domingo, 17 de dezembro de 2006

Despedida

____Estou deixando Campinas esta tarde. Não sei quando vou ter acesso à internet pela próxima vez. Sendo assim, vou anotando os episódios e pensamentos num caderno e, assim que tiver a chance, passo tudo para o blog.
____Obrigado a todos que acessaram o blog até agora!
____Confiram o último post, Agonia do Visto. Recomendo a leitura principalmente aos amantes da estatística. Se alguém conseguir calcular a probabilidade de acontecer tudo o que aconteceu, por favor, mande um comentário.

renancontador-contato@yahoo.com.br

A agonia do visto

_____Desde quinta-feira passada, eu esperava ansiosamente pelo visto. Telefonei para o consulado uma infinidade de vezes, mas, nessa época do ano, há muitas solicitações de visto e, por isso, ninguém conseguiu me atender. Se o visto não chegasse até sábado, dia 16, minha viagem atrasaria mais uns dez dias.
_____Tudo o que eu e minha família queríamos era ver o entregador do Sedex se aproximando do portão da casa e tocando a campainha.
_____Era sexta-feira quando minha mãe viu um homem com o uniforme do Sedex atravessando a rua e vindo em nossa direção. Finalmente, o visto!
_____O homem chegou à frente da nossa casa, mas tocou a campainha da vizinha. Minha mãe disse:
_____-Ô! É aqui!
_____Foi até lá para falar com ele e dizer que ele estava batendo na casa errada. Mas a vizinha saiu e recebeu a caixa que ele tinha em mãos. Não era a caixa do visto. Aquele sedex não era para mim.
_____Olhávamos pela janela da casa o tempo todo. Qualquer imagem amarela poderia ser o homem do Sedex. De repente, quando não prestávamos atenção na rua, a campainha tocou! Era o pessoal do Sedex, com uma caixa na mão. Minha mãe gritava:
_____O visto! O visto! Filho! Você vai para os EUA amanhã!
_____Voamos para o portão. O senhor do Sedex percebia nossa alegria e retribuía o sorriso. Aquele momento parecia familiar para ele. Ele deve se sentir muito bem ao entregar um papel tão importante, o tão sonhado documento que atormenta a vida dos intercambistas desde que ele começa a sonhar com sua visita a uma terra estrangeira.
_____Falamos com o senhor e pegamos a caixa. Mas quem era o remetente? O portal Terra!
_____Abrimos a caixa. Dentro, havia uma camiseta com o nome de uma banda. - não me lembro o nome da banda. Só sei que, depois dessa, é bem provável que minha mãe odeie essa banda para o resto da vida - Minha mãe havia ganhado um concurso de frases, e o prêmio era essa camiseta. Nunca ganhamos um prêmio, e jamais recebemos um Sedex no sábado. Logo no dia em que endoidecíamos no aguardo do visto, ganhamos um concurso, que chega por Sedex, no sábado!
_____Fui tomar banho. Relaxava debaixo do chuveiro quando uma amiga da minha mãe bate na porta e grita:
_____-Renanzinho! Chegou uma caixa pra você do Sedex!
_____Como eu sabia que era muito mais provável que fosse uma intimação da polícia, uma convocação urgente para um novo alistamento militar, uma caixa com jóias vindas de um tio desconhecido que acabara de morrer, um convite para trabalhar na Agência Brasileira de Inteligência ou para fazer parte da Academia Brasileira de Letras, uma solicitação para doação de medula óssea ou um título de cidadão do ano fornecido pela prefeitura de Campinas, não me empolguei.
_____-Já vou ver o que é!
_____Quando peguei o envelope, não é que vi o sem vergonha do visto?
_____Assim terminou a saga da papelada. Agonia até o último instante! Agora, entramos numa nova fase. Fico me perguntando quantas coisas podem me acontecer até eu colocar o meu pé no Big Sky Resort!
_____Desejem-me boa sorte! Vocês já perceberam que eu vou precisar.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Professores nada tendenciosos

