqui não é assim.
__Terminado meu período em Big Sky, viajei pelo país e vi que o problema realmente é com a comida da cidade, não dos EUA. Come-se muito bem pela estrada. E engorda-se muito bem também. Eu e a Karlão engordamos 10 quilos cada um.

__Karla. Pra ajudar a descer a comida de Big Sky, vale até neve.
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__Não me esqueço da vez em que dois brasileiros apareceram no hotel para participar de uma conferência e fizeram para mim a mesma pergunta que o holandês fez para o João:
__-Cara, você que é brasileiro, nos diga uma coisa: tem algum lugar bom pra comer aqui?
__-Não.
__-Putz!
__-Se vocês tiverem grana, até posso recomendar algumas coisas que o pessoal aí gosta.
__-Não, não. A gente não tem grana. Recomenda o mais barato.
__-Certo. Vocês podem ir na cafeteria. É só descer as escadas aqui da direita, virar a esquerda e seguir em frente.
__-Mas como é que é a comida? Dá pra comer?
__-Dá, mas é uma merda.
__Eles riram e depois foram perambular pelo hotel. Mais tarde, no meu horário de almoço, fui comer a minha porcaria do dia na cafeteria e lá estavam os dois brasileiros, comendo hambúrger com cara de tristeza, sobrancelhas para cima numa expressão de nojo e angústia diante da dúvida entre morder mais um pedaço ou botar pra fora tudo o que já entrou.
__Passei por eles e fiz uma brincadeirinha com aquela cena hilária. Mais tarde, eles passaram pela recepção só para comentar comigo:
__-Renan, realmente, era uma merda.
__-Eu disse.

__Você entra na cafeteria do resort e vê as pessoas com essa cara. Então você pega o seu prato, morde o seu lanche e entende tudo.

__No meu penúltimo dia no resort, eu era todo nostalgia. Dava tchau até para as paredes. Sabia que sentiria uma saudade doída daqueles dias incríveis num paraíso de gelo e montanhas. Nesse clima de despedida, até aquela comida horrorosa da cefeteria eu queria bem. Fomos eu e o João nos despedir daquelas carnes nojentas, daquelas costelas sem carne, daqueles frangos ensopados de gordura, das alfaces murchas, das cebolas fedidas e dos camarões podres.
__Para quem não consegue viver comendo mal, vai a seguinte dica: o território americano é enorme. Fique longe de Big Sky.

__A EXCEÇÃO: asas de frango mergulhadas em molho barbecue com mel. Não dá pra perder. É uma delícia do Milkies. Assim que chegar em Big Sky, não deixe de provar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Nem todos gostam de Big Sky

__É fato que achei Big Sky uma cidade dos sonhos. Mas nada impede que algum intercambista chegue lá e nem ache tudo isso.
__Apenas um dos brasileiros com quem vivi não gostou do local. Ficou entediado do começo ao fim e torturou-se com uma contagem regressiva das horas para deixar os EUA. No seu último dia na cidade, andávamos no mesmo ônibus em direção ao banco enquanto ele falava:
__-Velhão, ocê num tem noção de como eu tô feliz! Cara, cê não sabe! É demais! Doidimais estar finalmente indo embora pro Brasil! Que saudade do Brasil, Velhão!
__-Mas cara, olha essa paisagem! Olha pela janela! É a última vez que tu tem essa vista de dentro de um ônibus. Olha a paisagem!
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__-Velhão, eu tou pouco me fodendo pra essa paisagem. Hehe!


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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Brasileiros falam espanhol

__A maioria esmagadora dos americanos acredita que os brasileiros falam espanhol. Também há os que acreditam que falamos "brasileiro". Abaixo, duas das situações engraçadas que vivi por causa dessa confusão:
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__Eu trabalhava na bilheteria quando tive que atender o telefone. Do outro lado da linha, um americano pediu informações sobre preços de ingressos. Depois das informações que passei, ele me perguntou:
__-De onde é esse sotaque?
__-Do Brasil.
__-Brasil! Eu pensei que fosse do Canadá! É muito parecido com o sotaque canadense.
__-Dessa eu não sabia.
__-É verdade. Mas tudo bem então, amigo. Graceas!
__O cara abafou, hein?
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__Desta vez eu trabalhava na recepção de um hotel. Um hóspede de uns 30 anos chegou com uns quatro amigos:
__-Oi! Tenho uma reserva.
__-Ok, vamos lá. Qual o seu nome?
__-Ei! Você é do Brasil?
__Ele viu o meu país no crachá.
__-É. Sou de lá.
__-Como estás? Hasta la vista. Uno, dos, tres...
__-É, é...
__-Eu queria aprender a falar espanhol um dia.
__-Eu também.
__-O quê? Você não fala espanhol?
__-Não.
__Os amigos dele caíram na gargalhada. Daí ele disse para um dos que estavam com ele:
__-Ah! Até parece que você sabia disso. Que língua você acha que os brasileiros falam?
__O rapaz respondeu:
__-Os brasileiros falam português.
__Os outros olharam para mim e pediram confirmação. Respondi:
__-É isso aí.

