sábado, 5 de março de 2011

Piadinhas análogas: Lula e Obama

_Pouco depois do resultado da última eleição para presidente dos Estados Unidos, a Veja publicou texto de André Petry, que, em resposta a semelhanças que vinham sendo apontadas entre as trajetórias de Obama e Lula, elencou diferenças entre os dois. Seguem algumas:
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__- Obama faz parte de uma minoria étnica nos EUA. Lula faz parte de uma maioria étnica no Brasil;
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__- Obama venceu a eleição presidencial na primeira tentativa. Lula, na quarta;
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__- Obama é filho de estrangeiro. Os pais de Lula são brasileiros;
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__- Obama estudou na universidade de Harvard, tida como a melhor do planeta. Lula não tem educação superior;
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__Petry menciona como semelhança entre os dois o ineditismo de seus feitos: Obama, o primeiro negro a ser eleito presidente dos EUA. Lula, o primeiro presidente de origem humilde.
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__Pois eu notei uma semelhança que preciso compartilhar! Tratam-se das piadinhas que os amigos americanos me enviam por e-mail sobre o Obama. Estou há algum tempo pra postar algumas aqui no blog. Segue uma que recebi hoje. Acredito que quem esteve acostumado a receber e-mails sacaneando o Lula quando ele era presidente vai entender o que estou dizendo.
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1 - What one person receives without working for, another person must work for without receiving.
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2 - The government cannot give to anybody anything that the government does not first take from somebody else.
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3 - When half of the people get the idea that they do not have to work because the other half is going to take care of them, and when the other half gets the idea that it does no good to work, because somebody else is going to get what they work for, that my dear friend, is the beginning of the end of any nation.
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4 - You cannot multiply wealth by dividing it.
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Tradução livre:
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1 - O que uma pessoa recebe sem precisar trabalhar, outra pessoa precisa trabalhar sem receber;
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2 - O governo não pode dar a ninguém algo sem antes tirar algo de alguém;
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3 - Quando metade das pessoas entende que não precisa trabalhar porque a outra metade vai cuidar delas, e quando a outra metade entende que não vale de nada trabalhar, porque um outro vai receber pelo trabalho, meu amigo, é o começo do fim de qualquer nação;
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4 - Você não pode multiplicar a riqueza pela sua divisão.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Intercâmbio para os EUA engorda?

__Sim. Voltei e permaneci muitos quilos acima do ideal.
__Como não sou um idealista...

domingo, 21 de junho de 2009

Os mesmos preconceitos ?

__Resultado de pesquisa da Revista Veja, em parceria com a CNT/Sensus, publicada na edição de 26 de setembro de 2007. Os entrevistados eram brasileiros:

O SENHOR VOTARIA PARA PRESIDENTE...

em um negro?

Sim - 84%
Depende da pessoa - 14%
Não - 1%
Não sabem ou não responderam - 1%

em uma mulher?

Sim - 57%
Depende da pessoa - 29%
Não - 12%
Não sabem ou não responderam - 2%

em um homossexual?

Sim - 32%
Depende da pessoa - 32%
Não - 34%
Não sabem ou não responderam - 2%

em um ateu?

Sim - 13%
Depende da pessoa - 25%
Não - 59%
Não sabem ou não responderam - 3%

__Resultado de pesquisa de 1999 do Instituto Gallup:
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Da população americana,
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__92% votaria em um negro ou em um judeu;
__95% votaria em uma mulher;
__79% votaria em um homossexual;
__49% votaria em um ateu.