_____Da quinta série do primeiro grau até a faculdade, estudei em três colégios diferentes. Um deles era um colégio protestante. O outro era uma escola politécnica. O último era uma instituição muito grande, com escolas no exterior e com livros didáticos produzidos por sua própria editora. Mas as três tinham algo em comum: seus professores de geografia (e, algumas vezes, de história) dedicavam grandes partes de suas aulas a defender a idéia de que a responsabilidade pelo nosso subdesenvolvimento atual é toda das multinacionais e dos governos americanos e europeus.
_____Um desses professores propôs, durante seis meses, aula após aula, a solução para o país: seguir a cartilha socialista de Karl Marx. Não estou dizendo que ele apenas insinuou que deveríamos ser revolucionários marxistas. Ele realmente falou com todas as letras que Karl Marx é o gênio a ser compreendido e seguido. Esse professor deixou de ensinar diversos conteúdos obrigatórios para divagar durante aulas inteiras sobre a maravilhosa instauração da ditadura do proletariado. Todo e qualquer crítico do comunismo era, para ele, um completo idiota (estou usando as palavras dele). Não fica elegante usar aqui os termos que ele usou para qualificar o povo americano. Outro professor da mesma linha falou, sem qualquer constrangimento, na semana seguinte ao atentado de 11 de setembro, sobre o seu imenso prazer em assistir à queda das torres gêmeas.
____Alguém duvida que o marketing determina quase tudo o que os adultos compram e comem? Pois imaginem qual é a chance de um jovem educado por professores como os que eu descrevi não se tornar um anti-americano. Antes mesmo de ele saber o que é política, seus professores lhe falam infinitas vezes sobre o respeito que devemos ter por Fidel Castro em função de seu desafio aos EUA e sobre a justeza de seu regime ditatorial.
____Esses professores até admitem que o famoso jeitinho e a nossa passividade diante dos escândalos de corrupção têm peso no nosso atraso. Mas eles dizem que, ainda hoje, são as potências que nos impedem de crescer. Dessa forma, nossos problemas do passado, do presente e do futuro nunca serão culpa nossa, mas dos outros. O brasileiro é de uma natureza pura e perfeita.
____E se o gigante brasileiro acordar, o que acontece? Resposta de três dos meus professores: os Estados Unidos dão um jeito de nos derrubar.
___ E se a esquerda revolucionária chegar ao poder pelo voto? Resposta de dois daqueles professores: vai encontrar um sistema que não vai deixar que ela faça algo de bom pela população, pois os EUA influíram na elaboração da lei brasileira e, portanto, ela impede que um governo trabalhe mais para os pobres do que para os ricos.
___ Como demonstração final da humildade desses professores que nos ensinam a jamais desenvolver a auto-crítica; a culpar qualquer um, menos a si próprio, pela lerdeza com que o Brasil anda; a não aceitar que, embora tenhamos sido explorados no passado, temos o controle do nosso futuro; e a nunca ser flexíveis em qualquer negociação com potências, uma vez que elas têm uma eterna dívida conosco, eles nos dizem que "o ensino de geografia nos EUA é ruim, porque não ensina o aluno a ver o lado do outro".
___Podemos nos lamentar pelo nosso passado de exploração e esperar infinitamente por retratação e ajuda, ou começar já, com os recursos que temos, a educar a nossa população, a ajustar nossa economia, a exigir a punição dos parlamentares corruptos e não mais atribuir ao estrangeiro a responsabilidade pela nossa pobreza. Podemos visitar outros países e aprender com sua cultura. Se não temos a chance de ir pessoalmente, podemos ouvir as histórias dos que foram. Podemos ouvir a opinião dos estrangeiros a nosso respeito.
___E podemos exigir dos diretores das escolas que não permitam que seus professores digam às crianças quem elas devem odiar, quem eles devem respeitar e sob que tipo de regime eles devem querer viver.

renancontador-contato@yahoo.com.br
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__As letras vermelhas no último e no sétimo parágrafo indicam correções de erros de digitação. Já as frases em vermelho no quarto e no sexto parágrafo foram reescritas com o intuito de se obter mais clareza.
__A frase anterior do quarto parágrafo dizia: "Mas, ainda assim, a culpa é das grandes potências, pois foram elas que nos obrigaram a ser assim."
__A frase anterior do sexto parágrafo dizia: "pois os EUA determinaram as regras para o nosso governo."

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Semelhanças

-Esse país não presta.
-Não se pode sair de casa sem ter medo de ser assaltado ou morto.
-Ninguém nos respeita nos hospitais. Pegamos filas enormes para fazer solicitações e o médico nos trata com desprezo.
-Esse país não tem solução.
-As coisas por aqui estão cada vez piores.

____Essas frases soam familiares? Foram ditas por americanos que me ajudam a praticar o inglês pelo MSN, ICQ e pelo site www.friendship.com.au . Ouvir essas reclamações dos moradores de lá pode nos levar a duas boas perguntas. Primeira: eles realmente sabem o que é ter problemas? Segunda: nós realmente sabemos o que é ter problemas?___________________
renancontador-contato@yahoo.com.br

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Big Sky- Final Project

Algum estudante foi pra Big Sky e montou esse vídeo.Mostra todos os lugares por onde vou passar, desde a chegada.

Tudo indefinido

___O pessoal da agência me ligou para emitir a passagem. Não seria mais dia 19, e sim 17. Mas não posso embarcar enquanto meu visto não chega.

___Se eu não conseguir embarcar no dia 17, só consigo embarcar no dia 30!

___É... tudo imprevisível!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Adiamento da partida

____Como eu já havia dito, os programas do tipo Work and Travel são cheios de imprevistos. Minha data de embarque para os EUA era hoje. Mas, como o visto foi feito muito perto da data de embarque, não pude viajar. A informação que tenho agora é que embarcaremos somente no dia 19 desse mês.