sábado, 22 de setembro de 2007

Jeitinho colombiano

__Em um dos hotéis onde eu trabalhava como recepcionista, um dos camareiros era um colombiano de uns vinte e poucos anos que vivia levando bronca da sua chefe por falta de disciplina. Era um cara que aparecia bêbado no trabalho, dava festas proibidas no alojamento oferecido pelo seu empregador e dava cantadas nas hóspedes menores de idade. O Big Sky Resort chama a atenção dos seus visitantes por ter tantos trabalhadores de tantas nacionalidades diferentes e os americanos vivem perguntando aos intercambistas de onde eles vêm. Aquele colombiano certamente estava manchando a imagem do seu país nos Estados Unidos. Uma amiga americana me diz que ele estava, na verdade, mostrando aos americanos o quão semelhantes os jovens dos dois países podem ser.
__Eu e meus colegas de trabalho vivíamos recebendo presentes dos hóspedes (presentes no bom sentido). Ganhamos camisetas, comida, assessórios de esqui e outras coisas de que os clientes não precisavam mais. Era prática entre os trabalhadores dividir o que ganhavam. Se eu ganhasse pizzas, chamava os colegas e comíamos juntos. Aquele colombiano também entrava na prática amigável.
__Foi por isso que aceitei sem desconfiar um prato de nachos que ele me ofereceu quando eu passava na frente do restaurante onde ele tinha o seu segundo emprego:
__-Renan! E aí?
__-Oi, como vai?
__-Bem. Aceita uns nachos?
__-Claro!
__-Espera aí que eu vou lá pegar pra você.
__Ele entrou na cozinha e apareceu com uma tigela enrolada numa toalha.
__-Estão aí, mas estão quentes. Melhor você comer depois.
__-Ok. Obrigado.
__Estávamos no corredor do shopping onde ficava o restaurante. Sentei em um banco e fiquei com a tigela no colo. Ele também sentou ali e, amigavelmente, começou a fazer perguntas, sorrindo todo embaraçado:
__-Renan, a minha chefe perguntou algo pra você?
__-Como assim?
__-De mim. Ela perguntou algo?
__-Não.
__-Nada?
__-Nada.
__-Se ela perguntar, não conta, ok?
__Aqueles nachos eram um presente no mal sentido. Pior que eu nem sabia do que é que ele estava falando. Mas eu estava louco pra ver aquele cara sendo demitido.
__-Por favor, não conte, Renan.
__Fiquei irritado com aquela palhaçada. Olhei feio pra ele. Acredito que ele entendera que não podia confiar em mim.
__-Cara, estou indo embora. Você precisa da tigela?
__-Não. Pode ficar.
__-Até mais.
__Dividi os nachos com os colegas de um outro hotel onde trabalhava. O colombiano aprontou até o fim da estação, mas nunca foi demitido.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Questão de confiança

