sábado, 9 de dezembro de 2006

Sobre o preconceito

Um crime violento é noticiado antes de mais nada em todos os jornais televisivos. A sensação de insegurança e revolta que o episódio provoca leva a comentários do tipo: "deviam matar", "deviam deixar preso pra sempre", "deviam fazer com ele o que ele fez com a vítima", "deviam torturar". Isso tudo, claro, se o criminoso for brasileiro. Se o criminoso é estrangeiro, ouviremos coisas como: "argentino desgraçado, volta pra sua terra", "o que é que esses chineses querem no Brasil", "quando é que essa raça vai morrer", "deviam expulsar do país".

Por que será que, quando o criminoso é brasileiro, não se diz que deviam expulsá-lo do país? Será que só queremos distantes os sanguinários estrangeiros, enquanto desejamos os homicidas brasileiros perto de nós?

Uma família aproveita um dia de descanso numa praia de São Paulo. Há palitos de sorvete, espigas de milho, sacolas plásticas e latas de refrigerante por toda a areia. Ouve-se um homem falando espanhol. Não se sabe de onde ele vem. Mas, assim que ele contribui para o aumento da sujeira ao jogar mais um papel no chão, a mãe ensina ao seu filhinho:

-Esses argentinos adoram vir aqui pra sujar nossas praias.

Numa revista de conhecimentos gerais, um colunista comenta sobre um operador de telemarketing americano que não sabe localizar New York no mapa. Um leitor da revista comenta com seu colega ao lado:

-Que povinho burro, hein? Não dá pra acreditar que eles estão onde estão.

Em outra revista, divulga-se que mais de dois terços da população brasileira é constituída de analfabetos funcionais. Embora esse dado represente muito mais para o Brasil do que um operador de telemarketing que não sabe localizar New York no mapa representa para os EUA, ele não vira fofoca para tomar as conversas das rodas de amigos, ao contrário do que acontece com o operador de telemarketing.

Num jornal de meio-dia, conta-se a história de um brasileiro miserável que constrói brinquedos para o seu filho usando garrafas velhas de refrigerante. A repórter fala que seus brinquedos são um símbolo da famosa criatividade brasileira. Já quando os japoneses vieram com o "bichinho virtual", houve quem dissesse:

-Tá explicado porque eles se suicidam tanto! Até os bichinhos de estimação eles querem trocar por tecnologia".

Por falar em suicídios, basta citar a qualidade de vida da Noruega e da Irlanda para um colega brasileiro dizer: "mas, em compensação, eles têm taxas de suicídio entre as mais altas do mundo". Ignora-se os quase 50 mil assassinatos anuais, as mortes por acidente de trânsito, a mortalidade infantil e as mortes nas portas dos hospitais públicos do Brasil. Ignora-se também todos os números que fazem a qualidade de vida da Noruega tão evidente. Tudo para não reconhecer que temos algo a aprender com países europeus.

Penso que essa postura preconceituosa não é predominante no Brasil. Arriscaria dizer que somos o povo mais receptivo. Obviamente, selecionei esses comentários que ouvi de modo a evidenciar uma atitude que não é a regra, mas que, acredito, ainda é característica de uma boa fatia da nossa população.

Um passeio por comunidades e fóruns internacionais na internet fatalmente mostrará que essa postura contra o estrangeiro está presente em todo o mundo. Fala-se mal do brasileiro e de todas as nacionalidades ao redor do planeta, muitas vezes com razão, muitas vezes sem razão.

Quando estamos com um estrangeiro, temos a oportunidade de aprender alguma coisa sobre eles e sobre nós. Sua crítica a nosso respeito é preciosa. Ele pode ter um ponto de vista privilegiado. Conversar com ele é uma grande chance de perceber não só as diferenças entre nossos países, mas as semelhanças, fazendo com que pensemos melhor antes de atacar uma cultura com que nunca tivemos contato. Compreenderemos que seus hábitos, que podem aparentar frieza, desrespeito e intolerância, não são indicativos de má índole. Acabaremos desenvolvendo nossa habilidade de conviver. Nosso ufanismo diminuirá. Veremos as fronteiras de outra forma.

Sendo assim, sempre que ouvir de meus compatriotas um ataque a qualquer outro povo, como se os seus defeitos e fraquezas fizessem parte da sua natureza - se é que estamos aptos a discernir um defeito de um traço cultural - e não fossem conseqüência da história, acreditarei tratar-se de um mal julgamento.