____O lado negativo é que, independentemente da data em que embarcamos, nosso visto só permite que trabalhemos até 14 de abril. Assim, quanto mais atrasa a partida, mais dinheiro se perde.
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____O lado positivo é que eu posso aproveitar a minha família aqui em Campinas por mais tempo.
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____As histórias dos EUA vão demorar mais uma semana para começar a aparecer nesse blog. Por enquanto, vou continuar escrevendo sobre as coisas que escrevi até agora. Se isso é positivo ou negativo, são os leitores que sabem (rs).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Aprendendo antes do embarque

_____O aprendizado sobre a cultura americana começa muito antes da estadia nos EUA. Logo depois que fechamos com a agência, participamos de uma “reunião manual”, onde os estudantes são orientados sobre as etapas do programa. Nessa reunião, a psicóloga da agência fala sobre choque cultural e sobre emoções. Ao falar sobre a cultura, ela diz que o principal valor dos americanos é o trabalho.

_____Pude notar esse valor logo na primeira feira de empregos, a do Foxwoods Cassino, que fica no Estado de Connecticut.

_____A feira ocorreu num hotel em Curitiba. Estudantes de várias cidades do sul do Brasil participaram. Antes das entrevistas, os selecionadores deram uma palestra sobre o programa de benefícios dos empregados da empresa.

_____Um dos temas tratados foi moradia. Ao contrário da maioria dos empregadores que realizam essas feiras, o Foxwoods não oferece alojamento aos intercambistas. Assim que chegam nos EUA, os participantes do programa devem encontrar um lugar para ficar. Geralmente, os brasileiros que trabalham no cassino moram em casas na cidade de Norwich. Eles se reúnem em grupos de quatro a nove, dividindo as despesas, que costumam ficar em torno de US$ 200,00 ao mês para cada um.

_____Sem ficar mais sério ou mais sorridente, sem lamentar, sem pedir desculpas, sem falar sobre os pontos positivos ou negativos, o palestrante diz:

____-A maioria dos nossos trabalhadores estrangeiros compra sacos de dormir e mora em grupo para rachar a despesa, em casas não mobiliadas. A maioria dorme no chão.

_____Nessa fala, o valor dado ao trabalho aparece. O palestrante, que também era selecionador, não tentou nos passar a idéia de que sua empresa estava ali para nos prestar assistência social. Nem fez questão de ressaltar que estaríamos fechando um contrato de trabalho, e não sendo adotados. Simplesmente nos disse o que precisávamos saber sobre moradia. Todos nós já sabíamos que a coisa funcionava assim. Mas ele não viu problema em nos lembrar. Ele poderia fingir não saber que seus empregados dormem no chão. Mas não. O assunto era trabalho, e deveríamos ser lembrados de que não moraríamos, mas acamparíamos.

_____A agência nos disponibiliza um curso de inglês online, que dura seis meses. O curso foi elaborado para atender às necessidades dos participantes do programa Work And Travel que a agência oferece. Além de ensinar inglês, o curso familiariza os intercambistas com costumes americanos. Um dos costumes que chama atenção é o de dar gorjetas. No caso de não se ter gostado do serviço de um garçom, ou de um taxista ou de quem for, o freguês costuma dar 10% de gorjeta. Caso o serviço tenha sido bom, a gorjeta pode ficar entre 15% e 20%.

_____O salário mínimo americano é US$5,15/hora. Para empregos que incluam gorjeta, o salário mínimo é US$2,15/hora. A regra é o trabalhador de salário de US$2,15/hora ganhar mais do que um trabalhador de US$10,00/hora.

_____Mais um costume curioso que o curso nos ensina é o modo de pagar a passagem de ônibus urbano. Os americanos encontraram uma solução melhor que a das capitais brasileiras, que há quase dez anos vêm substituindo as fichinhas por cartões magnéticos. Funciona assim: na porta do ônibus, tem uma caixinha. Ao entrar, você deixa na caixinha o valor exato da passagem. Assim, não há necessidade de roleta, de venda de fichinhas, de cartão magnético, nem de fazer fila para receber o troco do cobrador (na verdade, não há cobrador). Simples, não?___________

domingo, 10 de dezembro de 2006

Até quando vale a pena discutir

Um mecânico palestino é recrutado para realizar um atentado suicida em Tel Aviv. Então ele resolve visitar a mulher de que gosta pela última vez. Sem deixar que ela saiba que aquela é a última noite de sua vida, o mecânico conversa com a mulher sobre os conflitos da região e defende que a violência é a única forma de resistir à ocupação israelense. Já a mulher acredita que há muitas outras maneiras de se opor à presença indesejada. O homem argumenta que, se não usarem a violência, estarão aceitando a injustiça.

A mulher encerra esse diálogo do filme Paradise now com a seguinte fala:

-Essa discussão não vai levar a nada.

Michael Moore, em seu libelo Fahrenheit 9/11, entrevista uma cidadã americana patriota. Ela diz detestar contestadores. Está disposta a apoiar a invasão do Iraque até o fim, ainda que não saiba os motivos que levaram à invasão. Fiquei curioso para saber se essa rejeição a contestações era comum nos EUA. Nos chats americanos onde entro para praticar o inglês, levantei perguntas sobre as razões e a justeza da invasão do Iraque, na tentativa de despertar alguma discussão. As posições que mais ouvi foram: "apoiarei as guerras do meu país sempre, ainda que estejamos errados", "não acho que devemos desculpas ao povo iraquiano", "tenho pena dos países que não têm soldados de quem se orgulhar", "se as pessoas de outros países acham que somos tão cruéis, por que eles vêm morar aqui'?