sábado, 11 de abril de 2009

Duplipensar

__Frase de Tom Jobim, falando sobre viver fora do Brasil:
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"Viver lá fora é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom."
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__Sobre como encontrei essa frase: numa tarde de sábado, terminei de ler o livro 1984, de George Orwell. Na obra, uma ditadura utiliza em seu governo o princípio do duplipensar, "o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que tenha se tornado conveniente".
__Assim que acabei de ler o livro, fui a uma livraria e dei de cara com o "Deu no New York Times", do jornalista Larry Rohter. Tema: "O Brasil segundo a ótica de um repórter do jornal mais influente do mundo". Abri o livro em qualquer parte e, na página 92, o autor menciona George Orwell e o duplipensar, e diz que "os brasileiros são realmente craques nessa arte. Eles são ao mesmo tempo ufanistas sobre o Brasil, às vezes chegando a ser cansativos, e os mais implacáveis críticos de sua sociedade." Menciona, então, a frase que abre esse post como exemplo do duplipensar.
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__Em 1984, o duplipensar existe para que os cidadãos aceitem viver numa sociedade de incoerências: acreditar no progresso quando a pobreza só aumenta e buscar a paz através da guerra. É uma arte do engano. Já Francis Scott Fitzgerald, que morreu uns 8 anos antes de o livro 1984 ser publicado, disse certa vez:
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__"Uma inteligência de primeira categoria se mede pela capacidade de manter duas idéias opostas em mente, ao mesmo tempo, e, ainda assim, reter a capacidade de funcionar. É, por exemplo, ter a certeza de que as coisas não têm esperança e, ainda assim, manter o ânimo de transformá-las".
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__E assim termina o momento Pedro Bial deste post.
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__Quer dizer, não termina não: não foi em um livro do F. Scott Fitzgerald que li sua frase, mas em um livro do Pedro Bial, "Roberto Marinho".
__Agora, sim, acabou.
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__Quer dizer... no livro 1984, câmeras espalhadas por todos os lugares observam o comportamento dos cidadãos, que são vigiados 24 horas por dia. Tal invasão de privacidade ocorre em nome do personagem Big Brother, o líder, o Grande Irmão. E o programa Big Brother, apresentado por Pedro Bial, tem esse nome por causa desse personagem do livro 1984.
__Agora sim, acabou.
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__É sério, acabou mesmo.
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__Acabei comprando o livro do Larry Rohter. Comprar este livro me deu a motivação de blogar um pouco, depois de mais de um ano. Provavelmente por causa da semelhança das obras: o livro dele é o Brasil pela ótica de um americano. Este blog é a América pela ótica de um brasileiro. Como temos quase o mesmo tempo de experiência com a escrita e ganhamos quase a mesma quantia em dinheiro por nossas atividades de redação, este blog e o livro dele são quase a mesma coisa.
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__Gostei um pouco do livro. Foi bom saber sobre os artigos que ele publicou sobre o Brasil lá fora, além do único que eu conhecia até então, que tratava do gosto do Presidente Lula pela bebida. Entre os que foram selecionados para o livro, há aqueles elogiosos, que tratam da economia, da cultura, da ciência e da tecnologia do país, e aqueles que tratam de tristes realidades desta terra, como a pobreza que leva cidadãos aos traficantes de órgãos ou ao trabalho escravo, a corrupção generalizada e a nossa incapacidade de impedir a destruição da Amazônia. O livro também vale por refrescar a memória quanto às histórias do mensalão, do assassinato do prefeito Celso Daniel e da possível conexão entre elas. Até porque, como opina o próprio Rohter, o brasileiro tem uma facilidade incrível de esquecer episódios recentes da política nacional.
__Já as reflexões presentes no livro não são das mais empolgantes.
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__Sugiro uma espiada (desculpa, Bial!) no seguinte blog: Living in Brazil. Este sim, parecidíssimo com o meu. É um americano vivendo em Porto Alegre, descrevendo seu dia-a-dia, exatamente como eu fiz quando estive fora. Só não tem fotos.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O meu isqueiro