Quanto mais tempo dedicarmos a refletir sobre o que se fala de mal sobre o brasileiro, e quanto mais observarmos o estilo de vida dos outros povos, mais estaremos contribuindo para nosso próprio aperfeiçoamento e para o estabelecimento da paz no mundo.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Temas

Até agora, falei apenas sobre o funcionamento do programa de intercâmbio. Espero que as informações passadas sejam úteis para quem pretende viajar para o exterior num programa semelhante.

A partir de sábado, falarei também sobre pensamentos que o contato com os estrangeiros e as preparações para a viagem têm provocado.

Por favor, fiquem à vontade para comentar e, caso prefiram, escrever para renancontador-contato@yahoo.com.br. Adoraria discutir os assuntos tratados. Críticas e sugestões também serão sempre bem vindas.

Resumo do dia do visto

Meu horário marcado era 7:30. Cheguei às 7:00 no consulado, e a fila já dobrava a esquina, mas andava rapidamente.

Uma vez dentro do consulado, o procedimento era retirar uma senha, entregar os documentos, registrar as digitais e ser entrevistado. Mas tivemos um problema: não sei se por erro no registro do pagamento de uma taxa ou se porque havia muita gente da minha agência ocupando todo o horário de atendimento da manhã, o consulado decidiu que o pessoal da minha agência seria atendido por último. Isso nos deixou preocupados. Pensamos que os entrevistadores poderiam ficar irritados e, assim, negarem mais vistos que o normal.

Esse medo aumentou quando vimos uns quatro estudantes de cidades diferentes tendo seus vistos negados. Mais tarde, soube que os três vistos negados de Porto Alegre correspondiam aos estudantes em maior situação de risco, por ter ou idade mais próxima de 28, ou inglês muito básico ou permanência ilegal anterior nos EUA. Por isso, acredito que nosso medo foi só um engano. Parece-me que os entrevistadores não ficaram irritados e, se ficaram, não negaram os vistos por isso.

Minha entrevista foi bem tranqüila. A conversa foi em português. Só fui perguntado sobre minha faculdade, o local para onde eu iria viajar e quando eu me formaria.

Então é isso! O visto chega por SEDEX nos próximos dias. Estou com um pé aqui e outro lá.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Dicas

Mais algumas dicas para quem pretende participar de um programa Work and Travel:

-Demonstrar entusiasmo nas feiras: na hora da contratação, os empregadores dão preferência àqueles que demonstram entusiasmo. É importante trabalhar a postura com bastante antecedência. Freqüentemente, o estudante se decepciona por não ter conseguido transmitir segurança e simpatia durante a entrevista (acredito que eu não passei uma imagem positiva na segunda entrevista).

Além disso, ser uma pessoa entusiasmada será fundamental tanto para conseguir quanto para manter um bom trabalho, no Brasil e em qualquer lugar.

-Buscar informação: antes de assinar um contrato com a agência, pesquisar depoimentos sobre esse tipo de programa nas comunidades do orkut, onde o pessoal fala sobre suas decepções, angústias, problemas e tudo o mais. Assim, familiariza-se com muitos problemas que podem acontecer.

-Ser universitário: a razão para a obtenção do visto J1 através desse programa ser mais fácil é que o viajante é um estudante que tem vínculo com uma universidade brasileira, na qual entrou depois de um vestibular duro. Estar numa universidade é um indicativo de que o intercambista não pretende ficar ilegalmente nos EUA.

-Ser flexível durante todo o programa: flexibilidade é a chave para se participar de um programa Work and Travel, que envolve uma série de dificuldades. Em menos de 6 meses (algumas vezes, em menos de 2 meses), é preciso preencher dezenas de páginas de formulários, ler manuais, viajar para participar de feiras em outras cidades (essas viagens são por conta da agência de intercâmbio), viajar para receber orientações, participar de reuniões etc. Em toda essas atividades, é muito provável que várias coisas não saiam conforme o planejado. Não estar preparado para isso tornará o intercâmbio estressante.

-Respeitar a agência: dizia Sócrates que o ignorante sempre se queixa dos outros, enquanto o sábio sempre se queixa de si.

Muitas vezes, somos informados sobre as feiras um dia antes de ocorrerem. A agência de intercâmbio não tem controle sobre as datas das feiras. Os empregadores mudam suas datas de acordo com as necessidades deles. Essa é só uma das surpresas que o intercambista pode ter. A agência acaba carregando a cruz de culpada por todas as surpresas desagradáveis dos estudantes, sendo que ela não tem controle sobre tudo. Há outros tipos de programas para quem não tem disponibilidade de tempo e paciência para resolver os pequenos problemas que certamente aparecerão, antes e depois do embarque para os EUA.