Diante desses posicionamentos, não sobra vontade para levar a conversa adiante. Como no Paradise Now, fica a sensação de que a discussão não vai levar a nada. Mas será mesmo? Estaremos agindo corretamente ao desistir de aprofundar uma discussão sobre o respeito à vida, só porque a conversa ficou desagradável?

Observamos situação semelhante no segundo turno das eleições brasileiras de 2006. Candidatos à presidência e a governos de Estado atacaram e defenderam as privatizações sem citar qualquer dado estatístico para fundamentar suas posições. O pleito acabou sem os candidatos mostrarem quais setores a privatização prejudicou ou beneficiou. Não se falou nas variações na produtividade, na arrecadação, nas contratações, na competitividade e nos salários que as privatizações provocaram. Mesmo assim, basta surgir a palavra privatização no meio de uma roda de amigos para as vozes aumentarem e as ironias e ofensas começarem. Uma conversa nessas condições pode levar a algum lugar?

Quando duas pessoas já não conversam para reunir seus conhecimentos e descobrir uma verdade, mas unicamente para provar que estão certas, sem a menor disposição de reconhecer que podem ter estado erradas por muito tempo, qual o caminho para se fazer com que o diálogo volte a ser produtivo, com análises das argumentações, e não dos argumentadores?

Acredito que, quando descobrirmos que caminho é esse e aprendermos a valorizá-lo, levaremos nossos políticos a dedicar mais tempo de seus debates para nos dar sua interpretação dos números, sem se deixar dominar pela paixão e pela ideologia. Penso também que, assim, as razões e a justeza das invasões e intervenções serão discutidas antes, e não durante ou depois da ocorrência dos massacres.

Quem sabe até saberemos o que fazer para não permitir que a esperança de milhões seja alimentada por explosões de homens bomba ou que se tente matar a sede de justiça e vingança de outros milhões jogando bombas no primeiro lugar que vier à mente.
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sábado, 9 de dezembro de 2006

Sobre o preconceito

Um crime violento é noticiado antes de mais nada em todos os jornais televisivos. A sensação de insegurança e revolta que o episódio provoca leva a comentários do tipo: "deviam matar", "deviam deixar preso pra sempre", "deviam fazer com ele o que ele fez com a vítima", "deviam torturar". Isso tudo, claro, se o criminoso for brasileiro. Se o criminoso é estrangeiro, ouviremos coisas como: "argentino desgraçado, volta pra sua terra", "o que é que esses chineses querem no Brasil", "quando é que essa raça vai morrer", "deviam expulsar do país".

Por que será que, quando o criminoso é brasileiro, não se diz que deviam expulsá-lo do país? Será que só queremos distantes os sanguinários estrangeiros, enquanto desejamos os homicidas brasileiros perto de nós?

Uma família aproveita um dia de descanso numa praia de São Paulo. Há palitos de sorvete, espigas de milho, sacolas plásticas e latas de refrigerante por toda a areia. Ouve-se um homem falando espanhol. Não se sabe de onde ele vem. Mas, assim que ele contribui para o aumento da sujeira ao jogar mais um papel no chão, a mãe ensina ao seu filhinho:

-Esses argentinos adoram vir aqui pra sujar nossas praias.

Numa revista de conhecimentos gerais, um colunista comenta sobre um operador de telemarketing americano que não sabe localizar New York no mapa. Um leitor da revista comenta com seu colega ao lado:

-Que povinho burro, hein? Não dá pra acreditar que eles estão onde estão.

Em outra revista, divulga-se que mais de dois terços da população brasileira é constituída de analfabetos funcionais. Embora esse dado represente muito mais para o Brasil do que um operador de telemarketing que não sabe localizar New York no mapa representa para os EUA, ele não vira fofoca para tomar as conversas das rodas de amigos, ao contrário do que acontece com o operador de telemarketing.

Num jornal de meio-dia, conta-se a história de um brasileiro miserável que constrói brinquedos para o seu filho usando garrafas velhas de refrigerante. A repórter fala que seus brinquedos são um símbolo da famosa criatividade brasileira. Já quando os japoneses vieram com o "bichinho virtual", houve quem dissesse:

-Tá explicado porque eles se suicidam tanto! Até os bichinhos de estimação eles querem trocar por tecnologia".

Por falar em suicídios, basta citar a qualidade de vida da Noruega e da Irlanda para um colega brasileiro dizer: "mas, em compensação, eles têm taxas de suicídio entre as mais altas do mundo". Ignora-se os quase 50 mil assassinatos anuais, as mortes por acidente de trânsito, a mortalidade infantil e as mortes nas portas dos hospitais públicos do Brasil. Ignora-se também todos os números que fazem a qualidade de vida da Noruega tão evidente. Tudo para não reconhecer que temos algo a aprender com países europeus.