__Numa das vezes em que andei pela Main Street de Bozeman, parei numa tabacaria para dar uma olhada nas revistas. Caí na tentação de dar uma espiadinha nos isqueiros que estavam à venda. Sempre quis comprar um dos bons. Não que eu entenda alguma coisa disso. Mas toda vez que eu dou uma volta em algum shopping do Brasil, acabo parando na frente de uma daquelas lojinhas que vendem baralhos e enfeiteis a preços absurdos e fico cobiçando aqueles isqueiros charmosos.
__Depois de observar todos os que estavam vitrine, pedi para o cara do caixa que me deixasse ver um com cor de madeira. Tinha umas duas polegadas e era dourado na ponta. Testei a chama, que era azul, forte, tinha formato de agulha e fazia som de maçarico.
__-Quanto é?
__-Trinta e nove dólares.
__Eu ainda não tinha comprado nada em Montana para trazer de lembrança. E eu nunca encontraria um isqueiro espetacular daqueles por trinta e nove dólares no Brasil. Mesmo que encontrasse, não compraria, porque ganhar trinta e nove dólares em Montana era uma coisa. Em Porto Alegre, é outra completamente diferente. Aquela era a hora de comprar um pecado para o resto da vida. Paguei com a dor de um contador mão de vaca que sabe que está gastando com um luxo absolutamente inútil.
__Até o fim da minha estadia em Big Sky, andei para lá e para cá com o isqueiro no bolso da minha jaqueta preta do Brasil. Não abri a mão nem para comprar uma jaqueta especial para o frio em uma cidade que vive temperaturas abaixo de 40 graus negativos, mas comprei um isqueiro. À noite, antes de dormir, brincava com ele no escuro. Os colegas achavam que ele era o máximo. Que compra!
__Pouco mais de um mês depois, chegou a hora de deixar Montana. O taxista que me levou até o aeroporto me contou sobre a raiva que os montanenses vinham cultivando contra os californianos cheios da grana que fazem fortuna na califórnia e compram terras e casas em Montana. Por causa desse movimento, vai ficando cada vez mais difícil para um montanense comprar uma casa na sua própria terra, pois os preços dos imóveis sobem sem parar. Uma pena para mim, que sonhei (e ainda sonho) em voltar para morar um dia por ali. Tudo bem. Pelo menos comprei um isqueiro de lembrança.
__Cheguei no aeroporto e fiquei registrando minhas histórias no computador até a hora do vôo. Veio a hora de passar pelos portões de embarque e pela segurança. Entrei na fila para fazer o strip-tease. Antes de qualquer vôo nos EUA, revistam não só nossas mochilas, mas também nossos cintos e nossos sapatos. Na minha vez de mostrar tudo, a segurança simpaticíssima que me revistaria falou:
__-Preciso da sua jaqueta.
__-Claro! Aqui está.
__Ela revistou bolso por bolso, até colocar a mão no meu querido isqueiro. Pegou, girou, analisou e disse, gaguejando, sem jeito, quase pedindo desculpas:
__-Senhor, isqueiros não são permitidos no avião...
__-E o que eu faço?
__-Você tem duas opções: pode voltar para o saguão do aeroporto e deixar o isqueiro com algum parente ou enviá-lo para algum endereço por Fedex.
__Pensei, pensei e pensei.
__-Não posso deixar esse isqueiro com o piloto? Daí ele me devolve quando chegarmos no destino.
__Para o meu azar, eu estava em um país sério, em que as chances de alguém fazer o que é pago para fazer são um tanto maiores do que no Brasil:
__-Infelizmente, não, senhor. Os pilotos também são proibidos de levar isqueiros. Não há como o senhor levar este isqueiro neste vôo.
__Pensei mais e mais, mas não havia o que fazer.
__-Moça, vou levar esse isqueiro comigo, você querendo ou não.
__Brincadeira! Eu jamais diria isso. O que eu disse, levantando os braços em sinal de conformação, foi:
__-Bem, acho que não há nada que eu possa fazer. Vou deixar o isqueiro aqui com você.
__-Sinto muito, senhor. Eu sinto muito.
__-Tudo bem, tudo bem. Você só está fazendo o seu trabalho.
__Olhei para trás e lá estava o Bryan, um amigo americano do Big Sky. Ele era o próximo da fila. Eu não sei como estava o meu rosto, mas o dele era pura tristeza. Ele estava sensibilizado por causa da minha perda inestimável.
__-Sinto muito, Renan. Eu sinto muito. Você é um cara legal, Renan. Você é um cara legal.
__Essa foi a história que marcou a minha despedida de Montana. Gostaria de trazer um pedaço de Montana comigo, mas foi Montana que ficou com um pedaço de mim: o meu isqueiro.
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__JJá no Brasil, casualmente encontrei o mesmo isqueiro por 375 reais. Só encontrei, não comprei.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Duas figuraças!