-Ouvir os student advisers: ouvir é uma habilidade preciosa. Os student advisers, ex-intercambistas que trabalham na agência, alertam incansavelmente sobre todos os problemas que podem ocorrer. Mesmo assim, é comum ver os estudantes surpresos e revoltados em função desses problemas quando eles ocorrem. Prestar muita atenção a tudo o que os advisers dizem e ler atentamente o contrato evitará que o estudante se surpreenda com muita freqüência.

-Tenha um plano B para o caso de visto negado: visto negado é um obstáculo praticamente impossível de se contornar. Como é comum o estudante abandonar o emprego com antecedência para fazer o intercâmbio, é bom estar preparado para a decepção de não conseguir o visto. A própria agência pode oferecer uma viagem parecida para outro país.

Resumo do programa

Esse post pode ser útil pra quem pretende participar de um programa de intercâmbio "Work and Travel". Vou contar como as coisas funcionaram comigo, mas sem descer aos mínimos detalhes. Caso alguém queira saber mais, é só escrever (renancontador-contato@yahoo.com.br).

No final de 2005, caiu nas minhas mãos uma edição da revista Isto É que falava sobre um tipo de intercâmbio que vinha ganhando popularidade. Era uma modalidade em que estudantes universitários eram contratados por empresas americanas para trabalhar por quatro meses nos EUA.

Nesse tipo de intercâmbio, as contratações ocorrem através de feiras de empregos que acontecem no Brasil. Nas feiras, alunos que se inscrevem no programa através de uma agência brasileira são selecionados. Caso não sejam selecionados na primeira feira da qual participam, podem participar de várias outras feiras. A agência garante um emprego nos EUA em cláusula contratual. Uma vez nos EUA, um bom controle de gastos e disposição para trabalhar muito permitem recuperar o valor investido na viagem. Essa é uma das maneiras mais baratas de se viajar para lá.

A revista falava sobre três agências que ofereciam esse programa de intercâmbio: STB, World Study e Intercultural. Visitei essas três e mais algumas. Simpatizei com a agência que demonstrou mais entusiasmo no atendimento. Mais tarde, não precisei pagar nada por esse diferencial. Mesmo com esse plus, eles ofereciam o preço mais competitivo entre as concorrentes.

Não fechei com a agência imediatamente. Primeiro, pesquisei depoimentos sobre esse programa para conhecer os riscos envolvidos. Só assinei o contrato em meados de 2006. Os principais riscos que o programa oferece são:
-Ter o visto negado antes de embarcar
-O empregador desistir da contratação na última hora
-Ser demitido nos EUA

Sobre o primeiro risco, falarei no próximo post. Sobre o segundo, ele pode complicar o programa, mas, assim que o emprego é cancelado, a agência nos consegue outro. O problema é que isso demora um pouco e, como só se pode trabalhar por quatro meses lá, o tempo que não se trabalha é dinheiro perdido. Sobre o terceiro risco, pode acontecer de a demissão levar a um cancelamento do visto, dependendo da razão da demissão. Caso o visto não seja cancelado, é possível arrumar outro emprego, com ou sem a ajuda da agência.

Fui avisado de que, entre as empresas que realizariam feiras de emprego no Brasil, estava o Foxwoods Cassino, do Estado de Connecticut. A feira, porém, ocorreria depois das feiras de dois outros ótimos empregadores: a Universal e o Harra´s Cassino. Uma vez decidido por tentar o Fox, eu não poderia tentar as vagas oferecidas pelos dois outros empregadores. Mas resolvi arriscar. Na verdade, meu desejo era trabalhar numa estação de ski. Mas como as feiras de emprego de estações de ski eram mais para o fim do ano, fiquei com receio de aguardar demais, perder a oportunidade de trabalhar num lugar bom, como o Foxwoods e, no final, por qualquer razão, não conseguir trabalho num ski resort. Assim, resolvi tentar o Foxwoods.

A feira ocorreu em agosto, em um hotel em Curitiba. A emoção do meu intercâmbio começava já nessa viagem. Sempre ouvira muito sobre a beleza de Curitiba. Mas, mesmo assim, a surpresa foi muito grande ao andar pela avenida 7 de Setembro. Prédios elegantes e altos beiravam o asfalto impecável. A avenida era larga e longa. Mal conseguia ver o fim. E ela era cortada por várias outras ruas igualmente longas. Era um lugar espetacular.

