sábado, 16 de dezembro de 2006

Professores nada tendenciosos

_____Da quinta série do primeiro grau até a faculdade, estudei em três colégios diferentes. Um deles era um colégio protestante. O outro era uma escola politécnica. O último era uma instituição muito grande, com escolas no exterior e com livros didáticos produzidos por sua própria editora. Mas as três tinham algo em comum: seus professores de geografia (e, algumas vezes, de história) dedicavam grandes partes de suas aulas a defender a idéia de que a responsabilidade pelo nosso subdesenvolvimento atual é toda das multinacionais e dos governos americanos e europeus.
_____Um desses professores propôs, durante seis meses, aula após aula, a solução para o país: seguir a cartilha socialista de Karl Marx. Não estou dizendo que ele apenas insinuou que deveríamos ser revolucionários marxistas. Ele realmente falou com todas as letras que Karl Marx é o gênio a ser compreendido e seguido. Esse professor deixou de ensinar diversos conteúdos obrigatórios para divagar durante aulas inteiras sobre a maravilhosa instauração da ditadura do proletariado. Todo e qualquer crítico do comunismo era, para ele, um completo idiota (estou usando as palavras dele). Não fica elegante usar aqui os termos que ele usou para qualificar o povo americano. Outro professor da mesma linha falou, sem qualquer constrangimento, na semana seguinte ao atentado de 11 de setembro, sobre o seu imenso prazer em assistir à queda das torres gêmeas.
____Alguém duvida que o marketing determina quase tudo o que os adultos compram e comem? Pois imaginem qual é a chance de um jovem educado por professores como os que eu descrevi não se tornar um anti-americano. Antes mesmo de ele saber o que é política, seus professores lhe falam infinitas vezes sobre o respeito que devemos ter por Fidel Castro em função de seu desafio aos EUA e sobre a justeza de seu regime ditatorial.
____Esses professores até admitem que o famoso jeitinho e a nossa passividade diante dos escândalos de corrupção têm peso no nosso atraso. Mas eles dizem que, ainda hoje, são as potências que nos impedem de crescer. Dessa forma, nossos problemas do passado, do presente e do futuro nunca serão culpa nossa, mas dos outros. O brasileiro é de uma natureza pura e perfeita.
____E se o gigante brasileiro acordar, o que acontece? Resposta de três dos meus professores: os Estados Unidos dão um jeito de nos derrubar.
___ E se a esquerda revolucionária chegar ao poder pelo voto? Resposta de dois daqueles professores: vai encontrar um sistema que não vai deixar que ela faça algo de bom pela população, pois os EUA influíram na elaboração da lei brasileira e, portanto, ela impede que um governo trabalhe mais para os pobres do que para os ricos.
___ Como demonstração final da humildade desses professores que nos ensinam a jamais desenvolver a auto-crítica; a culpar qualquer um, menos a si próprio, pela lerdeza com que o Brasil anda; a não aceitar que, embora tenhamos sido explorados no passado, temos o controle do nosso futuro; e a nunca ser flexíveis em qualquer negociação com potências, uma vez que elas têm uma eterna dívida conosco, eles nos dizem que "o ensino de geografia nos EUA é ruim, porque não ensina o aluno a ver o lado do outro".
___Podemos nos lamentar pelo nosso passado de exploração e esperar infinitamente por retratação e ajuda, ou começar já, com os recursos que temos, a educar a nossa população, a ajustar nossa economia, a exigir a punição dos parlamentares corruptos e não mais atribuir ao estrangeiro a responsabilidade pela nossa pobreza. Podemos visitar outros países e aprender com sua cultura. Se não temos a chance de ir pessoalmente, podemos ouvir as histórias dos que foram. Podemos ouvir a opinião dos estrangeiros a nosso respeito.
___E podemos exigir dos diretores das escolas que não permitam que seus professores digam às crianças quem elas devem odiar, quem eles devem respeitar e sob que tipo de regime eles devem querer viver.

renancontador-contato@yahoo.com.br
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__As letras vermelhas no último e no sétimo parágrafo indicam correções de erros de digitação. Já as frases em vermelho no quarto e no sexto parágrafo foram reescritas com o intuito de se obter mais clareza.
__A frase anterior do quarto parágrafo dizia: "Mas, ainda assim, a culpa é das grandes potências, pois foram elas que nos obrigaram a ser assim."
__A frase anterior do sexto parágrafo dizia: "pois os EUA determinaram as regras para o nosso governo."

