Intercâmbio para os EUA engorda?
__Sim. Voltei e permaneci muitos quilos acima do ideal.
__Como não sou um idealista...
Este blog, criado em 02/12/2006, guarda histórias e pensamentos sobre minha viagem de intercâmbio de trabalho para os Estados Unidos, que começou no dia 13 de dezembro e durou 6 meses. Meu destino foi Big Sky/MT e fui empregado do Big Sky Resort, a maior estação de esqui dos EUA.
__Sim. Voltei e permaneci muitos quilos acima do ideal.
__Como não sou um idealista...
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Renan Caleffi de Oliveira
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__O indivíduo estava bem na minha frente, separado do Ibrahim pelo balcão. Se ele sacasse uma arma, Ibrahim não teria para onde ir. Mas será que ele teria mesmo um revólver? Ou talvez uma faca? Não. Big Sky não tinha dessas histórias. Era uma cidade pacata de 500 habitantes apenas. Nenhuma história de morte por motivos banais aconteceria ali. Veio à minha cabeça, porém, o punhado de histórias de meninos que atiram em meninos e meninas nas escolas americanas. Seria aquele cara alguém desse tipo?
__Todas essas coisas me passaram pela cabeça naquele momento. Todas. Parece muita coisa para se pensar em poucos segundos, mas o tempo realmente passa mais devagar quando a coisa fica preta (ou parece que fica preta). E os meus pensamentos não pararam por aí.
__O cara era magro e estava de lado para mim, olhando para o Ibrahim. Nem tinha percebido que eu estava olhando para ele. Pensei em partir com tudo para cima dele e jogá-lo no chão. Poderia dar uma cabeçada no rosto dele para quebrar seu nariz. Se ele não desmaiasse na hora, poderia bater com a cabeça dele no chão até ele desmaiar. Ele não teria tempo para pegar qualquer arma. Mas e se ele nem tivesse uma arma e eu o machucasse? Seria inteligente para um estrangeiro espancar um nativo desarmado?
__Ibrahim pegou o telefone e disse:
__-Você acha que eu estou brincando, né? Estou ligando para o cherife agora mesmo. Fica aí que você vai ser preso.
__-Liga! Não estou nem aí. Liga de uma vez. Vai! Quero ver você ligar.
__-Estou ligando, não está vendo?
__Nisso, o cara começou a andar para trás. Ibrahim continuava com o telefone no ouvido:
__-Dá o fora daqui, cara! Sai!
__-Vai se foder, cara! Vai se foder.
__A encrenca saiu do hotel. E eu continuava na mesma posição que estava quando tudo começara. Pela porta de vidro, vi o bebum indo embora. Ibrahim já estava sentado novamente, olhando para a tela do computador.
__-Ibrahim, você é meio corajoso, né?
__-Eu não dou merda nenhuma pra esses caras. O cara chega bêbado aqui e vem querer me encher o saco.
__Ibrahim não bebe e detesta gente bêbada.
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__Em dezembro de 2007, hospedei uma americana por duas semanas
__-Mandy, isso não foi meio estúpido? Quero dizer... alguém vem roubar o seu carro. Daí você sai com um pedaço de pau pra bater no ladrão. O bandido não pode simplesmente dar um tiro em você?
__Ela respondeu como se o estúpido fosse eu (o que é bem possível):
__-Ladrões vão à sua casa para roubar as suas coisas, não para atirar em você.
__-Eu sei. Mas os ladrões não carregam revólveres?
__-Às vezes.
__-Então como é que o cara sai com um pedaço de pau para enfrentar alguém que tem uma arma?
__-Mas o ladrão nem sempre tem arma...
__Ela pensou um pouco e voltou a falar:
__-É. O cara foi um pouco estúpido mesmo.
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__O Ibrahim e a Mandy não precisam temer tanto quanto nós, brasileiros. Uma quantidade absurda de nós já esteve na mira de uma arma. Quando nossos telefones tocam no meio da madrugada e, do outro lado da linha, alguém diz ter seqüestrado algum parente, acreditamos, ainda que o parente esteja dormindo no quarto ao lado. Por que acreditamos? Porque todos sabemos que, cedo ou tarde, será a nossa vez de ser vítima de um crime. Quando o bandido mostra a faca, ou bate com a ponta do revólver na janela do carro, ou passa pela porta do banco e anuncia o assalto, pensamos: "É, chegou a hora. O jeito é ficar calmo pra sair vivo e poder contar essa história quando chegar em casa." Já não há qualquer surpresa.
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Renan Caleffi de Oliveira
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