__Deixei Big Sky de carona junto com o João. Fomos juntos para Bozeman. Ele passaria um mês viajando pelos EUA, principalmente pela Califórnia. Eu ainda tinha mais dois meses pela frente. Encontraria meus amigos Eddy e Darlene em Las Vegas dali dois dias. Até lá, ficaria hospedado no Backpackers.
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__Backpackers
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__O ônibus do João para a Califórnia sairia perto da meia-noite. Como chegamos em Bozeman por volta das 4 horas, ele ainda tinha bastante tempo para matar. Depois de darmos uma rodada pela cidade, fomos tirar um descanso no Backpackers. Lá, um velhinho descansava sentado na frente do albergue. Depois que nos viu entrar, veio atrás. O João foi tomar um banho. Eu fiquei no sofá, tocando o violão da casa, e aquele senhor veio conversar comigo.
__-Então, de onde você é?
__-Do Brasil.
__-Hum. É turista?
__-É... mais ou menos. Vim para trabalhar no Big Sky.
__-Oh! Eu trabalho no Yellowstone Park. Conhece?
__-Sim.
__-Eu sei tudo de lá. Sou um guia. Tem animais lá no parque que fui eu quem descobriu. Adoro estar lá. Adoro trabalhar. Diz a Bíblia que o trabalho... sim, eu sou um cristão. Como eu falava, diz a Bíblia que o trabalho...
__Ele falava sem olhar nos meus olhos. Estava sempre com o rosto virado para o teto. Só nas pausas e no fim das frases é que ele se voltava para mim. E estava também olhando para cima quando falou da Bíblia, para então parar, olhar para mim e dizer que sim, ele era cristão. Como se eu tivesse ficado espantado com o simples fato de ele ser cristão. Como se fosse uma grande surpresa ouvir alguém falar da Bíblia em um país protestante.
__-O homem precisa trabalhar. Eu poderia estar aposentado, mas não. Trabalharei até morrer, mesmo ganhando pouco. Além de trabalhar, sou pastor. Morei em Los Angeles. Trabalhei tentando recuperar membros de gangues. Fui esfaqueado no ônibus por um deles. Quando eu era bem novo, perdi minha esposa e meu filho em um acidente de carro. Mas estou aqui trabalhando. E pregando. Tudo bem se você não for cristão. Respeito quem não acredita em nada e quem acredita em qualquer religião, até no Islã. Não, não. No Islã não. Esqueça o que eu disse sobre o Islã. Essa é uma religião violenta que prega o mal. Não que eu seja um pacifista. Não sou um pacifista. Mexa com a minha família e você vai ver quão pacifista eu sou. Que tipo de governo vocês têm no Brasil?
__-Uma democracia capitalista.
__-Hum! Capitalismo. Isso é bom. Não há nada de errado com o capitalismo, não é mesmo?
__-Não.
__Nisso, um homem moreno começou a descer as escadas que vinham dos quartos do segundo andar. Ele usava uma bandana e uma camisa xadrez. O velhinho falou com ele:
__-Hey! O rapaz aqui está me dizendo que o Brasil é capitalista. Isto não é bom?
__-É, ué (não existe americano com sotaque e expressões mineiras. Mas o que ele disse e do jeito que disse pode ser traduzido assim). O velhinho continuou:
__-O capitalismo é bom. Ei, rapaz. Não escute o que esse cara aí de bandana tem a dizer.
__O velhinho seguiu com seu monólogo. Contou que estava fora do parque onde trabalhava como guia porque era tempo de férias, mas que estava trabalhando como pedreiro em Bozeman, porque o trabalho é um valor e não se pode parar de trabalhar.
__Uma meia hora depois, apareceu o João. O velhinho me perguntou:
__-E esse rapaz aí, quem é?
__-É meu amigo. Ele é do Brasil também.
__O João se aproximou:
__-Oi!
__-Oi, como vai?
__Falei para o João:
__-Ele trabalha no Yellowstone.
__O João voltou-se para ele:
__-Mesmo?
__-Sim. Eu estou velho, mas continuo trabalhando. Sou um guia. Alguns animais de lá fui eu mesmo quem descobriu. Bichos que nem se imaginava que existiam por lá. Adoro trabalhar. Diz a Bíblia que o trabalho... sim, eu sou um cristão. Então, diz a Bíblia que o trabalho...
__Conversa vai, conversa vem, o morenão tira a bandana. A careca dele era branca como a neve. Por um tempo, foi a vez dele de contar histórias. Falou bastante sobre sua viagem pela Europa e pelo jeito um tanto "liberal demais" do povo de lá, mas falou bem pouco sobre um país que ele visitou e não sente saudades: o Vietnã. Perguntei:
__-Você lutou na guerra?
__Respondeu olhando para o chão, triste:
__-Sim. Mas bem pouco tempo.
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__O ex-combatente e o velhinho cristão. Sim, cristão.
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__No dia seguinte, conversamos sobre armas. Não me lembro exatamente porque começamos a falar disso, mas acho que foi porque o cara da bandana carregava uma. O velhinho fez olhar de reprovação quando o mais novo disse, com a mão no pênis:
__-Acreditem: meu pinto me traz muito mais problemas do que o meu revólver. O que foi? É verdade, ué!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Até mais, Big Sky!