__Não me lembro se eu estava entrando no Walmart ou em algum minimercado. Só sei que eu estava carregando uma sacola de plástico com comida que eu comprara antes em algum outro lugar.
__Assim que entrei, procurei pelo guarda-volumes, mas não encontrei nada. Falei com uma funcionária que passava:
__-Com licença, onde posso deixar essa sacola?
__-Como assim?
__-Eu queria entrar para comprar umas coisas. Onde eu posso deixar isso?
__-Você não quer levar com você?
__-Posso?
__-Por que não?
__O rosto da funcionária mostrava confusão total. Ela não tinha idéia do que eu estava falando. Agradeci e entrei nos corredores do mercado, carregando todos os meus pertences.
__Já fazia uns três meses que eu estava nos Estados Unidos quando isso aconteceu, mas coisas assim continuavam me surpreendendo. Os grandes mercados brasileiros sempre têm um espaço na entrada para se deixar sacolas. Se esquecemos de deixar ali o que estamos trazendo, um segurança nos lembra de que temos que deixar nossas sacolas ali, ou lacrá-las. Mercados menores nas cidades grandes ou em cidades pequenas não têm essa regra. Mas quando chegamos para um de seus funcionários e perguntamos se precisamos deixar nossas sacolas em algum lugar, eles sabem do que estamos falando. Todos sabem dos ladrões que entram com uma mochila e vão jogando produtos para dentro dela. Cidades brasileiras de interior podem até não conviver com o problema, mas o conhecem da televisão ou das histórias contadas por viajantes e amigos.
__Coisa parecida não chegou ainda aos ouvidos dos moradores de Montana. Eles devem pensar: por que um cidadão não poderia entrar com suas sacolas dentro de um mercado?
__Depois de sair de Big Sky, fui recebido por um casal de amigos americanos em Silver City, no estado do Novo México. Seus nomes são Eddy e Darlene. Eles me hospedaram em sua casa por dois meses. Viajamos várias vezes ao longo desse período. Na volta de uma das viagens, encontramos na frente da sua casa uma caixa, mais ou menos do tamanho de uma televisão de 20 polegadas. Disse a minha amiga Darlene:
__-Renan! É a sua caixa! É a caixa que enviamos para o Brasil no ano passado e que nunca chegou!
__Em 2006, eles me enviaram um presente. No dia em que fui retirá-lo numa agência dos Correios, descobri que o total de impostos de importação que eu deveria pagar era de mais que o dobro do valor do que havia dentro da caixa, um belo tabuleiro de xadrez. Decidimos que eu não retiraria o presente. Apenas deixaria a caixa voltar para os Estados Unidos e a pegaria quando fosse para Silver City. Era essa caixa que estávamos vendo de dentro do carro. Sua viagem de volta de Porto Alegre até os EUA levou mais de seis meses.
__Vocês conseguem imaginar uma coisa dessas funcionando no Brasil? Os Correios deixando uma caixa com presentes caros na calçada da sua casa, na certeza de que nenhum espertinho vai pegá-la durante o dia ou durante a noite? Parece piada, não é? Nem mesmo pessoas estão seguras nas calçadas brasileiras. O que dizer de caixas?
__Em Montana e em Silver City, a certeza da honestidade é tão forte quanto a certeza da impunidade no Brasil. Da mesma forma que para nós já é ridícula a imagem de um senador sendo cassado, para eles é ridícula a imagem de alguém escondendo produtos de mercado numa sacola, ou roubando caixas que ficam nas calçadas dos seus donos.
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__Rua de Silver City. Casas sem grades e encomendas deixadas nas calçadas pelo serviço postal.
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__Eddy e Darlene Rinker, minhas amizades mais preciosas, pessoas para se ter no fundo do coração por toda a vida. Vocês sabem o quanto eu amo vocês. Bom seria se os cidadãos de todo o mundo tivessem a chance de conhecê-los antes de julgar o povo do seu país.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Fotos para matar a saudade

__Quando estou com a minha máquina, tenho mania de tirar mil fotos de um mesmo lugar, numa tentativa de obter imagens perfeitas.
__Na minha viagem para os Estados Unidos eu me comportei de outra maneira. Queria ter lembranças dos momentos que vivi e por isso tirei foto de tudo que era canto, sem o menor cuidado. Se eu estivesse dentro de um ônibus e percebesse que um dia eu sentiria saudades do que estava vendo pela janela, pimba! Foto batida.
__Recomendo a todos os viajantes que façam o mesmo. Agora que estou de volta ao Brasil, de vez enquando abro minha pasta de fotos e sou transportado para os lugares que visitei, tendo lembranças muito fortes das sensações que tive viajando.
__Abaixo, algumas das fotos que me enchem de saudade:

__Sétima Avenida em Bozeman. As cenas do cotidiano são embelezadas por montanhas cobertas de neve.
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__Andar por essas ruas me fez pensar seriamente em abandonar a vida de cidade grande. Ficava imaginando a vida das famílias dentro dessas casas, algo que um programa de intercâmbio de trabalho não permite conhecer muito bem.