Penso que essa postura preconceituosa não é predominante no Brasil. Arriscaria dizer que somos o povo mais receptivo. Obviamente, selecionei esses comentários que ouvi de modo a evidenciar uma atitude que não é a regra, mas que, acredito, ainda é característica de uma boa fatia da nossa população.

Um passeio por comunidades e fóruns internacionais na internet fatalmente mostrará que essa postura contra o estrangeiro está presente em todo o mundo. Fala-se mal do brasileiro e de todas as nacionalidades ao redor do planeta, muitas vezes com razão, muitas vezes sem razão.

Quando estamos com um estrangeiro, temos a oportunidade de aprender alguma coisa sobre eles e sobre nós. Sua crítica a nosso respeito é preciosa. Ele pode ter um ponto de vista privilegiado. Conversar com ele é uma grande chance de perceber não só as diferenças entre nossos países, mas as semelhanças, fazendo com que pensemos melhor antes de atacar uma cultura com que nunca tivemos contato. Compreenderemos que seus hábitos, que podem aparentar frieza, desrespeito e intolerância, não são indicativos de má índole. Acabaremos desenvolvendo nossa habilidade de conviver. Nosso ufanismo diminuirá. Veremos as fronteiras de outra forma.

Sendo assim, sempre que ouvir de meus compatriotas um ataque a qualquer outro povo, como se os seus defeitos e fraquezas fizessem parte da sua natureza - se é que estamos aptos a discernir um defeito de um traço cultural - e não fossem conseqüência da história, acreditarei tratar-se de um mal julgamento.

Quanto mais tempo dedicarmos a refletir sobre o que se fala de mal sobre o brasileiro, e quanto mais observarmos o estilo de vida dos outros povos, mais estaremos contribuindo para nosso próprio aperfeiçoamento e para o estabelecimento da paz no mundo.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Temas

Até agora, falei apenas sobre o funcionamento do programa de intercâmbio. Espero que as informações passadas sejam úteis para quem pretende viajar para o exterior num programa semelhante.

A partir de sábado, falarei também sobre pensamentos que o contato com os estrangeiros e as preparações para a viagem têm provocado.

Por favor, fiquem à vontade para comentar e, caso prefiram, escrever para renancontador-contato@yahoo.com.br. Adoraria discutir os assuntos tratados. Críticas e sugestões também serão sempre bem vindas.

Resumo do dia do visto

Meu horário marcado era 7:30. Cheguei às 7:00 no consulado, e a fila já dobrava a esquina, mas andava rapidamente.

Uma vez dentro do consulado, o procedimento era retirar uma senha, entregar os documentos, registrar as digitais e ser entrevistado. Mas tivemos um problema: não sei se por erro no registro do pagamento de uma taxa ou se porque havia muita gente da minha agência ocupando todo o horário de atendimento da manhã, o consulado decidiu que o pessoal da minha agência seria atendido por último. Isso nos deixou preocupados. Pensamos que os entrevistadores poderiam ficar irritados e, assim, negarem mais vistos que o normal.

Esse medo aumentou quando vimos uns quatro estudantes de cidades diferentes tendo seus vistos negados. Mais tarde, soube que os três vistos negados de Porto Alegre correspondiam aos estudantes em maior situação de risco, por ter ou idade mais próxima de 28, ou inglês muito básico ou permanência ilegal anterior nos EUA. Por isso, acredito que nosso medo foi só um engano. Parece-me que os entrevistadores não ficaram irritados e, se ficaram, não negaram os vistos por isso.

Minha entrevista foi bem tranqüila. A conversa foi em português. Só fui perguntado sobre minha faculdade, o local para onde eu iria viajar e quando eu me formaria.

Então é isso! O visto chega por SEDEX nos próximos dias. Estou com um pé aqui e outro lá.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Dicas

Mais algumas dicas para quem pretende participar de um programa Work and Travel:

-Demonstrar entusiasmo nas feiras: na hora da contratação, os empregadores dão preferência àqueles que demonstram entusiasmo. É importante trabalhar a postura com bastante antecedência. Freqüentemente, o estudante se decepciona por não ter conseguido transmitir segurança e simpatia durante a entrevista (acredito que eu não passei uma imagem positiva na segunda entrevista).

Além disso, ser uma pessoa entusiasmada será fundamental tanto para conseguir quanto para manter um bom trabalho, no Brasil e em qualquer lugar.

-Buscar informação: antes de assinar um contrato com a agência, pesquisar depoimentos sobre esse tipo de programa nas comunidades do orkut, onde o pessoal fala sobre suas decepções, angústias, problemas e tudo o mais. Assim, familiariza-se com muitos problemas que podem acontecer.

-Ser universitário: a razão para a obtenção do visto J1 através desse programa ser mais fácil é que o viajante é um estudante que tem vínculo com uma universidade brasileira, na qual entrou depois de um vestibular duro. Estar numa universidade é um indicativo de que o intercambista não pretende ficar ilegalmente nos EUA.