__Eu já sabia como era sentir saudades de um lugar. Por isso, desde que cheguei em Montana, fiz um esforço triste para guardar cada momento. Quando passei pelas portas automáticas do aeroporto de Bozeman, respirei fundo para marcar o cheiro do ar gelado. Fiquei ali parado no frio para nunca esquecer a sensação do vento muitos graus abaixo de zero tocando a pele. Caminhei em direção à neve para tocá-la pela primeira vez, pegá-la na mão para saber como é.
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__Saída do aeroporto de Bozeman: primeiro pedaço de EUA que eu conheci
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__Cedo ou tarde, todo mundo conhece aquele sentimento do "se eu soubesse que eu sentiria tanta falta daquilo, teria aproveitado melhor". Foi por isso que eu me concentrei para não deixar nenhum momento passar. Mesmo nas primeiras horas andando no frio, estive absolutamente certo de que eu desejaria muito reviver aqueles primeiros passos. Parecia que os quatro meses que viriam seriam o bastante, mas minha experiência me dizia que isso era só uma ilusão. Graças a esse desespero, minhas lembranças dessa viagem estão vivas como poucas.
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__O nascer do sol em Big Sky
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__Tentei explicar a alguns colegas sobre a falta que sentiríamos de tudo aquilo. Alguns achavam que eu exagerava, que a neve só tinha sido especial no começo e que depois de um tempo ela parecia tão normal quanto areia ou terra. Quando eles tiveram que deixar a cidade para voltar ao Brasil, perceberam o engano, mas já não era possível comentá-lo, pois aqueles homens feitos choravam como bebezinhos. Só não aconteceu comigo porque, por dentro, chorei um pouco todos os dias desde a chegada.
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__Fui um dos últimos estrangeiros a deixar o resort. Fiquei até o dia em que os hotéis fecharam as portas e a temperatura chegou a uns 8 graus positivos (que calor!). Deixei a cidade de carona com mais três trabalhadores. Nenhum floco de neve havia ficado para cobrir as montanhas e os campos que contornavam a estrada. Agora o mato queimado ia dando lugar a uma paisagem mais verde. Desejei conhecer as estações que viriam. Desejei e continuo desejando. Estou ligado àquele lugar justamente por esse desejo que não me deixou um dia sequer.