__Mudei de alojamento faltando duas semanas para o fim do meu período de trabalho. A partir dali, esse era o belo caminho que eu fazia todos os dias para chegar em casa.

__Num dos meus passeios perto das montanhas, acabei hipnotizado por essas árvores. Fiquei andando em círculos e batendo foto de tudo. O céu dessa cor me fazia desejar viver ali para sempre.

sábado, 8 de setembro de 2007

Abaixa aí.

__As entrevistas de emprego no exterior são quase sempre a mesma coisa. Por isso, as agências de intercâmbio sabem quais são as perguntas que os selecionadores geralmente fazem aos intercambistas e o que eles querem ouvir como resposta.
__Recomenda-se sempre que o estudante saiba algo sobre a empresa onde quer trabalhar e sobre o grupo que controla essa empresa. Um dos grandes grupos administradores de estação de esqui nos Estados Unidos é o Boyne Resorts, a quem pertence, inclusive, o resort onde trabalhei, o Big Sky Resort.
__Se você vai participar de uma feira de emprego promovida pelo Boyne, é importante que você saiba o que significa Boyne: Bend Over You are Now a Employee (abaixa aí. Agora você é um empregado).
__Essa quem me contou foi o meu colega de quarto nos Estados Unidos, o Dan. Diz ele que a piadinha surgiu porque o grupo paga uma miséria aos seus empregados. De fato, todos os empregadores ao redor do Big Sky Resort pagam melhor que ele.
__O salário mínimo do Big Sky Resort é de 7,25 dólares a hora. Para quem trabalha 21 dias por mês, 8 horas por dia, isso equivale a aproximadamente 2 300 reais mensais. Que miséria deliciosa, não? É por isso que é complicado voltar de lá. Muita gente experimenta e gosta de dar uma abaixadinha dessas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Bucks T4 Lodge

__Recebi um e-mail da Intercultural falando de uma feira de emprego que vai rolar em Floripa no dia 18 de setembro. Um dos empregadores é o Bucks T4 Lodge.
__Esse é um hotel que fica em Big Sky, a cidade onde passei a maior parte do meu intercâmbio, e vocês podem estar certos de uma coisa: trabalhar lá é satisfação garantida de intercâmbio inesquecível. Pra quem gostou das coisas que descrevi nesse blog, mas está achando difícil ser contratado no Brasil pelo Big Sky Resort, essa é a grande chance. Uma vez dentro do Bucks, que é um dos melhores lugares para se trabalhar, é possível conseguir emprego no Big Sky Resort, no Moonlight Basin ou em qualquer negócio que tenha ao redor. Nenhum desses lugares fica a mais de 30 minutos do outro, sendo que o transporte dentro da cidade é gratuito.
__É importante lembrar que Big Sky tem só 500 habitantes. Ela é uma cidade turística por causa do esqui, das montanhas, da quantidade absurda de neve e só. Para quem gosta de vida urbana, esse não é o lugar certo. Mas se você quer saber como é viver nas montanhas e saber o que é enfrentar temperaturas de até 47 graus negativos, não pense duas vezes. Além de a paisagem ser espetacular, o povo de lá é inacreditavelmente amigável e hospitaleiro. Isso para não falar no Yellowstone Park. Pesquisem sobre esse parque! É uma das maiores belezas naturais americanas. PESQUISEM!
__O recado está dado! O intercâmbio da vida de vocês está aí. A feira é dia 18.
__Eu odeio estar fazendo essa propaganda sem ganhar nada! Por isso, no dia 18, esse post sai do ar. É que não pude deixar passar a oportunidade de alertar que visitar Big Sky já no ano que vem ainda é possível!

Coisas que os intercambistas têm que engolir

__Às vezes me perguntam por e-mail se os americanos são rudes com os estrangeiros. A resposta é não, muito pelo contrário. É verdade que durante meu período de trabalho nos EUA eu engoli certos desaforos, mas nada que não aconteceria comigo aqui no Brasil mesmo.
__Abaixo, alguns dos sapos engolidos por mim e meus colegas:

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__Eu estava trabalhando na recepção do Huntley Lodge, hotel que fica na estação de esqui que mais emprega intercambistas na região, o Big Sky Resort, quando uma hóspede apareceu louca da vida:
__-Eu tentei trocar esses ingressos do Moonlight Basin na bilheteria daqui, mas eles não me deixaram, e eu não consigo fazer essa troca em nenhum lugar.
__-Desculpe, senhora. Eu também não posso fazer essa troca. O Moonlight é outro resort. Embora os dois resorts sejam ligados, a gente só pode manipular os ingressos do Big Sky.
__-Não me diga que você não pode. Eu sei que você pode, mas a verdade é que você não quer.