-Ser flexível durante todo o programa: flexibilidade é a chave para se participar de um programa Work and Travel, que envolve uma série de dificuldades. Em menos de 6 meses (algumas vezes, em menos de 2 meses), é preciso preencher dezenas de páginas de formulários, ler manuais, viajar para participar de feiras em outras cidades (essas viagens são por conta da agência de intercâmbio), viajar para receber orientações, participar de reuniões etc. Em toda essas atividades, é muito provável que várias coisas não saiam conforme o planejado. Não estar preparado para isso tornará o intercâmbio estressante.

-Respeitar a agência: dizia Sócrates que o ignorante sempre se queixa dos outros, enquanto o sábio sempre se queixa de si.

Muitas vezes, somos informados sobre as feiras um dia antes de ocorrerem. A agência de intercâmbio não tem controle sobre as datas das feiras. Os empregadores mudam suas datas de acordo com as necessidades deles. Essa é só uma das surpresas que o intercambista pode ter. A agência acaba carregando a cruz de culpada por todas as surpresas desagradáveis dos estudantes, sendo que ela não tem controle sobre tudo. Há outros tipos de programas para quem não tem disponibilidade de tempo e paciência para resolver os pequenos problemas que certamente aparecerão, antes e depois do embarque para os EUA.

-Ouvir os student advisers: ouvir é uma habilidade preciosa. Os student advisers, ex-intercambistas que trabalham na agência, alertam incansavelmente sobre todos os problemas que podem ocorrer. Mesmo assim, é comum ver os estudantes surpresos e revoltados em função desses problemas quando eles ocorrem. Prestar muita atenção a tudo o que os advisers dizem e ler atentamente o contrato evitará que o estudante se surpreenda com muita freqüência.

-Tenha um plano B para o caso de visto negado: visto negado é um obstáculo praticamente impossível de se contornar. Como é comum o estudante abandonar o emprego com antecedência para fazer o intercâmbio, é bom estar preparado para a decepção de não conseguir o visto. A própria agência pode oferecer uma viagem parecida para outro país.

Resumo do programa

Esse post pode ser útil pra quem pretende participar de um programa de intercâmbio "Work and Travel". Vou contar como as coisas funcionaram comigo, mas sem descer aos mínimos detalhes. Caso alguém queira saber mais, é só escrever (renancontador-contato@yahoo.com.br).

No final de 2005, caiu nas minhas mãos uma edição da revista Isto É que falava sobre um tipo de intercâmbio que vinha ganhando popularidade. Era uma modalidade em que estudantes universitários eram contratados por empresas americanas para trabalhar por quatro meses nos EUA.

Nesse tipo de intercâmbio, as contratações ocorrem através de feiras de empregos que acontecem no Brasil. Nas feiras, alunos que se inscrevem no programa através de uma agência brasileira são selecionados. Caso não sejam selecionados na primeira feira da qual participam, podem participar de várias outras feiras. A agência garante um emprego nos EUA em cláusula contratual. Uma vez nos EUA, um bom controle de gastos e disposição para trabalhar muito permitem recuperar o valor investido na viagem. Essa é uma das maneiras mais baratas de se viajar para lá.

A revista falava sobre três agências que ofereciam esse programa de intercâmbio: STB, World Study e Intercultural. Visitei essas três e mais algumas. Simpatizei com a agência que demonstrou mais entusiasmo no atendimento. Mais tarde, não precisei pagar nada por esse diferencial. Mesmo com esse plus, eles ofereciam o preço mais competitivo entre as concorrentes.

Não fechei com a agência imediatamente. Primeiro, pesquisei depoimentos sobre esse programa para conhecer os riscos envolvidos. Só assinei o contrato em meados de 2006. Os principais riscos que o programa oferece são:
-Ter o visto negado antes de embarcar
-O empregador desistir da contratação na última hora
-Ser demitido nos EUA

Sobre o primeiro risco, falarei no próximo post. Sobre o segundo, ele pode complicar o programa, mas, assim que o emprego é cancelado, a agência nos consegue outro. O problema é que isso demora um pouco e, como só se pode trabalhar por quatro meses lá, o tempo que não se trabalha é dinheiro perdido. Sobre o terceiro risco, pode acontecer de a demissão levar a um cancelamento do visto, dependendo da razão da demissão. Caso o visto não seja cancelado, é possível arrumar outro emprego, com ou sem a ajuda da agência.

Fui avisado de que, entre as empresas que realizariam feiras de emprego no Brasil, estava o Foxwoods Cassino, do Estado de Connecticut. A feira, porém, ocorreria depois das feiras de dois outros ótimos empregadores: a Universal e o Harra´s Cassino. Uma vez decidido por tentar o Fox, eu não poderia tentar as vagas oferecidas pelos dois outros empregadores. Mas resolvi arriscar. Na verdade, meu desejo era trabalhar numa estação de ski. Mas como as feiras de emprego de estações de ski eram mais para o fim do ano, fiquei com receio de aguardar demais, perder a oportunidade de trabalhar num lugar bom, como o Foxwoods e, no final, por qualquer razão, não conseguir trabalho num ski resort. Assim, resolvi tentar o Foxwoods.

