domingo, 10 de dezembro de 2006

Até quando vale a pena discutir

Um mecânico palestino é recrutado para realizar um atentado suicida em Tel Aviv. Então ele resolve visitar a mulher de que gosta pela última vez. Sem deixar que ela saiba que aquela é a última noite de sua vida, o mecânico conversa com a mulher sobre os conflitos da região e defende que a violência é a única forma de resistir à ocupação israelense. Já a mulher acredita que há muitas outras maneiras de se opor à presença indesejada. O homem argumenta que, se não usarem a violência, estarão aceitando a injustiça.

A mulher encerra esse diálogo do filme Paradise now com a seguinte fala:

-Essa discussão não vai levar a nada.

Michael Moore, em seu libelo Fahrenheit 9/11, entrevista uma cidadã americana patriota. Ela diz detestar contestadores. Está disposta a apoiar a invasão do Iraque até o fim, ainda que não saiba os motivos que levaram à invasão. Fiquei curioso para saber se essa rejeição a contestações era comum nos EUA. Nos chats americanos onde entro para praticar o inglês, levantei perguntas sobre as razões e a justeza da invasão do Iraque, na tentativa de despertar alguma discussão. As posições que mais ouvi foram: "apoiarei as guerras do meu país sempre, ainda que estejamos errados", "não acho que devemos desculpas ao povo iraquiano", "tenho pena dos países que não têm soldados de quem se orgulhar", "se as pessoas de outros países acham que somos tão cruéis, por que eles vêm morar aqui'?

Diante desses posicionamentos, não sobra vontade para levar a conversa adiante. Como no Paradise Now, fica a sensação de que a discussão não vai levar a nada. Mas será mesmo? Estaremos agindo corretamente ao desistir de aprofundar uma discussão sobre o respeito à vida, só porque a conversa ficou desagradável?

Observamos situação semelhante no segundo turno das eleições brasileiras de 2006. Candidatos à presidência e a governos de Estado atacaram e defenderam as privatizações sem citar qualquer dado estatístico para fundamentar suas posições. O pleito acabou sem os candidatos mostrarem quais setores a privatização prejudicou ou beneficiou. Não se falou nas variações na produtividade, na arrecadação, nas contratações, na competitividade e nos salários que as privatizações provocaram. Mesmo assim, basta surgir a palavra privatização no meio de uma roda de amigos para as vozes aumentarem e as ironias e ofensas começarem. Uma conversa nessas condições pode levar a algum lugar?

Quando duas pessoas já não conversam para reunir seus conhecimentos e descobrir uma verdade, mas unicamente para provar que estão certas, sem a menor disposição de reconhecer que podem ter estado erradas por muito tempo, qual o caminho para se fazer com que o diálogo volte a ser produtivo, com análises das argumentações, e não dos argumentadores?

Acredito que, quando descobrirmos que caminho é esse e aprendermos a valorizá-lo, levaremos nossos políticos a dedicar mais tempo de seus debates para nos dar sua interpretação dos números, sem se deixar dominar pela paixão e pela ideologia. Penso também que, assim, as razões e a justeza das invasões e intervenções serão discutidas antes, e não durante ou depois da ocorrência dos massacres.

Quem sabe até saberemos o que fazer para não permitir que a esperança de milhões seja alimentada por explosões de homens bomba ou que se tente matar a sede de justiça e vingança de outros milhões jogando bombas no primeiro lugar que vier à mente.
----------------------------------------------------------------------------------renancontador-contato@yahoo.com.br

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