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Semelhanças

-Esse país não presta.
-Não se pode sair de casa sem ter medo de ser assaltado ou morto.
-Ninguém nos respeita nos hospitais. Pegamos filas enormes para fazer solicitações e o médico nos trata com desprezo.
-Esse país não tem solução.
-As coisas por aqui estão cada vez piores.

____Essas frases soam familiares? Foram ditas por americanos que me ajudam a praticar o inglês pelo MSN, ICQ e pelo site www.friendship.com.au . Ouvir essas reclamações dos moradores de lá pode nos levar a duas boas perguntas. Primeira: eles realmente sabem o que é ter problemas? Segunda: nós realmente sabemos o que é ter problemas?___________________
renancontador-contato@yahoo.com.br

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Big Sky- Final Project

Algum estudante foi pra Big Sky e montou esse vídeo.Mostra todos os lugares por onde vou passar, desde a chegada.

Tudo indefinido

___O pessoal da agência me ligou para emitir a passagem. Não seria mais dia 19, e sim 17. Mas não posso embarcar enquanto meu visto não chega.

___Se eu não conseguir embarcar no dia 17, só consigo embarcar no dia 30!

___É... tudo imprevisível!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Adiamento da partida

____Como eu já havia dito, os programas do tipo Work and Travel são cheios de imprevistos. Minha data de embarque para os EUA era hoje. Mas, como o visto foi feito muito perto da data de embarque, não pude viajar. A informação que tenho agora é que embarcaremos somente no dia 19 desse mês.

____O lado negativo é que, independentemente da data em que embarcamos, nosso visto só permite que trabalhemos até 14 de abril. Assim, quanto mais atrasa a partida, mais dinheiro se perde.
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____O lado positivo é que eu posso aproveitar a minha família aqui em Campinas por mais tempo.
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____As histórias dos EUA vão demorar mais uma semana para começar a aparecer nesse blog. Por enquanto, vou continuar escrevendo sobre as coisas que escrevi até agora. Se isso é positivo ou negativo, são os leitores que sabem (rs).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Aprendendo antes do embarque

_____O aprendizado sobre a cultura americana começa muito antes da estadia nos EUA. Logo depois que fechamos com a agência, participamos de uma “reunião manual”, onde os estudantes são orientados sobre as etapas do programa. Nessa reunião, a psicóloga da agência fala sobre choque cultural e sobre emoções. Ao falar sobre a cultura, ela diz que o principal valor dos americanos é o trabalho.

_____Pude notar esse valor logo na primeira feira de empregos, a do Foxwoods Cassino, que fica no Estado de Connecticut.

_____A feira ocorreu num hotel em Curitiba. Estudantes de várias cidades do sul do Brasil participaram. Antes das entrevistas, os selecionadores deram uma palestra sobre o programa de benefícios dos empregados da empresa.

_____Um dos temas tratados foi moradia. Ao contrário da maioria dos empregadores que realizam essas feiras, o Foxwoods não oferece alojamento aos intercambistas. Assim que chegam nos EUA, os participantes do programa devem encontrar um lugar para ficar. Geralmente, os brasileiros que trabalham no cassino moram em casas na cidade de Norwich. Eles se reúnem em grupos de quatro a nove, dividindo as despesas, que costumam ficar em torno de US$ 200,00 ao mês para cada um.

_____Sem ficar mais sério ou mais sorridente, sem lamentar, sem pedir desculpas, sem falar sobre os pontos positivos ou negativos, o palestrante diz:

____-A maioria dos nossos trabalhadores estrangeiros compra sacos de dormir e mora em grupo para rachar a despesa, em casas não mobiliadas. A maioria dorme no chão.

_____Nessa fala, o valor dado ao trabalho aparece. O palestrante, que também era selecionador, não tentou nos passar a idéia de que sua empresa estava ali para nos prestar assistência social. Nem fez questão de ressaltar que estaríamos fechando um contrato de trabalho, e não sendo adotados. Simplesmente nos disse o que precisávamos saber sobre moradia. Todos nós já sabíamos que a coisa funcionava assim. Mas ele não viu problema em nos lembrar. Ele poderia fingir não saber que seus empregados dormem no chão. Mas não. O assunto era trabalho, e deveríamos ser lembrados de que não moraríamos, mas acamparíamos.

_____A agência nos disponibiliza um curso de inglês online, que dura seis meses. O curso foi elaborado para atender às necessidades dos participantes do programa Work And Travel que a agência oferece. Além de ensinar inglês, o curso familiariza os intercambistas com costumes americanos. Um dos costumes que chama atenção é o de dar gorjetas. No caso de não se ter gostado do serviço de um garçom, ou de um taxista ou de quem for, o freguês costuma dar 10% de gorjeta. Caso o serviço tenha sido bom, a gorjeta pode ficar entre 15% e 20%.