A feira ocorreu em agosto, em um hotel em Curitiba. A emoção do meu intercâmbio começava já nessa viagem. Sempre ouvira muito sobre a beleza de Curitiba. Mas, mesmo assim, a surpresa foi muito grande ao andar pela avenida 7 de Setembro. Prédios elegantes e altos beiravam o asfalto impecável. A avenida era larga e longa. Mal conseguia ver o fim. E ela era cortada por várias outras ruas igualmente longas. Era um lugar espetacular.

Antes da entrevista, uma prova de matemática, na qual fui muito bem e que elevou minha confiança. Eu seria o décimo nono a ser entrevistado. Meu inglês estava afiado e eu estava seguro. Enquanto aguardava minha chamada junto de alguns colegas, um senhor passou mal ao nosso lado. Vomitou muito, mas muito sangue. Uma equipe médica apareceu para socorrê-lo. O episódio serviu para aumentar o drama de quem temia não conseguir se comunicar na hora da conversa com o selecionador.

Chega a minha vez. Cumprimento o selecionador, figura simpática, mas que não fala português, e a conversa flui naturalmente. Em nenhum momento o inglês trava. Ele me pergunta sobre a razão da viagem, sobre habilidades, sobre minhas preferências de trabalho e outras coisas.

A entrevista acabou e eu me sentia como se tivesse conversado em português com um amigo qualquer. Mas não dava por certo a contratação. Procurei não ficar alegre demais, já que não sabia exatamente que tipo de empregado eles procuravam e, portanto, não podia sequer imaginar se eu passara a imagem desejada por eles.

Fiz bem em não me deixar comemorar. Três semanas depois, veio a notícia de que eu não havia passado.

Depois de alguns dias de absorção da frustração, nova oportunidade: feira de empregos de um ski resort chamado Big Sky (site: http://www.bigskyresort.com/). A seleção tinha 2 fases: na primeira, teste de inglês em Porto Alegre. Na segunda, entrevista com uma selecionadora, em Florianópolis.

Na primeira fase, o teste de inglês, não estando tão seguro quanto na entrevista do Foxwoods, gaguejei, troquei palavras e, acredito, não passei uma imagem de entusiasmo. Após o teste, fui informado de que havia atingido notas 4 e 4 para habilidade com o inglês e sociabilidade, respectivamente, numa pontuação máxima de 5 para cada. Fui melhor do que esperava.

Já na segunda fase, eu estava seguro novamente. A entrevista foi um bate-papo com uma selecionadora muito divertida. No fim de semana, já tínhamos os resultados. Eu havia sido aprovado, assim como todos os outros seis colegas que participaram da feira. Começava então a parte mais estressante do programa, na minha opinião: a obtenção do visto.

O visto necessário para se participar desse tipo de programa é chamado “J1”. Para se obter esse visto, é necessário apresentar ao consulado um documento chamado DS2019. Quem providencia esse documento é o empregador do intercambista. Para o empregador, providenciar esse documento envolve lidar com uma burocracia nos EUA. No meu caso, o DS2019 só apareceu em dezembro, pouco menos de duas semanas antes da data de embarque para os EUA. Além desse formulário trazido pelo empregador, é necessário que o intercambista prepare outros formulários e obtenha uma série de documentos, para apresentá-los no consulado no dia da obtenção do visto. Esses documentos têm por objetivo comprovar que o viajante tem responsáveis financeiros no Brasil, que possam lhe enviar dinheiro caso ele precise nos EUA, e que o estudante não praticará crimes para se manter.

O processo do visto é estressante porque ameaça jogar no lixo todo o esforço dispendido desde o começo do programa: participação nas feiras, viajem para receber orientação, preenchimento de muitos papéis, abandono de emprego, adaptação dos planos para a faculdade, despesa com documentos etc.

É difícil saber com exatidão quais são os critérios usados pelo consulado para conceder ou negar o visto . Sabe-se apenas que, quanto mais alta a renda dos responsáveis financeiros, quanto maior o patrimônio deles, quanto mais jovem o estudante for (idade máxima de 28 anos), quanto melhor for o seu inglês e quanto mais no começo da faculdade ele estiver, maiores as chances de obter o visto. A grande preocupação do consulado é que o estudante tente ficar nos EUA para sempre. Além disso, nos atentados de 11/9, um dos terroristas usava o mesmo tipo de visto necessário para esse programa, o que aumentou as exigências do consulado para concedê-lo.

A data para eu tentar o visto no consulado foi ontem. No próximo post, falo sobre como foi. Isso não é pra fazer o pessoal entrar no blog de novo, hein? É que, agora que cheguei em Campinas, também tenho umas coisas pra fazer por aqui e já estou saindo!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Primeiro atraso

Peço desculpas por não poder postar nos próximos dois dias. Embarco hoje para São Paulo, e o meu tempo vai ser devorado pelas coisas que devo deixar preparadas por aqui para quando eu estiver fora.

A entrevista para o visto é na quarta-feira! Já na quinta-feira, conto como foi tudo por lá.