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__Minha colega brasileira Priscilla trabalhava comigo na recepção do Huntley Lodge quando uma senhora chegou enrolada numa toalha e lhe disse:
__-Eu não encontro uma porcaria de toalha naquela piscina. E ela está gelada!
__-Perdão, mam. Eu vou mandar umas toalhas agora mesmo e vou pedir para a manutenção checar a piscina...
__A senhora gritou:
__-Quem falou em piscina? Eu disse Hot Tub! Por que você não manda alguém para arrumá-la de uma vez?

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__De tempos em tempos, os funcionários do Huntley Lodge tinham acesso a um conjunto de reclamações e elogios feitos por escrito pelos hóspedes. Consultando esse relatório, tínhamos uma noção do que poderíamos melhorar no nosso trabalho. Certa vez, lemos a seguinte queixa feita por uma visitante:
__"Na próxima vez que eu visitar o resort, eu gostaria de ser atendida por alguém que fala inglês. Não tenho nada contra estrangeiros. Mas, na próxima vez, eu gostaria de ser atendida por um americano".
__Essa visitante provavelmente foi atendida por um intercambista que teve alguma dificuldade na hora de falar inglês. Acho que essa situação não se repetiria no nosso país, pois é difícil imaginar um americano tendo que trabalhar no Brasil e apanhar do português para conseguir pagar pelo seu programa de intercâmbio. Mas todos nós sabemos que o nosso povo sabe ser hostil e desonesto com os visitantes estrangeiros e que comentários preconceituosos contra vários países rodam por aí como fofoca, sendo que muitos desses comentários costumam sair da boca do próprio Presidente da República.
__Também é importante lembrar de uma prática irritante dos estrangeiros que trabalham nos EUA: quando eles não entendem o que um cliente americano pergunta, eles ficam sorrindo, fingindo que entenderam o que foi dito. Eu fiz isso no hotel onde trabalhava até levar uma bronca do meu chefe. Recomendo aos intercambistas que não tentem enrolar os clientes com sorrisos. Caso não entendam alguma palavra, peçam que o cliente a repita. Se ele usar expressões que o intercambista não conhece e sabe que não vai entender, é bom chamar alguém que domine melhor a língua para ajudar.
__Os americanos conhecem muito bem e odeiam essa tática de ficar sorrindo e fingindo que entendeu.

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__O Huntley Lodge recebia os hóspedes às 4 horas da tarde. Às 10 da manhã, esses hóspedes deveriam deixar o hotel ou pagar uma nova diária. Embora todos eles fossem informados dessa regra várias vezes, muitos gostavam de ficar enrolando no quarto e acabar saindo depois da 1 da tarde. Por isso eu deveria telefonar para os quartos dos enrolões todas as manhãs e informar mais uma vez sobre o horário de saída.
__Certa manhã, liguei para o quarto de uma hóspede atrasada para lembrá-la da regra. Eram aproximadamente 11:30.
__-Alô?
__-Bom dia, mam. O horário de saída é 10 da manhã, então eu estou ligando para saber quando vocês pretendem sair ou se vocês pretendem extender a reserva.
__-Ah, sim. Eu vou sair às 2 da tarde hoje, mas não vou extender a reserva.
__-Entendo. Bem, na verdade, como o horário de saída é 10 horas, a senhora precisa falar diretamente com a gerente do hotel para pedir esse horário especial...
__-Não, não, não. Você não está entendendo. Eu não vou pedir nada. Eu só estou deixando você saber que eu vou sair mais tarde.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Nos EUA não tem pinguço