Antes da entrevista, uma prova de matemática, na qual fui muito bem e que elevou minha confiança. Eu seria o décimo nono a ser entrevistado. Meu inglês estava afiado e eu estava seguro. Enquanto aguardava minha chamada junto de alguns colegas, um senhor passou mal ao nosso lado. Vomitou muito, mas muito sangue. Uma equipe médica apareceu para socorrê-lo. O episódio serviu para aumentar o drama de quem temia não conseguir se comunicar na hora da conversa com o selecionador.

Chega a minha vez. Cumprimento o selecionador, figura simpática, mas que não fala português, e a conversa flui naturalmente. Em nenhum momento o inglês trava. Ele me pergunta sobre a razão da viagem, sobre habilidades, sobre minhas preferências de trabalho e outras coisas.

A entrevista acabou e eu me sentia como se tivesse conversado em português com um amigo qualquer. Mas não dava por certo a contratação. Procurei não ficar alegre demais, já que não sabia exatamente que tipo de empregado eles procuravam e, portanto, não podia sequer imaginar se eu passara a imagem desejada por eles.

Fiz bem em não me deixar comemorar. Três semanas depois, veio a notícia de que eu não havia passado.

Depois de alguns dias de absorção da frustração, nova oportunidade: feira de empregos de um ski resort chamado Big Sky (site: http://www.bigskyresort.com/). A seleção tinha 2 fases: na primeira, teste de inglês em Porto Alegre. Na segunda, entrevista com uma selecionadora, em Florianópolis.

Na primeira fase, o teste de inglês, não estando tão seguro quanto na entrevista do Foxwoods, gaguejei, troquei palavras e, acredito, não passei uma imagem de entusiasmo. Após o teste, fui informado de que havia atingido notas 4 e 4 para habilidade com o inglês e sociabilidade, respectivamente, numa pontuação máxima de 5 para cada. Fui melhor do que esperava.

Já na segunda fase, eu estava seguro novamente. A entrevista foi um bate-papo com uma selecionadora muito divertida. No fim de semana, já tínhamos os resultados. Eu havia sido aprovado, assim como todos os outros seis colegas que participaram da feira. Começava então a parte mais estressante do programa, na minha opinião: a obtenção do visto.

O visto necessário para se participar desse tipo de programa é chamado “J1”. Para se obter esse visto, é necessário apresentar ao consulado um documento chamado DS2019. Quem providencia esse documento é o empregador do intercambista. Para o empregador, providenciar esse documento envolve lidar com uma burocracia nos EUA. No meu caso, o DS2019 só apareceu em dezembro, pouco menos de duas semanas antes da data de embarque para os EUA. Além desse formulário trazido pelo empregador, é necessário que o intercambista prepare outros formulários e obtenha uma série de documentos, para apresentá-los no consulado no dia da obtenção do visto. Esses documentos têm por objetivo comprovar que o viajante tem responsáveis financeiros no Brasil, que possam lhe enviar dinheiro caso ele precise nos EUA, e que o estudante não praticará crimes para se manter.

O processo do visto é estressante porque ameaça jogar no lixo todo o esforço dispendido desde o começo do programa: participação nas feiras, viajem para receber orientação, preenchimento de muitos papéis, abandono de emprego, adaptação dos planos para a faculdade, despesa com documentos etc.

É difícil saber com exatidão quais são os critérios usados pelo consulado para conceder ou negar o visto . Sabe-se apenas que, quanto mais alta a renda dos responsáveis financeiros, quanto maior o patrimônio deles, quanto mais jovem o estudante for (idade máxima de 28 anos), quanto melhor for o seu inglês e quanto mais no começo da faculdade ele estiver, maiores as chances de obter o visto. A grande preocupação do consulado é que o estudante tente ficar nos EUA para sempre. Além disso, nos atentados de 11/9, um dos terroristas usava o mesmo tipo de visto necessário para esse programa, o que aumentou as exigências do consulado para concedê-lo.

A data para eu tentar o visto no consulado foi ontem. No próximo post, falo sobre como foi. Isso não é pra fazer o pessoal entrar no blog de novo, hein? É que, agora que cheguei em Campinas, também tenho umas coisas pra fazer por aqui e já estou saindo!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Primeiro atraso

Peço desculpas por não poder postar nos próximos dois dias. Embarco hoje para São Paulo, e o meu tempo vai ser devorado pelas coisas que devo deixar preparadas por aqui para quando eu estiver fora.

A entrevista para o visto é na quarta-feira! Já na quinta-feira, conto como foi tudo por lá.

Obrigado a todos pelas visitas ao blog. Ainda não instalei o contador visível, mas acompanho as estatísticas do blog pelo Google Analytics. Desde a criação do blog, no sábado de madrugada, foram 60 visitas.

Até quinta!