Obrigado a todos pelas visitas ao blog. Ainda não instalei o contador visível, mas acompanho as estatísticas do blog pelo Google Analytics. Desde a criação do blog, no sábado de madrugada, foram 60 visitas.

Até quinta!

sábado, 2 de dezembro de 2006

Razões para a viagem

É de senso comum que, em grande parte das áreas de atuação profissional, inglês deixou de ser diferencial e agora é pré-requisito. Mas, embora passar um tempo no exterior colabore para aperfeiçoar a fluência no idioma, não estou congelando minha vida acadêmica e profissional apenas para ter um inglês melhor.

As razões para minha viagem estão resumidas numa passagem do livro "Mar sem fim", de Amyr Klink:

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver”.

Resumindo: além da melhora no inglês, ter contato tão direto com uma cultura estrangeira me trará uma compreensão melhor não só do Brasil, mas do mundo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Foto minha
















O livro que eu estava lendo aí era "Labirinto", de Kate Mosse.

O livro ao lado é "O Mundo Assombrado pelos Demônios", de Carl Sagan. Já estava louco pra lê-lo.

Na minha frente, o meu "bloquinho da sabedoria", onde eu anoto as melhores frases que ouço e leio.

Ao fundo, o centrão de Porto Alegre.

renancontador-contato@yahoo.com.br

Começando

Ontem foi o meu último dia de faculdade em 2006. Logo depois da aula, treze colegas resolveram bater um papo em algum lugar da Lima e Silva e comemorar o fim da semana estressante de provas.

Além de ser meu último dia de aula, era a última vez que via meus colegas pelos próximos seis meses. No domingo ou na segunda-feira - ainda não tenho certeza - embarco para São Paulo para tentar o visto de trabalho de 4 meses nos EUA, que é o último possível impedimento à minha viagem de intercâmbio, daqui 11 dias. Passagens, moradia, emprego e todos os outros detalhes já estão definidos. Providenciar o visto não ficou para tão próximo da viagem por descuido. Isso aconteceu porque meu programa de intercâmbio é do tipo "Work and Travel". Nessa modalidade, a obtenção do visto depende de uma série de papéis providenciados pelo empregador no exterior. Sendo assim, não há como obter o visto antes de se ter todos os detalhes da viagem definidos.

Eu já havia passado toda a semana em clima de despedida. Mas, agora que estávamos reunidos, curtindo o fim da correria, começava a bater aquela saudade mais forte dos amigos.

Depois do descanso e da conversa no "Pingüim", fomos nos despedir e o pessoal todo pediu que eu escrevesse sempre que pudesse quando estivesse lá fora. Na brincadeira, eu disse:

-Pode deixar, pessoal. Eu vou mandar uma circular. Ou vou fazer um blog.

Voltando pela rua para casa, minha namorada me disse:

-Vai fazer um blog, é, Renanzinho?

Parei pra pensar sobre isso. Sempre gostei muito de escrever. Dos 13 aos 18, escrevi em torno de 25 letras de músicas, que eu cantava e tocava com meu violão. Mas eram apenas letras descompromissadas (embora, na época, eu desejasse muito que fossem mais que isso). Arrisco uns ensaios em casa sobre diversos assuntos. Recentemente - não me lembro mais em que circunstâncias - uma história sobre um anjo surgiu na minha cabeça, já com início, meio e fim. Pensei comigo: - serei capaz de contar uma história num livro?

Depois de começar a escrevê-la, tive o prazer de perceber que sim. Tentar contar da maneira mais bela essa história que eu criei e continuo criando tem sido minha atividade mais prazerosa. Meu envolvimento com esse livro já é forte e sério. Tenho trabalhado pra que ele seja uma obra rica. Mas, como não sobra muito tempo para que eu me dedique a ele, em função dos estudos e trabalho, não acredito que ele fique pronto antes de 2010.

Gravar essa história não satisfaz todo o meu desejo de escrever. Mas sobre o que eu poderia escrever? Que experiência especial eu posso abrir, que seja particularmente interessante?

Não fosse minha namorada, ao perguntar se eu realmente faria o blog, eu não teria percebido que eu poderia escrever sobre essa viagem aos EUA. Durante todo esse ano em que planejei, viajei pelo Brasil e entrei em contato com estrangeiros, tudo em função do intercâmbio, vários momentos provocaram emoção. E o intercâmbio de verdade nem começou. Provavelmente, escrever sobre os sentimentos de se experimentar uma cultura diferente, quando as emoções ainda estão frescas, pode fornecer diversão ou informação para pessoas que planejem fazer viagem parecida, ou simplesmente queiram saber sobre a rotina de quem cai num mundo diferente do seu.

Sendo assim, esse é meu compromisso com esse blog a partir de hoje: contar os acontecimentos e os pensamentos que essa viagem provocará.
Não sei com que facilidade acessarei a internet quando estiver por lá. Pode ser que o blog fique semanas sem atualização. Mas levarei um caderno comigo, onde escreverei diariamente, para depois transcrever pra cá.

Aqui começa a nossa viagem!