_____O salário mínimo americano é US$5,15/hora. Para empregos que incluam gorjeta, o salário mínimo é US$2,15/hora. A regra é o trabalhador de salário de US$2,15/hora ganhar mais do que um trabalhador de US$10,00/hora.

_____Mais um costume curioso que o curso nos ensina é o modo de pagar a passagem de ônibus urbano. Os americanos encontraram uma solução melhor que a das capitais brasileiras, que há quase dez anos vêm substituindo as fichinhas por cartões magnéticos. Funciona assim: na porta do ônibus, tem uma caixinha. Ao entrar, você deixa na caixinha o valor exato da passagem. Assim, não há necessidade de roleta, de venda de fichinhas, de cartão magnético, nem de fazer fila para receber o troco do cobrador (na verdade, não há cobrador). Simples, não?___________

domingo, 10 de dezembro de 2006

Até quando vale a pena discutir

Um mecânico palestino é recrutado para realizar um atentado suicida em Tel Aviv. Então ele resolve visitar a mulher de que gosta pela última vez. Sem deixar que ela saiba que aquela é a última noite de sua vida, o mecânico conversa com a mulher sobre os conflitos da região e defende que a violência é a única forma de resistir à ocupação israelense. Já a mulher acredita que há muitas outras maneiras de se opor à presença indesejada. O homem argumenta que, se não usarem a violência, estarão aceitando a injustiça.

A mulher encerra esse diálogo do filme Paradise now com a seguinte fala:

-Essa discussão não vai levar a nada.

Michael Moore, em seu libelo Fahrenheit 9/11, entrevista uma cidadã americana patriota. Ela diz detestar contestadores. Está disposta a apoiar a invasão do Iraque até o fim, ainda que não saiba os motivos que levaram à invasão. Fiquei curioso para saber se essa rejeição a contestações era comum nos EUA. Nos chats americanos onde entro para praticar o inglês, levantei perguntas sobre as razões e a justeza da invasão do Iraque, na tentativa de despertar alguma discussão. As posições que mais ouvi foram: "apoiarei as guerras do meu país sempre, ainda que estejamos errados", "não acho que devemos desculpas ao povo iraquiano", "tenho pena dos países que não têm soldados de quem se orgulhar", "se as pessoas de outros países acham que somos tão cruéis, por que eles vêm morar aqui'?

Diante desses posicionamentos, não sobra vontade para levar a conversa adiante. Como no Paradise Now, fica a sensação de que a discussão não vai levar a nada. Mas será mesmo? Estaremos agindo corretamente ao desistir de aprofundar uma discussão sobre o respeito à vida, só porque a conversa ficou desagradável?

Observamos situação semelhante no segundo turno das eleições brasileiras de 2006. Candidatos à presidência e a governos de Estado atacaram e defenderam as privatizações sem citar qualquer dado estatístico para fundamentar suas posições. O pleito acabou sem os candidatos mostrarem quais setores a privatização prejudicou ou beneficiou. Não se falou nas variações na produtividade, na arrecadação, nas contratações, na competitividade e nos salários que as privatizações provocaram. Mesmo assim, basta surgir a palavra privatização no meio de uma roda de amigos para as vozes aumentarem e as ironias e ofensas começarem. Uma conversa nessas condições pode levar a algum lugar?

Quando duas pessoas já não conversam para reunir seus conhecimentos e descobrir uma verdade, mas unicamente para provar que estão certas, sem a menor disposição de reconhecer que podem ter estado erradas por muito tempo, qual o caminho para se fazer com que o diálogo volte a ser produtivo, com análises das argumentações, e não dos argumentadores?

Acredito que, quando descobrirmos que caminho é esse e aprendermos a valorizá-lo, levaremos nossos políticos a dedicar mais tempo de seus debates para nos dar sua interpretação dos números, sem se deixar dominar pela paixão e pela ideologia. Penso também que, assim, as razões e a justeza das invasões e intervenções serão discutidas antes, e não durante ou depois da ocorrência dos massacres.

Quem sabe até saberemos o que fazer para não permitir que a esperança de milhões seja alimentada por explosões de homens bomba ou que se tente matar a sede de justiça e vingança de outros milhões jogando bombas no primeiro lugar que vier à mente.
----------------------------------------------------------------------------------renancontador-contato@yahoo.com.br