__Eu trabalhava na recepção do Huntley Lodge quando um visitante bêbado apareceu com a sua esposa.
__-Olá. Como posso ajudá-lo?
__Ele sorria o tempo todo, enquanto a esposa mostrava um rosto tenso, temendo pelas bobagens que poderiam escapar da boca do seu marido.
__-Oi. Eu tenho um quarto reservado.
__-Ok. Confirme seu endereço nesse papel e assine embaixo, por favor.
__Enquanto ele fazia piadinhas, das quais agora eu não me lembro, fui separando os vales a que ele tinha direito.
__-Senhor, aqui estão os seus vales. Eles são todos parecidos, mas cada um é para uma coisa. Por isso, é importante prestar atenção. Nesse aqui, você pode ler "Vale Refeição". Nesse outro aqui, você pode ler "Vale Ingresso". Com o Vale Ingresso, você só consegue esquiar e com o outro você só consegue comer. Não adianta levar o Vale Refeição na bilheteria que eles não vão trocar por um ingresso.
__-He, he! Ok, ok.
__Eu nunca explicava tão detalhadamente o funcionamento dos vales. Bastava mostrá-los aos clientes e dizer as suas funções que tudo ficava bem. Mas aquele senhor estava tão bêbado e entretido nas suas piadinhas que achei melhor reforçar o assunto. Depois, sua esposa teve que arrastá-lo dali, pois ele não queria parar de mostrar o quanto ele era engraçado.
__No dia seguinte, fui para a bilheteria (Ticket Sales), onde eu trabalhava nas quintas, sextas e sábados. Lá pelas 9 da manhã, vi o senhor bêbado da tarde anterior se aproximar da minha janela. E ele estava bêbado de novo, e todo risonho.
__-Oi! Vim trocar esse vale por um ingresso.
__Peguei o vale. Era um Vale Refeição.
__-Senhor, esse vale aqui é um Vale Refeição. Para eu te dar o ingresso, eu preciso do Vale Ingresso.
__-Ué! Mas eles são iguais.
__-Na verdade, está escrito aqui embaixo, olha: Vale Refeição.
__-Por que você não me disse isso ontem?
__Agora ele não estava mais risonho. A ironia é que ele não se lembrava do que eu tinha dito insistentemente no dia anterior a respeito dos vales, mas do meu rosto o filho da mãe se lembrava direitinho.
__-Eu disse, senhor.
__-Não, você não disse.
__-Vou ver se posso fazer algo para facilitar as coisas.
__-Isso, por favor.
__Peguei o telefone e liguei para a recepção. Falei com um dos colegas de lá, o mineiro Negão.
__-Aquele bêbado de ontem está aqui tentando trocar um Vale Refeição por um ingresso. Se eu der um ingresso pra ele, será que depois vocês conseguem ajustar a transação aqui com a bilheteria?
__-Ih, Renan! Não dá não.
__Pronto. Já tinha feito mais do que deveria por aquele pinguço. Se bem que, nos EUA, pinguço não existe. Pode ter cervejuço, whiskuço... mas pinguço não tem, pois não tem pinga.
__-Senhor, o que eu tentei fazer não deu certo. Você precisa voltar para o hotel e pegar o seu Vale Ingresso.
__Ele colocou o dedo na minha cara. A vantagem de trabalhar na bilheteria era que um vidro me separava dos clientes. Assim eu não tinha que agüentar o bafo dele mais uma vez.
__-Olha aqui. Você não me disse nada sobre vales ontem. Isso é errado. Você vai ver só.
__Ele deve ter feito uma daquelas queixas que vai para o relatório de queixas que é aberto para os trabalhadores duas vezes por mês. Bem que eu achava que várias daquelas queixas não pareciam sóbrias.
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__Janela da bilheteria
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Se você quer ser avisado das atualizações do blog, escreva para renancontador-blog@yahoo.com.br. Críticas e sugestões também são sempre bem vindas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Meu livro

__Como comentei há algum tempo, a minha viagem vai virar livro. Quem estiver interessado nas novidades referentes a ele ou quiser comprá-lo, é só me enviar um e-mail. O endereço é renancontador-blog@yahoo.com.br.

O blog não foi abandonado

__Quero pedir desculpas por dois motivos.
__Primeiro: faz 3 dias que eu não blogo nada. Isso é por causa dos estudos. Estou cursando um número grande de disciplinas na faculdade e o meu tempo está sendo consumido por elas e por obrigações acessórias. Prometo que na terça ou na quarta já tem post novo.
__Segundo: peço desculpas por estar pedindo desculpas de novo. Tem gente que já se irritou e pediu pra eu parar com isso.


sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A neve

__Boa parte da expectativa de se viajar para os Estados Unidos vem da chance de se ver a neve pela primeira vez. No meu caso, que saí do Brasil para trabalhar numa estação de esqui, isso era uma certeza.
__Clicando aqui, você vê um vídeo de mim brincando com a neve minutos depois de chegar do Brasil.
__Neve acumulada no chão muda de textura conforme o clima varia. A que eu chutei no vídeo acima devia estar ali há alguns dias. Ela parecia uma raspadinha amontoada, igual àquela que se come em parques de diversão. Já a neve que acaba de cair do céu é bem mais fina e parece areia. Nesse vídeo aqui, eu chutei a neve recém caída contra a luz, e acho que foi o melhor vídeo que eu consegui fazer para mostrar como é essa tal de "água em pó".
__Essa neve recém saída da fábrica é a melhor para se fazer bolas de neve. Quando você segura um punhado na mão e pressiona, ela vira uma bola bem comprimida e dura. Parece até gelo lapidado. O som de uma bola dessas caindo no chão mostra o quanto ela é sólida. Fiz um vídeo disso para mostrar como é. Clique aqui para assistir.
__Eu me lembro que quando via filmes onde havia neve caindo, eu pensava: "Que mal feito! Essa neve é de mentira. É um monte de papelzinho picado." A minha surpresa quando vi a neve caindo pela primeira vez foi que ela realmente se parece com pedacinhos de papel soltos no ar. Confiram vendo este vídeo.
__No fim de março, uma chuva caiu e anunciou a chegada do fim do inverno. Ver água cair do céu ao invés de neve fez com que eu e meus amigos intercambistas ficássemos tristes. Não tínhamos idéia de quando na vida veríamos aquela beleza de novo. É só água em pó, eu sei. Mas foi essa água em pó que nos deu as boas vindas aos Estados Unidos. Para nós, ela é simbólica. Representa a viagem das nossas vidas. Ela cobria a paisagem da cidade onde a maioria de nós experimentou a sensação de se viver no exterior. Por isso, foi com emoção que recebemos uma neve inesperada depois daquela chuva. A neve nova nos lembrava tanto a alegria de se pisar em terra estrangeira pela primeira vez como a tristeza de ter que partir e deixar os amigos que compartilharam a experiência.
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__César, hoje presidente da Associação dos Estudantes de Engenharia Naval do Peru
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__Miguel,
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__João, o poeta
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__Caio, que esse ano volta para o Big Sky Resort como supervisor no Ticket Sales. Essa foto foi batida quando ele estava voltando para o Brasil. Foi um dos últimos dias em que nevou.
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__Karla comendo a minha última bola de neve
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__Eu
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__Eu e a turma no Milkies

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Perigos do esqui

__Esquiar não é a prática mais segura do mundo. Fãs do esporte se machucam de vez enquando e podem até morrer.
__As pistas de esqui do Big Sky Resort, o maior dos Estados Unidos, são classificadas de acordo com a habilidade necessária às pessoas que querem percorrê-las. As pistas chamadas de azuis são as mais seguras, enquanto as verdes apresentam dificuldade média e as pretas oferecem as curvas e obstáculos mais desafiadores. É possível machucar-se mesmo numa pista azul, dada a velocidade que se pode atingir nela. Além disso, nem sempre há bastante neve cobrindo o chão de terra ou de pedras. Esquiar num terreno de pouca neve pode ser uma experiência dolorosa.
__Há pistas extremamente perigosas, mais ainda do que as pretas. São terrenos muito inclinados onde existe o risco de avalanche. Não se pode esquiar neles sem a companhia de pelo menos um companheiro. Todos os que decidem descer pistas como essa devem carregar uma pá, para o caso de ter que desenterrar um amigo que tenha ficado coberto de neve após um deslizamento.
__Um dos malucos que descia com freqüência esse tipo de pista era o meu colega de quarto, o Dan. Clique aqui para vê-lo esquiando numa dessas pistas. Outro freqüentador assíduo dessas montanhas mais perigosas era um rapaz que não tinha pernas. Ao invés de sentar-se numa cadeira de rodas, ele ficava sobre um bastão que o ligava a um esqui. Era incrível vê-lo esquiando. Infelizmente, não bati nenhuma foto.
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__Dan em área de risco de avalanche
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__Ao longo do meu período em Big Sky, soube de apenas um homem que morreu esquiando. Ele perdeu a vida logo após chocar-se contra uma árvore.
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__Aviso presente nas pistas mais perigosas da estação de esqui